2015 Trilha Sonora

Beasts Of No Nation – a trilha sonora (2015)

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Trilha foge do clichê e usa atmosferas de sonho e pesadelo para refletir as emoções mais íntimas de seu protagonista

Por Lucas Scaliza

Existe uma miríade de emoções e sensações ao longo das mais de duas horas de Beasts Of No Nation, um dos filmes mais interessantes do ano. Felicidade e ingenuidade, rebeldia e a perda da inocência, amor e morte, o sentimento de pertencimento cada vez mais exíguo, a fraternidade e a melancolia. Tudo isso está na rica narrativa do filme, dirigida e roteirizada com esmero por Cary Joji Fukunaga, o jovem cineasta responsável pela direção dos oito episódios da primeira temporada da série True Detective. Tão seguro de si e da história que precisa contar, nem parece tratar-se apenas do terceiro longa-metragem de Fukunaga.

Usando o livro homônimo escrito pelo médico nigeriano (radicado nos Estados Unidos) Uzodinma Iweala como base para seu enredo, Fukunaga fala sobre o horror da guerra civil africana e de todos os horrores dentro dela (pedofilia, abuso de poder, corrupção, jogadas políticas, assassinato em massa, falta de perspectiva, a ilusão da justiça, bem como a sua ausência) por meio da trajetória de Agu (Abraham Attah), um garoto que vê sua família ser morta e acaba tendo que fazer parte de um grupo armado rebelde para sobreviver. Embora seja uma história que usa a África e sua complicada situação política e econômica como plano de fundo, o grande trunfo de Beasts Of No Nation é ser universal, fazendo com que a trajetória de Agu possa ser facilmente transposta para a realidade de qualquer outra criança que tenha vivido em territórios de conflitos em qualquer outra parte do mundo.

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Para um filme que se passa inteiramente na África e acompanha soldados rebeldes em ação na maior parte do tempo, a trilha sonora é bastante surpreendente. Não há marchas militares, não há orquestrações pesadas, com percussões retumbantes e metais trovejantes, nem mesmo melodias aceleradas para acompanhar as cenas de ação e de guerra. A trilha composta por Dan Romer (responsável pela música do elogiado Indomável Sonhadora, de 2011) é totalmente atmosférica, cheia de acordes volumosos e duradouros, tão etéreos quanto emotivos. Se as imagens e palavras escolhidas por Fukunaga tentam retratar a dura realidade, é a música de Romer que trata de dar um aspecto de sonho e pesadelo ao que assistimos, assinalando como tudo aquilo é absurdo. Um exemplo de como usar as escolhas estéticas da trilha como comentário social e político.

O compositor, amigo de Fukunaga, não escreveu uma única melodia até que visse um corte cru do filme. O diretor deixou o colega livre para seguir seu coração. A primeira versão da trilha, que não chegamos a conhecer, era cheia de orquestrações, percussões pesadas, piano e sopros. Fukunaga tinha outras sensações em mente, o que fez Dan Romer se debruçar sobre o projeto por mais cinco meses. A princípio, Romer voou de Los Angeles para Nova York a fim de ficar mais perto do diretor para que terminassem a trilha. A visita que deveria durar uma semana, logo passou para duas. Com o volume de trabalho aumentando, Romer descartou voltar para casa e ficou em NY até o final do processo. As emoções transbordavam do músico. “Nos meses em que trabalhei no filme, acho que não se passou um dia sem que eu chorasse. A trajetória de Agu é linda e intensa”, diz ele.

Dessa forma, Romer deixou de lado as orquestrações e seguiu a indicação do diretor, partindo para uma via mais sintetizada de música. Se a atmosfera parece profunda na maioria das faixas da trilha original, é porque um sonar de submarino foi usado como instrumento. Romer conectou o sonar a um sampler e modulou aquele som por meio de um teclado. Ele também captou o zumbido produzido por copos de vinho e uivos de coiotes, sons que também foram filtrados e trabalhados antes de se unirem à trilha definitiva. Na cena em que um rebelde atira um projétil contra um carro, o som da arma é o uivo do coiote manipulado digitalmente. O som de baixo obtido em várias faixas não foi feito por este instrumento. O músico tocou as notas em uma viola e digitalmente abaixou a altura delas três ou quatro oitavas, conseguindo um som grave.

