2015 Diversos Folk Pop Resenhas

Enya – Dark Sky Island (2015)

enya_dark_sky_island_cover

Nada de inovador aqui, mas música de Enya continua terna e volta a usar a língua loxiana

Por Lucas Scaliza

Algo que falta à Dark Sky Island e aos discos mais recentes de Enya é tensão. Ainda que ela encaixe pianos bem marcados junto com uma percussão trovejante em “The Humming”, suas canções são bem melódicas e harmônicas, seguindo um padrão seguro para seu estilo. Enya, disco após disco, continua sendo a mesma Enya de sempre, afinal. Para quem usa sua música para fins práticos, como relaxamentos, massagens ou audição casual, pode ser algo que funcione. Mas se parar para curtir a música em si, parece que estamos diante do mesmo trabalho álbum após álbum. E essa impressão se agrava com seus especiais de Natal, colocando sua produção numa redoma de conforto sonoro.

A compositora e mezzo-soprano irlandesa Eithne Ní Bhraonáin já não tem muito do céltico lá dos anos 80 (como no álbum Watermark, de 1988) ou início dos 90, fincando suas composição no new age. A Day Without Rain (2000), seu maior sucesso de vendas, é o disco que melhor integra o que restou de seu passado com o que faria no futuro. Uma mistura muito bem feita de referências que nos deu a bela e sensível “Only Time” e a épica sombria “Tempus Vernum”.

enya-2015

Embora tenha lançado um disco de canções natalinas, já faz tempo desde que lançou seu último álbum de inéditas, o temático And Winter Came (2008), este também um trabalho padrão, sem muitas surpresas. Sete anos depois, Dark Sky Island não é um grande inovador dentro da carreira e obra da irlandesa, mas suas faixas sabem se distinguir bem uma da outra. E quem gosta de Enya do jeitinho como ela se acostumou a ser, não terá do que reclamar.

“The Humming” aposta em uma instrumentação mais épica, com mudanças de acordes fortes e uma orquestração básica que ajuda a dar corpo à canção. “So I Could Find My Way” é uma valsa de apelo emocional por excelência. Dedilhados bem definidos para acompanhar um vocal melodioso e que promete tocar o ouvinte com suavidade e ternura. Com mais melancolia e ênfase na voz, “I Could Never Say Goodbye” tenta seguir esses mesmos passos, mas voltando a tradição dos lamentos irlandeses. “Even In The Shadows” mantém a percussão e as cordas ditando o ritmo quase aventuresco da faixa. Esse efeito é conseguido pela participação do músico irlandês Eddie Lee (da banda Those Nervous Animals), que toca um baixo duplo. Mas não estamos na trilha de Piratas do Caribe e a faixa não decola nunca. Mas isso é bom nesse caso. Ela nega o caráter cinematográfico que poderia assumir e se mantém como uma canção simples, com bela melodia de voz, boas vocalizações e que dá, mesmo que minimamente, aquele senso de perigo de que falei no início do texto.

“The Forge of Angels” é uma faixa que não acontece, não conta uma história, repetindo-se por cinco minutos. O diferencial é a utilização da língua loxiana, criada por Roman Ryan, escritor e constante colaborador de Enya. Essa língua angelical também está presente em “The Loxian Gate”. Para quem não conhece Enya à fundo, pode parecer que ambas as faixas são instrumentais e que a voz da cantora apenas faz vocalizações. Mas não: o que ela canta constitui mesmo frases, mas com uma sonoridade muito particular e diferente da maioria dos idiomas que estamos acostumados a ouvir.

“Echoes In The Rain” é mais divertida e ensolarada, com refrão constituído por “aleluias” e letra sobre jornadas que resume bem o tema que Enya procurou desenvolver em Dark Sky Island. “Sancta Maria” é ressoante, como se o coral cantasse dentro de uma igreja, acompanhado por sintetizadores e violões folclóricos. “Dark Sky Island” é a prova de que Enya não precisa mudar tanto para agradar. A música tem uma melodia previsível e todos os elementos do que melhor reconhecemos como o estilo da banda, e mesmo assim é possível ouvirmos e ainda encontrar prazer nisso. É como voltar para casa: o prazer do conforto.

Enya não se refere apenas à cantora, é bom lembrar, mas ao trio que une a cantora, compositora e instrumentista Eithne Bhraonáin (que toca quase todos os instrumentos nos álbuns), o letrista Roman Ryan (que ajuda na transposição das letras para outros idiomas) e o produtor Nicky Ryan, que dá forma aos álbuns e cuida para que os sintetizadores usados soem realmente como uma orquestra. (Às vezes o trio contrata um violino, cello, viola e etc, mas na maior parte das vezes o que você ouve nos discos de Enya é um sintetizador mesmo).

O nome Dark Sky Island veio do fato de a ilha de Sark, que fica na costa da Normandia, mas pertence à Grã-Bretanha. Constitui um feudo real, com suas próprias leis e parlamento, com população total de 600 pessoas. Carros não são permitidos na ilha, apenas tratores e veículos puxados por cavalos. Em 2011, a ilha ficou oficialmente conhecida como a primeira e única ilha do mundo a ter um céu escuro, o que quer dizer que existe tão pouca poluição de luz em seu território que é possível praticar a astronomia a olho nu, o que evidentemente propiciou um ganho turístico à pequena porção de terra vulcânica. Roman Ryan escreveu uma série de livros de poemas sobre ilhas que também inspiraram a compositora.

A história de Sark me parece mais interessantes por si só do que o álbum inteiro de Enya, aliás. Mas nada que atrapalhe a degustação do álbum. Dark Sky Island só não é melhor porque se mantém muito seguro no que foi testado e aprovado anteriormente. Pelo menos houve o cuidado de se repetir o mínimo possível dentro da obra, diversificando os arranjos e variando alguns elementos em cada faixa. Para dias de estresse intenso, no entanto, Enya continua sendo uma boa maneira de se conectar com algo suave e que tem o poder de limpar a mente.

enya2

Anúncios

2 comentários em “Enya – Dark Sky Island (2015)

  1. Artigo muito legal, faço apenas uma ressalva. Roman na verdade é Roma Ryan. Não é um homem, mas sim uma mulher, esposa de Nick Ryan, o produtor da Enya. Roma é quem colabora com a maioria das letras das músicas de Enya.

  2. É a 1ª vez que digito no google um nome de mulher famosa para ver imagens suas e não aparece nenhuma imagem dela seminua. Viva Paulão de Tarso, o parenético por excelência, aquele Paulão que emprestou duplamente seu nome ao Brasil. É que sua intercessão na inteligência cósmica e universal do Criador puríssimo e misericordioso, associada à sua aura efusiva de graça para os humanos, desembarcou na vida daquela criatura de nome Enya….

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: