One Direction – Made In The A.M. (2015)

one_direction_madeintheam_cover

A música da boyband começa a amadurecer

Por Lucas Scaliza

Made In The A.M. é o quinto disco de estúdio do One Direction e o primeiro desde que Zayn Malik deixou o grupo, transformando-o em um quarteto. É seguro afirmar que o frenesi em torno da boyband não diminui com isso e nem sua “missão” mudou. Continuam sendo um grupo pop para as massas que precisam pagar de – ou ser – bons moços aos olhos de todo mundo, seduzindo mocinhas e mocinhos com suas músicas cheias de melodia, mantendo a ilusão fofa de uma juventude supostamente inofensiva, branca e de elite.

No entanto, é uma melhor coleção de canções do que Four (2014) e todos os outros discos prévios. Ouvindo Made In The A.M. tenho a impressão pela primeira vez na carreira do One Direction de que se tratam de rapazes com mais de 20 anos e não jovens colegiais de 16. Existe muita inocência na forma regularzinha como a música é tratada e na polidez das palavras, mas não é mais uma impressão hegemônica. Há pequenas mudanças no som e no tom das letras que mostram que começaram, enfim, a amadurecer.

One-direction-1d-2015-billboard-650

Assim como a grande maioria das bandas e artistas pop de hoje, o quarteto formado por Louis Tomlinson, Harry Styles, Niall Horan e Liam Payne recebe a ajuda de músicos, compositores e produtores mais experientes e “malandros” da indústria. Mas os quatro se envolvem na composição do que vão cantar, principalmente Tomlinson, que está creditado em sete das 17 faixas da versão deluxe do disco. Isso ajuda a dar mais autenticidade ao grupo, mas não se engane, pois Julian Bunetta (que escreve para o grupo desde Take Me Home [2012]) tem crédito pela criação de 13 faixas, fora o posto de coprodutor.

Embora o trabalho tenha músicas típicas de boybands, como “Perfect”, “Infinity”, “Drag Me Down” e “Love You Goodbye”, provam em outras faixas que começam a buscar uma maior abertura sonora, ainda condizente com o mainstream mas menos ansiosos e um pouco menos infantis do que soavam até o ano passado, incluindo batidas mais comedidas, arranjos menos óbvios e até alguma desilusão dentro da bolha em que foram gestados. “Hey Angel” recupera algo do britpop dos anos 90 e é, talvez, uma das faixas menos melosas e mais interessantes que já ouvi do One Direction. “Never Enough” é uma música simples, mas é divertida, permitindo que se levem menos a sério, algo que faz parte do grupo enquanto quatro caras jovens que se dão bem juntos. Um acerto de Niall Horan.

Outras que conquistaram a atenção do meu ouvido foram “Olivia” e “What a Feeling”. São o ponto fora da curva. Guardadas as devidas proporções de criação e mérito artístico, “Olivia” poderia ser o que “Eleanor Rigby” foi para os Beatles dentro de Revolver (1966): música curta e com orquestrações no lugar do pop/rock que se esperava da banda. Liam Payne estava inspirado. E “What a Feeling” é uma música que recupera diretamente o pop dos anos 90 em tudo: no refrão em coro, na linha de baixo bem marcada e nos detalhes da guitarra ao longo da canção. “I Want To Write You a Song” é o 1D tentando ser folk. É toda voz, violão, vocalizações suaves e violinos. A mixagem ainda preserva o som dos dedos correndo pela escala do instrumento de seis cordas. Se eles decidirem apresentar essa faixa ao vivo, com algum deles no comando do instrumento, vão “lacrar”. Aliás, até mesmo Justin Bieber já se apresentou apenas com voz e violão conseguindo um resultado muito positivo.

As baladas de amor e de coração quebrado agora soam um pouco mais dramáticas do que antes, como se o quarteto encarasse de vez o peso do que cantam, sem precisar transformar tudo em algo forçosamente divertido, como é o caso de “If I Could Fly”, mas acredito que “Long Way Down” seja um exemplo muito melhor acabado e menos clichê. “End of the Day”, outro highlight do disco, é uma faixa que desce fácil e inclui os “Oh oh ohs” no estilo Coldplay e baterias marcadas como no Imagine Dragons. “History” fecha o disco regular (sem contar as faixas bônus) muito bem, propondo mais um momento de violão na mão para conduzir uma faixa bem construída.

As faixas são feitas para serem bastante palatáveis a um público bem vasto, mas noto que existe menos pressão para criar refrãos e ritmos catchy quanto havia anteriormente, sobretudo nos primeiros álbuns do One Direction. Quero dizer que não há nada tão juvenilmente bobo e apelativo quanto uma “You Know I’m Beautiful” em Made In The A.M., o que é um acerto e tanto. A instrumentação chama a atenção. Embora não tenha grande protagonismo ainda, percebe-se que baixo, teclado, bateria, guitarra e violão foram pensados com esmero na maior parte das faixas, propondo linhas que estão ali não apenas para criar uma cama para a voz dos rapazes, mas para serem percebidas em todas as suas nuances. “History”, “Hey Angel”, “Olivia” e “Wolves” são alguns dos melhores momentos para isso, mas não é difícil encontrar sons que lembrem algo do U2, algo de Mumford & Sons da era Wilder Mind e solos de guitarra à Coldplay, assim como acenos para décadas de 90, 80 e 70.

Quanto aos temas: mesmo falando sobre perda, desilusões amorosas e algum sofrimento, ainda soa como se experimentassem tudo isso de forma bastante leve. A melancolia deles não chega a ser tão comovente. As letras são universais, mas de um jeito bem mauricinho. Mas OK, tem bandas mais experientes que também não deixam de ser playboy.

Quem odeia o One Direction e se incomoda com o estrondoso sucesso que fazem com o público adolescente feminino vai ter mais um motivo para continuar odiando: Made In The AM é um bom disco de pop, um bom disco de uma boyband, um trabalho que mostra maior visão dos produtores e do quarteto. Começa a deixar de ser um pop apenas vendável para se tornar um pop preocupado em tornar cada faixa única.

Aliás, não é preciso gostar da boyband para reconhecer isso. Dá para continuar desgostando sendo justo com o que alcançam (não é preciso gostar de Led Zeppelin para afirmar que Robert Plant é um grande cantor, certo?). Fato é que, pelo menos para quem tinha muitas ressalvas quanto ao grupo, fizeram um trabalho que, pela primeira vez, mostram que não possuem apenas uma direção a seguir (a mais óbvia de todas), mas sim vastas possibilidades que darão bases musicais mais fortes ao sucesso já alcançado.

one_direction_2015_1d

5 comentários

    1. Tentarei ser o mais objetivo possível: as letras do 1D neste disco tocam em temas e sentimentos que qualquer pessoas em qualquer lugar do mundo são capazes de reconhecer e sentir-se como eles. No entanto, há algo de muito limpo, muito seguro na forma como contam essas histórias e sentem essas coisas. Uma segurança que não existe de verdade para a grande maioria do público deles, pois quase ninguém tem o privilégio de ser pessoas super protegidas como eles. Privilégio que apenas garotos/as muito abastados/as possuem. (Mas só porque são abastados não quer dizer que não saibam como as pessoas se sintam. Daí que é universal, mas meio mauricinho).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s