2015 Indie Pop Resenhas Rock

Deerhunter – Fading Frontier (2015)

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Indie e hipster como nunca, Deerhunter aposta numa sonoridade vivaz e fofa

Por Lucas Scaliza

O mesmo número de discos que o Coldplay (sete) e nem de longe a mesma fama e reconhecimento. Mas o Deerhunter continua firme em sua proposta inventiva de música indie, variando o estilo de álbum para álbum, e mostrando uma evolução contínua. Fading Frontier, lançado em outubro, valoriza todas as características da banda, mas dessa vez embala as composições em uma roupagem bastante vivaz e fofa. É totalmente alternativo e plenamente hipster, chegando a lembrar o Of Montreal, mas sem os figurinos doidos e a dose de psicodelia.

Fading Frontier é bem focado e flui com graça do começo ao fim, diferente da baguncinha que era Monomania (2013), e é bem mais acessível, longe da sonoridade ruidosa e experimental de Weird Era Cont. (2008). Tem mais a ver com os ótimos Halcyon Digest (2010) e Mirrorcastle (2008), álbuns equilibrados e diversificados dentro da discografia do Deerhunter.

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Não me impressionaria se visse essa banda de Atlanta – mesma terra de REM, Raury e diversas outras boas bandas alternativas – na lista de melhores de 2015 de muita gente antenada. Por um lado, os dedilhados e o jeitinho inofensivo de músicas como “All The Same” e “Breaker” são nada mais que um repeteco do jeitinho delicado de fazer músicas que bandas indies usam há um tempão. Mas há uma entrega a esse jeitinho que faz Fading Frontier ser uma coleção das melhores experiências do gênero. E Bradford Cox, guitarrista e vocalista do grupo, ainda encontra espaço para propor desenvolvimentos criativos para as faixas e exploração sonora diferenciada. “Living My Life” tem um baixo que mais parece pulsos eletrônicos, teclados e sintetizadores profundos e um cativante misto de melancolia e esperança.

Em Monomania as guitarras conduziam praticamente todas as músicas. Apesar dos hipsterismos, era uma banda de rock. Em Fading Frontier o instrumento também está presente em todas as faixas, mas não responde sozinho pelos arranjos mais marcantes do disco. Os sintetizadores criam as ambientações viajantes de cada faixa e praticamente ditam a harmonia das canções, enquanto diferentes instrumentos ganham protagonismo para completar os arranjos. O Deerhunter nunca descuidou de seu instrumental e não é diferente agora. “Take Care” tem passagens cheias de luz que ao vivo devem se converter em sequências realmente confortadoras para o público. “Leather and Wood”, mais introspectiva, mantém a música acontecendo principalmente com a percussão e com o teclado, mas é contaminada por diversos efeitos sonoros estranhos que acompanham a voz de Cox, gentil como sempre, mas como se tivesse sido gravada de dentro de uma garrafa.

Já “Snakeskin”, o primeiro single do trabalho, é bem divertida e vai na contramão da atmosfera geral do disco. Não é fofa, tem uma base levemente funkeada (funk de branco, meio quadradinho) e um vocal que não é melodioso. Mas também está cheia de barulhinhos e efeitos que causam leves dissonâncias e reiteram que estamos diante de uma banda que preza por dar ao público algo que cause alguma estranheza. Não se preocupe, caso seja marinheiro de primeira viagem com a turma do Deerhunter, pois a estranheza de Fading Frontier não é extrema a ponto de afastar o ouvinte. Pelo contrário: conseguiram compor faixas tão redondinhas que o ouvinte se sentirá atraído desde o início. Os ruídos vêm como exercício de estilo.

O disco também marca uma fase diferente para a banda. Cox sofreu um acidente em 2014 que o deixou muito machucado, longe dos holofotes por vários meses até se recuperar completamente. Nesse período, parece ter repensado a vida e algumas das coisas que considera importante. Se a música de Fading Frontier parece menos angustiada, com o grupo mais no controle das coisas, é porque Cox, o líder, também está em uma fase melhor, mais madura e mais centrada. Tensões entre os músicos parecem não existir mais, chegando ao ponto de o guitarrista e tecladista Lockett Plundt afirmar que agora o grupo se dá melhor do que nunca antes e que se sentem como uma família.

Certas experiências realmente conseguem influenciar artistas e tirá-los da zona de conforto. No caso do Deerhunter, estar confortável nunca foi uma opção. Ao mesmo tempo em que o disco parece ser um dos menos experimentais da carreira, é também o que melhor se conecta com o ouvinte, superando Mirrorcastle e Halcyon Digest neste quesito. Mas não se preocupe: o grupo ainda é a mesma banda indie de antes e isso não parece que vai mudar.

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