2015 Indie Live/Ao vivo Resenhas Rock

Placebo – MTV Unplugged (2015)

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A banda resgata o MTV Unplugged e show reafirma a originalidade do Placebo

Por Lucas Scaliza

Após o lançamento do ótimo Loud Like Love (2013), o Placebo reconquistou interesse do público, da imprensa, da crítica, dos fãs. Um bom disco de uma banda que ainda tem o que dizer. Se o som já não parece tão afetado e diferente como era lá em 1996 e 1998, quando do lançamento dos ótimos Placebo e Without You I’m Nothing, pelo menos amadureceu e voltou a soar tão interessante quanto em seus melhores momentos.

No dia 19 de agosto de 2015, o grupo, agora formado apenas pelo inglês Brian Molko (voz e guitarra), pelo sueco Stefan Olsdal (guitarra, baixo, teclado) e pelo novo baterista Matt Lunn, reuniu músicos extras, incluindo um pianista e um naipe de cordas, para fazer um show acústico em Londres para alguns poucos fãs, com repertório que dá uma geral na carreira da banda e com produção de palco impecável. Entre os convidados estão o tecladista Billy Lloyd, o guitarrista Nick Gravilovic e a violoncelista Fiona Brice.

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O MTV Unplugged resultante deste show especial mostra uma banda superconfiante e novamente em ótima fase, mais madura e longe de qualquer hype, honesta consigo mesma e que sobrevive graças a qualidade musical não só dos anos 90 e início de 2000, mas de toda a trajetória e influência que exerceu. O Placebo nos deu uma das vozes mais interessantes do rock alternativo e também uma banda com imagem andrógina. Se antes isso parecia desconcertante dentro do rock, hoje vai além da (des)afirmação de personalidade e gênero, ganhando contornos mais bem definidos como afirmação política e social. Não é por acaso que Molko canta “Meu computador acha que sou gay/ Mas qual é mesmo a diferença?” no início de “Too Many Friends”, single do último disco.

Algumas canções escolhidas pelo grupo para este especial “desplugado” (hoje em dia é muito difícil um show realmente desplugado, mas entendemos a conotação do termo, geralmente significando “trocamos as guitarras por violões”) são bem fiéis às originais. “36 Degrees”, “The Bitter End”, “Too Many Friends”, “Protect Me From What I Want”, Song To Say Goodbye” ainda são tão interessantes e boas quanto antes. Os arranjos para violão estão ótimos e violinos, cellos e violas adornam o arranjo com muita graça, sem transformar as composições em obras que elas não são.

Outras ganharam novos arranjos que as tornam especiais e até mesmo, de certa maneira, surpreendentes. A clássica “Every You Every Me” ficou lenta, trocou a força punk original por melancolia. Molko, que a cantava de forma direta, agora floreia com a melodia. O vocal de Majke Voss Romme (conhecida como Broken Twin) apenas agrega mais peso e drama à música. Uma releitura interessante para uma das faixas mais divertidas da carreira do Placebo. Algo muito parecido ocorre com “Meds”, a turbulenta faixa de abertura do álbum homônimo de 2006. No local das batidas aceleradas, um piano acompanhando a voz. A gravação original, conforme se aproximava do final, soltava as coleiras das guitarras para criar um épico pós-punk barulhento. Neste acústico, a pequena orquestra em cima do palco desempenha esse papel espetacularmente. O poderia roqueiro de “Loud Like Love” e o clima quase britpop de “Hold On To Me” também foram convertidos baladas tristes de piano.

“Without You I’m Nothing” permanece, enquanto música, muito próxima da original, mas o trabalho de cordas, substituindo as melodias de guitarra originais, fica muito bom. Se a música perde em distorção, violino e viola preservam o senso de desequilíbrio que dá vida à música. Instrumentos árabes e indianos também poderão ser ouvidos ao longo do disco e vistos em ação no blu-ray do show em algumas faixas. São acréscimos completamente novos ao repertório de experimentação musical da banda.

“Bosco”, uma das melhores músicas de Loud Like Love, nunca fora tocada ao vivo até este MTV Unplugged. Ela ficou excelente em formato acústico e a melancolia de sua letra casa perfeitamente com o piano e o naipe de cordas que levaram para o palco. E até mesmo o disco de covers da banda foi lembrado com uma versão da clássica alternativa “Where Is My Mind”, dos Pixies.

Este MTV Unplugged acabou sendo uma via de mão dupla. Deu a oportunidade de o Placebo experimentar sonoridades diferentes, rearranjar suas músicas e preparar um show especial como há muito tempo não faziam (apesar dos 18 meses que passaram em turnê com o último lançamento). E o próprio selo MTV Unplugged teve uma chance de voltar a ser relevante, colocando bandas de rock para apresentar suas músicas de uma forma inesperada, algo que já rendeu uma série de bons momentos com REM, Nirvana, Alice In Chains e até Capital Inicial, entre tantos outros exemplos.

A versão em vídeo do show não deve ser descartada. A banda preparou um espetáculo visual caprichado. O palco passa todo o show envolto por uma cortina transparente onde são projetadas animações abstratas de linhas e pontos luminosos que criam imagens, ondas e diversos efeitos diferentes para cada canção. Embora alguns artistas já estejam usando algo parecido em suas apresentações, como é o caso de Steven Wilson, é mais uma novidade para o repertório visual do Placebo.

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1 comentário em “Placebo – MTV Unplugged (2015)

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