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Aláfia – Corpura (2015)

alafia corpura

Segundo disco do Aláfia traz a corpura musical, religiosa e cultural 

por brunochair

Ano passado, o resenhista que agora vos digita alguns caracteres e faz voz em suas preciosas mentes escreveu sobre o primeiro disco (homônimo) do Aláfia. Qual não foi a surpresa conhecer uma banda com um arsenal tão grande de referências musicais, sociais e culturais? A partir deste disco de 2013, o Aláfia despontava como uma das bandas mais interessantes do cenário da música popular brasileira – tanto em relação ao que fez, como quanto ao que poderia fazer dali em diante.

Aláfia é (era) o fruto, o gérmen de algo grandioso que estava no porvir. Tem tudo a ver com o significado do nome da banda, que em Iorubá traz a ideia positiva de que “tudo vai dar certo, os caminhos vão se abrir”. E o Aláfia fez e faz fluir estes caminhos, através de um olhar atento para o que são e quem são. A partir desta ideia de ser no mundo, o Aláfia procura representar-se em três principais esferas: musical, social e cultural.

Com Corpura, o Aláfia conseguiu atingir (em cheio) essas três esferas de representação. Corpura é um tratado estético em que as representações estão ligadas em todos os momentos, a começar pela linda capa do disco – que traz uma garota sentada em um chão de terra batida, simplesmente a representar a sua corpura, a corpura do disco, a corpura de todos nós… e, neste ponto, voltamos à ideia de ser no mundo.

alafia corpura 2

Em relação à musicalidade de Corpura, vemos o Aláfia mergulhar (ainda mais) no sincretismo cultural brasileiro, caminho pelo qual o Bixiga 70 também passou do primeiro para o segundo disco. Não que deixaram de lado as referências étnicas africanas, mas preferiram entender como esse processo de influência desenvolveu-se no Brasil. Obviamente que a África continua forte no Aláfia, no Bixiga 70 e no Brasil, haja vista todos termos África em nossos corpos, nossos rostos e nossa alma.

A religião está presente em cada barulho e em cada silêncio do Aláfia. Muitas letras têm como mote a saudação aos orixás do candomblé, mas também há espaço para a umbanda e a outras religiões afro-brasileiras. Por exemplo, “Primeiro do Ano” – uma das músicas mais bonitas do disco – foi feita em homenagem a Oxalá, em uma festa no Terreiro de Ogum na Bahia, para comemorar a entrada de um novo ano. “Oxotokanxoxô E Uiratupã” é uma música forte sobre dois caçadores, que traz tanto referência a lendas do folclore brasileiro indígena (Uirapuru) quanto ao caçador de uma única flecha (Oxotocanxoxô) que aparece na umbanda e no candomblé, através do orixá Oxossi.

Por conta dessa forte ligação com a religiosidade e ancestralidade, o som do Aláfia já foi definido como um funk candomblé. Enquanto a bateria, percussões, letras e interpretações trazem essa presença afro-brasileira, o funk também ganha espaço em muitos momentos, através dos grooves de guitarra e baixo, e de uma certa influência de George Clinton e do Funkadelic em tudo o que o Aláfia faz. A música em que isso fica mais evidente é “Preto Cismado”, quando o refrão também torna-se quase um hino de nossa época, em que a intolerância ultrapassa não só os limites da religiosidade: “não posso acreditar que existe um Deus que feche com a segregação”.

alafia corpura 4

O conteúdo político de Corpura está, como já dito anteriormente, interligado com todas as outras esferas – musical e cultural. A mensagem do Aláfia é um todo indissolúvel, trabalhada e traduzida em diversos signos (Adinkras) que tornam a banda representante não só de uma busca pela reverência e pelo passadismo, mas também por compreender o presente, o contexto histórico em que estão inseridos. Falar para a juventude negra, atuar neste contexto, posicionar-se diante desta pseudo-democracia racial existente no Brasil.

A abordagem do Aláfia não chega a ser tão “apocalíptica” quanto é a de Elza Soares em A Mulher do Fim do Mundo, quando a cantora procura desenvolver uma estética mais caótica do que o Aláfia, embora a mensagem dos trabalhos possam se encontrar em vários momentos e vielas. São dois discos com grande intensidade e destaque para o estar negro no Brasil, onde há uma falsa ideia de que tudo está bem e que não há qualquer tipo de racismo ou comportamento etnocêntrico entre os indivíduos de culturas distintas.

Portanto, o Aláfia acertou em cheio em Corpura. O álbum resume bem um tratado estético-social, que representa essa saudação a quem é de nós (e quem não é, também). Certamente, será um disco a ser lembrado daqui cinquenta a cem anos, como representação de uma época e da busca de uma musicalidade que conseguisse abarcar inúmeras referências, respeitando-as a ponto de manejá-las para criar o novo. É a forma Aláfia de abrir caminhos, de tornar sério o presente, reverenciando o passado e vislumbrando um futuro de muita musicalidade e maior tolerância.

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3 comentários em “Aláfia – Corpura (2015)

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