2015 Trilha Sonora

Star Wars: O Despertar da Força – a trilha sonora

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John Williams mantém a trilha imaginativa e aventuresca dos filmes anteriores, resgatando diversos temas clássicos

Por Lucas Scaliza

A franquia mais famosa e lucrativa da história do cinema voltou para a tela grande trazendo novidades repletas de ar retrô, recuperando diversos aspectos da trilogia original (em especial o Episódio 4 – Uma Nova Esperança) e atores já conhecidos do público reprisando os papéis assumidos 32 anos atrás. Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens) coloca a novata Daysi Ridley no papel da protagonista Rey e John Boyega como seu braço direito, sempre acompanhados pelo simpático BB-8. Esses atores ingleses e o robozinho são as três maiores novidades na tela. Complementando o cenário temos a volta de Harrison Ford ao papel de Han Solo, Carrie Fisher como comandante Leia Organa, Mark Hammil como Luke Skywalker e até Chewbaca, C-3PO e R2D2. Quem está de volta a seu posto original é também o compositor americano John Williams, criando toda a trilha sonora deste sétimo episódio. Com Williams, temas clássicos são recuperados e misturados a novas canções (a faixa “Maz’s Counsel”, por exemplo, tem um rápido trecho que recupera o tema da Força dos filmes anteriores), mas mantendo a quase que a mesma pegada dos filmes originais da série.

O Despertar da Força aposta na familiaridade. Os heróis da trilogia original (de 1977 a 1983) surgem para despertar não só a força de Rey e Finn, mas também o saudosismo e a nostalgia do público. As naves na tela são as mesmas velhas conhecidas (indo desde os cruzadores do Império, passando pelos X-Wings e TIE Fighters, até a Millenium Falcon); e se o Episódio 4 tinha uma Estrela da Morte, a novidade aqui é uma arma maior e mais potente, mas de mesmo formato e propósito chamada Starkiller. Ainda temos o onipresente embate entre Luz e Sombra no plano mais espiritual e cósmico. No plano político, o Império foi substituído pela Primeira Ordem, mas é basicamente a mesma coisa, opondo-se aos rebeldes e à República (os mesmos da trilogia original).

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Com tantos portos seguros, não seria a música a destoar do tom da produção. Além de resgatar diversos trechos e temas dos filmes anteriores, John Williams aposta em composições que seguem o esquema musical dos anos 80. Embora tenha sofrido a influência do minimalismo e da música ambiente pesada do cinema de ação recente, grande parte das faixas ainda remetem mais aos balés de Tchaikovsky do que às trilhas de trilogias famosas como Batman e Jogos Vorazes. É importante destacar que Star Wars é uma fantasia espacial, não uma ficção científica, e sua trilha reflete isso de forma indelével. Não há nada de sci-fi em sua música, mas continua muito imaginativa e aventuresca.

John Williams, quando foi contratado para o posto, decidiu não escrever uma linha de partitura sequer antes de assistir ao filme. Não quis nem mesmo ler o roteiro. E já sabia (talvez como forma de facilitar seu trabalho, mas também como forma de manter a familiaridade do projeto) que recuperaria temas antigos. A trilha de abertura, com o imortal tema da saga, que se repete em cada um de seus filmes obrigatoriamente, está presente, é claro. E ao longo do filme e da trila, é recuperado diversas vezes.

Mas há novas referências. O início de “The Scavenger”, cena que nos apresenta Rey e o deserto de Jakku, coloca o oboé como protagonista e poderá evocar em nossa mente algum outro tema muito conhecido de Debussy. Ha lindas melodias ao longo do filme, mas a aposta não está em músicas que grudem na cabeça. Há mais espaço para a criação de clima e ênfase nos ritmos. A música é pensada para ser parte da ação. Quando os instrumentos parecerem acelerados, com percussão mais presente e fraseados mais ricos de camadas, tenha certeza de que aquele trecho de música está acompanhando uma cena de ação ou tensão na tela. E não faltam correrias no filme de J.J. Abrams. Nesse aspecto, a trilha revela seu grande senso de aventura, fazendo o mesmo papel dos seis filmes anteriores. Dois grandes exemplos disso são “The Falcon” e “The Rathtars!”.

