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Erykah Badu – But U Cain’t Use My Phone (2015)

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A ótima mixtape de Erykah Badu usa novamente tigelas tibetanas e diapasão para conseguir timbres aveludados

Por Lucas Scaliza

O último disco de Erykah Badu foi o excelente e suave New Amerykah Part Two (2010) e lá se vão cinco anos sem um trabalho novo dessa cantora e ativista negra americana. Se levarmos em conta que 1) ela viajou para a África em busca das batidas perfeitas para seu próximo projeto, 2) se encontrou com Flying Lotus para trabalhar no material, 3) se encontraram com o guitarrista de jazz Steve Wilson e 4) não está com pressa de colocar mais um álbum no mundo, podemos esperar algo criativo e bastante sofisticado chegando logo, logo. Não dá para esperar menos de Badu, afinal.

Mas assim como Lil Wayne também resolveu lançar um disco este ano enquanto seu próximo grande trabalho não fica pronta, Erykah Badu acaba de lançar a mixtape But U Cain’t Use My Phone para não ficar longe dos fãs por tempo demais. A compositora começou reescrevendo “Hotline Bling”, do rapper canadense Drake, e a partir daí surgiu esta bela mixtape que constrói a temática e até a sonoridade de cada canção ao redor de telefones e celulares. Zac Witness, o “White Chocolate” para os amigos, é o principal produtor do disco. Após se encontrarem em um evento promovido pela cantora, a Badu foi à casa de Witness em Dallas, e ambos começaram a trabalhar na mixtape em um estúdio que o produtor mantém em um quarto. Foram precisos apenas 11 dias até que todas as canções estivessem prontas, sendo que Witness precisou de apenas dois para produzir, mixar e masterizar cada canção. Erykah, com nada menos do que maestria, gravou os vocais de cada música uma única vez.

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A voz de Badu está tão bem encaixada e afinada ao longo de todo o disco que é até difícil acreditar que ela não precisou de mais tentativas. Mas ainda mais impressionante é o processo que a dupla desenvolveu para encontrar as atmosferas exuberantes que perpassam But U Cain’t Use My Phone: observaram com cuidado a vibração de cada composição e acrescentaram uma camada de vibração a partir de um diapasão (aquele afinador de metal em forma de garfo). Foram ainda mais longe e utilizaram tigelas tibetanas que emitem sons para encontrar os comprimentos de ondas exatos. Embora pareça algo exótico, saiba que Erykah Badu já utilizava tanto o diapasão quanto as tigelas tibetanas em seus discos anteriores. Além do bom gosto, este é um dos segredos da sonoridade gentil e aveludada que ela consegue dar à sua música.

Logo na abertura coma faixa-título, toques de telefones são usados como harmonia. É uma ideia bastante criativa. Witness expande a utilização dos teclados para criar uma faixa suave com acentuações bastante fortes e tensas em sua segunda metade.

Interessante notar que várias ideias usadas aqui ficariam muito bem em discos do Prince, um precursor de muitos artistas da black music. Mas enquanto Prince não tem mantido um padrão de qualidade ultimamente, Erykah consegue ser certeira em praticamente todas as faixas de sua mixtape. Em “Cel U Lar Device” ela combina batidas bem feitas com efeitos sonoros bem colocados que são quase psicodélicos. O rap chega em “U Used To Call Me”, com participação de Andre 3000. O cara do Outkast, que também aparece em outros momentos do disco, visitou Erykah e Witness no quarto-estúdio durante alguns dias para gravar suas partes.

Toda a parte instrumental é elogiável, desde a percussão eletrônica escolhida para cada música até o baixo, criando grooves macios e bem definidos. O piano que solo em “Mr. Telephone Man” é outro exemplo de participação decisiva do instrumental na obra. “I’ll Call U Back” é um R&B que não chega a dois minutos, mas mostra uma estrutura musical rica composta de uma camada de voz, baixo fazendo um belo groove que segura a música no chão, um teclado escondido atrás do baixo pontuando as mudanças de acordo e uma percussão bastante minimalista, sem falar que o ritmo vai se fundindo ao toque uma ligação ocupada.

Erykah Badu mistura funk, soul, rap, R&B e até alguma coisa de jazz ao longo do disco. Às vezes a música parece bastante pé no chão, e às vezes fica bem mais exigente, como mostra o medley “What’s Yo Phone Number/Telephone”. Por conta de todas essas misturas, o estilo musical de But U Cain’t Use My Phone foi rotulado de TRap & B.

Assim como Miley Cyrus, que lançou Miley Cyrus & Her Dead Petz este ano de forma independente, sem a participação de sua gravadora, Badu resolveu esconder esta mixtape da Atlantic, seu selo. Afinal, ela está desde 2013 trabalhando no sucessor de New Amerykah Part Two e ainda não o terminou. A gravadora só soube que a cantora estava com músicas novas quando o disco surgiu no iTunes.

O tema escolhido também é bom. Embora telefones – principalmente os onipresentes smartphones – seja muito utilizados para diversas tarefas, o ato de ligar acabou virando um detalhe, não é mais uma finalidade dos aparelhos. Mesmo assim, ligações perdidas, secretárias eletrônicas, chamadas ocupadas, a espera por uma ligação, o ato de passar seu número para alguém, dizer/ouvir “oi” para/de alguém especial são ainda imagens muito forte na paisagem mental sentimental de todos nós. O sentimento que esses atos evocam podem parecer frívolos e até meio ingênuos, mas nos identificamos. E a música sofisticada de Badu é sensual na medida certa para nos envolver muito mais do que as melodias chorosas de piano do Coldplay em A Head Full Of Dreams.

Pode ser só um meio de caminho até seu próximo disco, mas essa mixtape poderia ser um álbum facilmente. Qualidade para isso não falta.

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4 comentários em “Erykah Badu – But U Cain’t Use My Phone (2015)

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