2016 Indie Pop Resenhas Rock

The Anchoress – Confessions of a Romance Novelist (2016)

The_Anchoress_-_Confessions_Of_A_Romance_Novelist

Catherine Anne Davies entrega disco cheio de personalidade e com mensagens feministas que desafiam o conceito idealizado de amor

Por Lucas Scaliza

The Anchoress é o codinome artístico escolhido pela cantora, multi-instrumentista e compositora galesa Catherine Anne Davies. Assim como Natasha Khan (a voz do Sexwitch) escolheu Bat For Lashes para seu projeto solo ou Claire Elise Boucher se chamou de Grimes. Anchoress, como Davies nos explica, significa “mulher anacoreta”, mulher que vive isolada, que se afastou do convívio social, uma eremita, talvez por razões religiosas. Mas é só um nome escolhido bem antes de Confessions of a Romance Novelist, seu primeiro álbum, ficar pronto. A música que encontramos no disco não tem nada de recluso: é possível perceber a influência da inglesa PJ Harvey e do australiano Nick Cave em faixas que mostram competência vocal e habilidade instrumental sem cair e virtuose vazia. Afinal, é um disco de pop independente. Um excelente exemplo de indie pop que flerta com o rock.

Na palavras da própria Anchoress, o conceito que norteia as letras disco é “desconstruir ideias normativas sobre amor e romance”, sendo cada faixa uma história e um aspecto diferente dessa desconstrução. Sim, há contornos bastante feministas em sua atitude frente ao tema escolhido. Com guitarra funkeada e um baixo delicioso e cheio de groove em “One For Sorrow”, ela derruba, com ritmo e melodia insuspeitos, a ideia romântica do casamento como meio para ser feliz. A música é boa por si só, mas animada de uma forma que apenas ouvindo despreocupadamente não parece quebrar em mil pedacinhos a ideia de casamento. A letra é longa e vale a pena acompanhar verso por verso. “Um é tristeza, dois é alegria/ Essas são as regras que você deve empregar/ Um é tristeza / Você só vai falhar se comparar sua vida com um conto de fadas” e “O sonho de ser feliz para sempre é uma mentira que vendem nas revistas/ Minha mãe disse que a vida seria completa com um homem, um carro e uma casa” são versos que você encontrará na música. A ironia ataca as noções burguesas de amor e seu jeito de se posicionar é muito direto.

Foto: Isabella Charle Sworth
Foto: Isabella Charle Sworth

“What Goes Around” é pop para ninguém por defeito e a música mais acessível do disco. As melodias fáceis colocariam The Anchoress ao lado de qualquer outra música pop atual, mas é o instrumental que a diferencia: não há nada sintético na música. Baixo e piano dão as bases da música e sentimos que se trata de pessoas reais por trás dos instrumentos, não programação de um computador. E a bateria no refrão faz viradas que poucas cantoras e produtores do pop teriam coragem de incluir, sem falar que a música muda o compasso de 4/4 para 3/4 só para que você saiba que mesmo a música mais simples do disco tem seus detalhes sofisticados. A letra parece ser sobre um aviso para quem está traindo o parceiro/parceira. Outro grande destaque do disco é “You And Only You”, com participação vocal de Paul Draper, que produz Confessions of a Romance Novelist. Faixa de ritmo constante, desce fácil e tem um jeitinho oitentista. A letra é sobre ser sozinha e estar muito bem, obrigada, com essa condição.

Ainda no lado mais pop do trabalho temos a cativante “Popular” (repare na guitarra noiser e estridente que acompanha os versos) e a dance retrô “Chip On Your Shoulder”.

O disco está sendo lançado e promovido pelo selo KScope, que tem Steven Wilson e Anathema em seu catálogo, e só por esse detalhe já é possível prever que se trata de uma artista com uma proposta diferenciada. Embora seja um disco temático, não tem nada de rock progressivo, recuperando um pouco do pop conceitual de Kate Bush. A KScope tem bons olhos (e ouvidos melhores ainda) para encontrar artistas que valem a pena. Embora o coprodutor Paul Draper seja um multi-instrumentista também, Catherine AD fez questão de tocar guitarra, flauta e variados instrumentos de teclas como piano, mellotron, omnichord, glockenspiel, celeste e wurlitzer para criar variados sons e climas ao longo das 13 faixas. E não podemos esquecer que há momentos em que existem 25 camadas vocais ao mesmo tempo.

O lado mais alternativo do álbum também é digno de nota e é, para falar a verdade, o que torna Confessions of a Romance Novelist ainda mais interessante. “Long Year” deve muito de sua sonoridade à PJ Harvey e mostra um lado mais arrastado de Catherine Davies, em oposição às melodias fáceis de outras faixas. A sofrida valsa “P.S. Fuck You” poderia se passar fácil por uma dessas faixas protocolares de dor de cotovelo ou fossa romântica, mas você já sabe o que esperar, na realidade, a partir do título. A sonoridade é bastante orgânica e rica de atmosfera criada por vários daqueles instrumentos de teclas e também por uma guitarra carregada de efeitos de ambientação. Esse estilo de guitarra que cria texturas também está presente na balada “Doesn’t Kill You”, uma das faixas que fazem uma ótima ponte entre o lado mais comercial e o mais alternativo do The Anchoress, qualidade que vimos no ótimo Natalie Prass (2015) da Natalie Prass. A fluidez com que a faixa se desenvolve torna “Doesn’t Kill You” em uma das melhores do disco (e olha que não é fácil escolher).

Nada de baixo, guitarra ou bateria em “Bury Me”. A música é melancólica e totalmente criada por camadas de vozes e piano e diferentes instrumentos de tecla que criam atmosferas e acompanham tão bem as mudanças harmônicas que Catherine Anne Davies planejou. É uma trilha sonora para a pintura de quadro carregado de tons de azul, do celeste ao mais escuro. Outra dessas faixas que fazem você notar tanto a argúcia composicional do The Anchoress como o lado mais gótico da mulher que está por trás de tudo isso.

Confessions of a Romance Novelist deveria ter saído ainda em 2015, mas o trabalho foi interrompido por uma série de problemas. Entre eles, Catherine quebrou a mão após passar 48 horas gravando no estúdio. O esforço que serviria para adiantar o trabalho acabou fazendo com que a compositora passasse seis meses usando uma placa de metal na mão sem poder tocar nenhum instrumento. Outros acidentes de percursos incluem uma batida de carro, uma morte, duas prisões, mudanças de estúdios e de pianos e muuuuita paciência de todos os envolvidos. Ainda bem que Catherine não desistiu do projeto e, da forma independente como pôde (ou seja, sem muito suporte [$$$] de ninguém e contando com muitos favores), conseguiu finalizar um disco muito bom. Como escreveu mais de 40 canções ao longo desse longo processo, mal seu primeiro álbum chegou ao iTunes/Spotify/Deezer/prateleiras da vida e ela já está trabalhando em sua segunda incursão pela música.

Confessions… nos mostra com mais profundidade o que é The Anchoress e o que ela propõe, mas, como muitos débuts, serve para atiçar a curiosidade e nos fazer imaginar o que mais Catherine Anne Davies poderá propor, expandindo sua música e arriscando mais. O próximo trabalho, aposto, será ainda mais confiante.

spotify:album:0YyehrYQpXofc6dBAzxYPh

 

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