2015 Jazz Resenhas Rock

Møster! – When You Cut Into The Present (2015)

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Escandinavos fazem jazz de vanguarda cheio de ruídos, texturas e improvisos

Por Lucas Scaliza

Grande parte das bandas e artistas de jazz resenhados pelo Escuta Essa! fogem, cada um a seu modo, do que seria o padrão do estilo. Embora exista muita coisa “tradicional” ainda sendo feita, estamos tentando mapear um pouco do que há de mais diferente, inovador e até mesmo excêntrico dentro e ao redor do estilo. When You Cut Into The Present, novo disco dos noruegueses do Møster!, é a pedida da vez para quem quer ouvir um free jazz criativo, contemporâneo e extremamente contaminado pelo rock noiser e por passagens dignas de trilha sonora.

O álbum é menos viajado e tem menos experiências ruidosas do que o antecessor, Inner Earth (2014), priorizando a construção musical mais orgânica dessa vez. Mas mesmo assim, para quem não está acostumado com esse tipo de incursão na música jazz, When You Cut Into The Present soa chapadíssimo e poderoso. Outra coisa que chama a atenção é a aparente simplicidade das composições. Muito calcadas nos improvisos, as linhas de bateria e de baixo não surgem complexas e cheias de viradas típicas do jazz. Enquanto a sonoridade jazzística se mantém reconhecível, os músicos se permitem tocarem com menos complexidade e maior dinâmica.

Foto: Oddbjoern Steffensen
Foto: Oddbjoern Steffensen

“Nebula And Red Giant” abre o álbum com uma passagem digna de space rock, uma mistura de Robert Fripp com Gong, como se fosse a trilha sonora para um filme de suspense do fim da década de 1960. Leva quase 2’40” para que bateria e baixo façam a sua entrada. O sax do líder do grupo, Kjetil Møster, sola com liberdade e um tanto de psicodelia por cima de uma cozinha bem arranjada e vigorosa que não deixa espaço para mais nada até findar seus 9 minutos e meio. “Bandha” é barulhenta e tem alta voltagem, não economizando no fuzz e nos arranjos irregulares que propõe. Sobre uma base simples e bastante regular, sobra espaço para que improvisos brotem ao longo de seus 9 minutos.

“The Future Leaks Out” começa com diversos barulhinhos por cima de uma percussão bem marcada de Kenneth Kapstad. Um momento desses em Inner Earth se parecia com as longas passagens abstratas de Asunder, Sweet And Other Distress do Godspeed You! Black Emperor, mas dessa vez, apesar de toda a bagunça noisey e jazzy, percebemos uma estruturação maior da música. O que conta mesmo para esta faixa em particular e para a banda como um todo é a liberdade de interpretação que conduz a faixa até um frenesi de sopro, com direito até a distorção no baixo de Nikolai Hængsle Eilertsen, no início de seu terceiro ato.

“Journey” tem um início bastante sensual e bem mais jazzístico do que as faixas anteriores, difícil não lembrar da clássica “A Love Supreme” do mestre John Coltrane. Enquanto o saxofone executa a melodia tema da faixa, com as variações que lhe são caras, a guitarra com overdrive de Hans Magnus Ryan ao fundo complementa o arranjo com licks e belos arpejos. Dois minutos depois, o baixo inicia uma segunda fase da composição, mais calma e harmônica. O sax é usado como se fosse um teclado, criando uma cama para solos bastante eletrificados. Para Møster e sua banda não basta tocar as notas corretas: é importante criar efeitos diferenciados para elas. Em mãos mais temerárias, uma faixa como “Journey” seria mais clean, limpa e sem arestas. Mas estes noruegueses não abandonam a veia noiser e deixam sobrar distorção e eletricidade em tudo.

“Soundhouse Rumble” volta à dinâmica mais elevada da banda e ao formato jazz de “Nebula And Red Giant”, novamente soando bastante como o Gong, fechando When You Cut Into The Present com estilo e animação.

Embora ainda seja uma experiência que pode não agradar a roqueiros mais tradicionais e nem a jazzistas mais quadrados, o trabalho é o mais acessível do Møster!. Seus dois primeiros álbuns eram muito mais ruidosos do que este e exigiam uma paciência e uma entrega muito maior. O que há de novo e de positivo em When You Cut Into The Present é a forma como a música tenta envolver seu ouvinte. Ainda é um som difícil de assimilar, principalmente se você não está acostumado com o léxico do jazz ou da música instrumental de improvisação de qualquer gênero, mas se mostra muito mais redondo desta vez.

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Todos os integrantes uma hora ou outra assumiram o posto da percussão, criando uma sonoridade mais robusta para as cinco faixas. When You Cut Into The Present foi gravado na cidade norueguesa de Trodheim em um curto espaço de tempo, durante uma pausa na turnê do grupo. Consegue ser ainda mais rico em texturas do que os antecessores e, sendo também mais direto, mostra uma visceralidade estonteante. E para quem gosta de intertextualidade, o nome do disco junto de uma das faixas forma uma famosa citação do escritor beat William Burroughts: “When you cu tinto the presente the future leaks out”, uma referência à técnica de cortar palavras que o autor utilizava para prever o futuro.

Kjetil Møster, o chefe dessa gangue de jazz de vanguarda, não para nunca. Embora esta banda seja seu novo projeto principal, ele também se apresenta com o Datarock, com bandas e orquestras de improvisação, com o grupo eletrônico Röyksopp & Robin, além das bandas King Midas e Lars Vaular. Também lançou um disco com o trio húngaro Jü e um trabalho conceitual com músicos de Chicago.

Se você procura música para chamar de louca e criativa, acaba de encontrar mais um disco para sua coleção.

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