O resultado é uma trilha tão rica de emoções quanto o filme, mesmo quando ouvida separadamente. Há músicas turbulentas, como a primeira parte de “No Boy, No Bargaining” (que depois torna-se melancólica para acompanhar a primeira grande desilusão de Agu) e “No Talking”; músicas ameaçadoras como “A Sleeping Beast” e “These Are The Ones”; faixas mais luminosas como “Helicopters” e “A Good Family”, que retratam poucos momentos mais quentes da trilha, sem grandes tensões. “Better Look Me In The Eyes” também não é uma faixa pessimista, mas é pesada. Se fosse convertida em imagem, seria um quadro de alto contraste, chiaroscuro. Os acordes no órgão tremulam e ondulam com vivacidade, enquanto o sopro dos metais compõem uma melodia que contrasta duramente. Sua intensidade aumenta, mas a briga entre escuridão e luz mantém-se durante toda a faixa, emulando mais uma vez uma característica de Beasts Of No Nation: em momento algum o filme é moralizante ou nos mostra uma separação entre bom e mal. Os rebeldes só parecem melhores do que outras facções do país, mas aos poucos se mostram tão cruéis quanto qualquer guerrilha ou governo, matando inocentes, aliciando crianças e estuprando mulheres. Ou como o Comandante (interpretado com entrega por Idris Elba) parece proteger Agu, mas ao mesmo tempo o usa como arma de guerra e para outros fins tão chocantes quanto. Estes são apenas dois exemplos entre tantos outros em que o filme se apoia de maneira sofisticada. Os contrastes estão lá para serem percebidos sem que os personagens tenham que discuti-los abertamente.

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Embora não tenhamos acesso a primeira trilha composta por Romer, é provável que sua proposta inicial tinha mais a ver com as trilhas de ação contemporâneas, como a de tantos filmes de guerra e drama. Da forma como se apresenta a trilha definitiva, é muito mais música ambiente, com influências das experiências nesse campo de Brian Eno, do que qualquer outro gênero. Sincronizada com o filme, percebemos que a música não acompanha exatamente o que se vê na tela, como cenas de batalha, carros carregados de homens e armas, mortes e explosões. A música reflete melhor o que há na mente e no coração dos personagens. Às vezes, as duas realidades se chocam, como na magistral “A Song For Strika”, já perto do fim da história.

Isso fica mais claro quando sabemos que Dan Romer compõe a partir da perspectiva de Agu, e não da audiência. “Emocionalmente, estamos lidando com muita tensão e ambiguidade. […] É como se a trilha refletisse isso de forma que quase não há música no vilarejo [onde o filme começa]. Temos apenas uma canção quando Agu está falando sobre sua família. […] Não acho que deveríamos extrair emoção de verdade da trilha até as coisas começarem a acontecer, até as coisas começarem a dar mesmo errado”, ele conta.

A tensão e a ambiguidade musical, que atinge seu ápice na longa “Are You Watching Us?”, só dá espaço para temas mais ternos no terceiro ato do filme, quando o próprio Agu, com sua visão de mundo ampliada a custo de muitos traumas, também percebe a incoerência da guerra e como o conflito é um beco sem saída.

Fukunaga filmou Beasts Of No Nation inteiramente em Gana, mas em nenhum momento do filme temos a informação sobre qual país africano está na tela. Para reforçar essa tese das “feras sem nação” a que se refere o título da produção, o diretor também pediu que a música de Romer não tivesse elementos destacadamente africanos, para não localizar demais a história. Assim, não espere tambores tribais e instrumentos locais nesta trilha, sons que seriam default para a maioria das produções americanas e europeias.

A melodia da música “Twer Nyame” (voz de Randy Agbenyega) é recorrente ao longo do filme e serve como um lembrete da vontade de Agu: voltar para os braços da mãe, que canta essa melodia no início do filme. A ideia de tornar a voz da mãe recorrente também foi ideia de Cary Joji Fukunaga. Por este e por todos os outros fatores já mencionados, percebe-se como Beasts Of No Nation, mesmo tendo sido produzido para a Netflix, é um projeto autoral. Fukunaga escolheu o livro, adaptou e escreveu o roteiro, operou a câmera e dirigiu, além de ter feito diversas sugestões na trilha que, no final das contas, se mostraram bastante acertadas.

A sensibilidade e o conhecimento de Dan Romer não devem ser menosprezados quanto à música da produção. A criatividade para manipular instrumentos até que produzam sons totalmente diferentes do original e a forma eficiente como cria tensões e faz funcionar a ambiguidade das situações fazem desta uma das trilhas mais incríveis do ano.

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