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Ana Cañas – Tô Na Vida (2015)

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Disco mais roqueiro mostra a que veio conforme as faixas avançam

Por Lucas Scaliza

Vamos diferenciar algumas coisas. Existem artistas (e bandas) que mudam de estilo e de foco a cada novo trabalho, propondo coisas novas em diferentes fases, quer o público entenda ou não, goste ou não. Nessa categoria temos desde o Metallica (mesmo os seus quatro primeiros álbuns de thrash metal tinham várias diferenças marcantes entre sim, sem falar que o Black Album também não tinha muito a ver com Load e Reload ou St. Anger, certo?) até Damon Albarn, que mudou de estilo dentro do próprio Blur, fez uma mistura insana (mas coerente) no Gorillaz e partiu para a experimentação melancólica no primeiro disco solo. Tem também quem vai variando as influências aos pouquinhos, sempre mantendo suas características mais elementares, como o Foo Fighters e o Iron Maiden. E tem quem vai procurando onde se encaixar, conseguindo resultados mais ou menos expressivos conforme segue a vida. Se levarmos em conta esta declaração de Ana Cañas, ela é deste terceiro grupo: estava vagando pelos estilos até vestir suas músicas de rock para Tô Na Vida.

Ana-Canãs

Volta (2012), seu trabalho anterior, começava apontando para o rock, para a Janis Joplin que todo mundo sabe que há dentro de Ana Cañas, mas da metade para frente a o rock se intimidava e uma versão mais folk dela acabou dominando o álbum. E o bem acabado Hein? (2010) se equilibra entre pop, rock levinho e algo da chamada nova MPB, sempre com linhas de baixo interessantes. Também consolidou o estilo de cantar e de interpretar que viraram o forte de Cañas ao vivo.

Vê-la totalmente roqueira em Tô Na Vida não é surpresa para ninguém, pois sempre pareceu que seria um estilo em que ela funcionaria muito bem. A impressão incômoda que tenho, no entanto, é que as primeiras faixas do álbum são boas músicas, mas que algo lhes falta. Talvez seja o blues rock de “Existe”, “Tô na Vida” e “Hoje Nunca Mais”, básicos demais. Contudo, apesar da parte sonora que se refere à banda não ser o melhor possível, as letras de Cañas são boas e as melodias que criou dão uma pegada espontânea muito bem-vinda para todas as faixas. “O Som do Osso” é a faixa que começa a desfazer essa impressão incômoda, talvez porque o rock’n’roll esteja mais escancarado, menos tímido. Ian Ramil acertou em cheio em seu Derivacivilização justamente porque assumiu seu lado roqueiro, contestador e experimental de cabo a rabo.

 

Ao final da primeira estrofe de “Indivisível” percebemos que Tô Na Vida vai engrenando cada vez mais. Jovial, a faixa parece um rock anos 90 que poderia ter sido sucesso na trilha de Malhação (e isso não é demérito algum) e em qualquer rádio rock da época. Se Joplin poderia ser tomada como referência para Cañas no todo, outra referência que cabe bem é Joan Jett. “Coisa Deus” é uma das melhores músicas do álbum, construindo sua sonoridade com vigor. Marca também a virada do álbum: daqui para frente, todas as composições funcionam muito bem e fiquei imaginando a força de cada uma ao vivo.

Parece até que Tô Na Vida foi gravado na ordem em que as faixas aparecem no disco, mostrando uma banda cada vez mais à vontade e uma Cañas mais confiante. Se o blues rock estava muito básico nas três primeiras faixas, os arranjos de “Bandido” são um show a parte. “Feita de Fim”, bem direta, com mais uma daquelas linhas de baixo excelentes e guitarra com phaser, é outro ponto alto do trabalho. “Um Dois Um Só”, a balada carregada do efeito flanger, é o tipo de faixa lenta que cai como uma luva para um disco de rock, construindo camadas sonoras conforme a voz de Cañas vai ficando mais etérea.

“Mulher” tem os versos mais eloquentes de Ana no trabalho. “Nasci, sou assim / E vou até o fim / Sou preta, sou branca, sagrada, profana, sou puta, sou santa, mulher” ela canta logo no início. O resto da letra também deverá levar “cidadãos de bem” e “pais de família” ao desespero. Ponto para Cañas por isso! “Madrugada Quer Você”, com um tremendo solo, é o último respiro roqueiro do álbum, marcando o estilo no álbum de uma forma muito positiva. “O Amor Venceu”, faixa bônus que encerra de vez o disco, é uma volta ao lado folk de Ana, muito parecido com o que ela apresentou em Volta.

Ana assina a composição de todas as faixas de Tô Na Vida, apenas dividindo créditos com alguns poucos parceiros. Arnaldo Antunes colocou a mente para trabalhar na faixa-título, “Um Dois Um Só” e “Madrugada Quer Você”. O coprodutor do álbum, Lúcio Maia, que também toca violão e guitarra, também responde por três parcerias de composição. Dadi e Pedro Luís participam com uma coautoria cada um. Marcelo Jeneci assumiu os teclados de três faixas e o órgão Hammond de “Tô Na Vida”.

A parceria com Lúcio Maia na produção e na direção do álbum parece ter sido acertada. O som de fato coloca o trabalho em um patamar diferente dos outros álbuns, mais maduro e mais focado, mas não tira aquela suavidade que havia na Cañas dos três primeiros discos. Ela está roqueira, mas não pesada e visceral. A transposição do estúdio para o formato ao vivo tem muito a ganhar, já que força na interpretação e volumes nos PAs não faltam a ela e sua banda. E até agora Ana Cañas sempre mostrou melhor seu real potencial ao vivo do que em estúdio.

Talvez seja cedo para afirmar que ela vá continuar no rock, ou como o rock dela deverá evoluir a partir de agora. Mas seja o estilo que quiser tentar, com confiança e sem medo de (se) assustar, ela ainda mostrará um trabalho melhor e mais maduro do que Tô Na Vida.

spotify:album:3OSvFuOcZR6QTXfmUNf7Vk

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