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Rey é a personagem com mais músicas relacionadas a ela. Além da bonita “The Scavenger”, há “The Girl Wit The Staff”, que em menos de dois minutos vai da tristeza à ação e então à ameaça. E temos “Rey’s Theme”, a música que nos dá todas as linhas melódicas que veremos ser repetidas nos episódios 8 e 9. É um tema gentil que ganha asas da metade para o final. Todo esse arco musical de Rey lembra bastante a música dos filmes de Harry Potter (John Williams fez a trilha para os três primeiros filmes dessa franquia também).

Diferente da Hans Zimmer, que consegue criar imagens cheias de contrastes e sons profundos e repetitivos que nos fazem entrar em transe às vezes, John Willliams é mais colorido, é mais sinfônico e narrativo, tem suas bases bem alicerçadas na música erudita do século 19, o que se revela nas cenas e passagens mais agitadas da produção. Mas ele cria momentos de imensa beleza, que às vezes passam despercebidos na tela, aliando seu estilo imaginativo às novas concepções de trilhas dos últimos 15 anos. Um bom exemplo está em “The Starkiller”, tema bonito, leve (em contraste com o tamanho físico e ameaçador da arma a que se refere), delicado e contemplativo. “Kylo Ren Arrives At The Battle” é o que você espera que seja: uma música de suspense que acompanha bem o desenrolar da cena. “Snoke” é a canção mais grave da trilha e mais escura, com um canto de vozes bastante baixas atravessando toda a faixa, com pouca melodia e despida de sinfonia.

“Han and Leia” destaca-se como uma das composições mais evocativas do filme, recuperando a familiaridade com temas antigos relacionados aos dois personagens. “March Of The Resistance” é pomposa e triunfante do começo ao fim. Talvez com a (possível) repetição nos demais filmes da nova série possa se tornar um clássico. Por enquanto, não é tão marcante quanto a “Marcha Imperial”. Aliás, de forma geral, O Despertar da Força não entrega nenhuma música que sirva para nos ligar ao lado sombrio da Força como ocorreu desde o princípio com Uma Nova Esperança. “Scherzo For X-Wings” é uma música de aventura para o clímax de ação do Episódio 7. É também uma forma de repetir várias vezes o triunfante tema de Star Wars.

“The Jedi Steps and Finale”, que acompanha a última cena do filme e os créditos, é uma mistura do antigo (o tema da Força) com o novo (tema de Rey) e não deixar dúvidas sobre quem é a nova Jedi da série. No entanto, isso ficou claro durante a narrativa, sem que a música evocasse essa situação anteriormente. Talvez fosse interessante ter associado os temas antes, servindo de easter egg para ouvidos atentos desvendarem por meio da música um acontecimento do filme. Seja como for, a música fecha muito bem o filme, utilizando-se de passagens épicas, familiares e de pura ação.

Filme e trilha sonora têm paralelos interessantes: possuem as mesmas virtudes e as mesmas fraquezas. O filme conseguiu resgatar o clima e a diversão originais da primeira trilogia, mas apresenta estrutura e elementos seguros demais, os mesmos maniqueísmos dos primeiros filmes, os mesmos elementos (talvez apenas os nomes de planetas, bares e agremiações políticas mudem). A trilha, embora seja composta por novos temas e canções, também precisa retomar o que já estava estabelecido para ganhar mais atenção do espectador. Ao mesmo tempo, ambos precisaram se apoiar no estilo já definido (de filme e música) da franquia, ao mesmo tempo que incluíram novos estilos (de filmagem e composição) em seus trabalhos. Não me entenda mal: o diretor J. J. Abrams tem muitos méritos no filme, mas sua criação se baseia numa estrutura de desenvolvimento de personagem e de filme já testada e aprovada ainda nos tempos de George Lucas. Williams também se baseia no próprio trabalho, iniciado 32 anos atrás. Porém, acredito que a trilha cumpre bem seu papel de situar o público em um universo já conhecido e de apenas acompanhar o desenvolvimento da trama. Já o filme deixa a sensação de que poderia ter sido mais e um pouquinho melhor.

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