2015 Resenhas Trilha Sonora

Os Oito Odiados (The Hateful Eight) – a trilha de Ennio Morricone (2015)

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Embora Tarantino tenha feito um western, Morricone compôs trilha de suspense carregada de melodias perturbadoras

Por Lucas Scaliza

Nas montanhas do Wyoming, alguns poucos anos após a Guerra Civil americana que colocou o Sul escravagista para lutar contra o Norte do país, uma estátua de Cristo crucificado está coberta de neve. Conforme a câmera se afasta dessa imagem icônica – mostrando um Nazareno tendo que suportar não apenas a dor da mortal punição romana, mas também o peso e a baixa temperatura da neve em seus ombros e costas –, vemos um diligência se aproximando pela estrada. A música que acompanha essa longa cena introdutória de Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015, o oitavo filme de Quentin Tarantino) é “L’Ultima Diligenza di Red Rock”, que repete por mais de sete minutos (em sua versão completa) uma melodia rica em assombro e intervalos satânicos, carregada de tensão. É tanto um prenúncio das ameaças que se avistarão mais à frente na narrativa do filme como uma forma blasfema de Tarantino acompanhar a imagem de Cristo.

A música desenvolve-se totalmente ao redor de um tema, que começa bem grave com sopros e termina com orquestração completa, tendo sua tensa melodia reproduzida por violinos bem altos. Acredite: é o tipo de tema que vai grudar na sua cabeça. Essa é a primeira faixa que ouvimos em Os Oito Odiados e que também abre a trilha sonora do filme. As composições são todas de Ennio Morricone, mestre italiano das trilhas e uma das principais referências de Tarantino, que já utilizou outras músicas dele em seus filmes anteriores. Desta vez, ele foi mais fundo: contratou Morricone para fazer toda a música do filme. É o primeiro longa-metragem do diretor que conta com uma trilha original e não uma seleção de canções de variados artistas e bandas. Além disso, é a volta de Morricone ao western, gênero que o consagrou e com o qual não trabalhara mais desde Buddy Vai Para o Oeste, em 1981. O italiano continua bastante ativo em sua profissão, mas não compunha nada para Hollywood desde O Talentoso Ripley (2002). De uma só vez, quebrou o jejum do mercado cinematográfico americano e dos filmes de faroeste.

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Na trama de Os Oito Odiados acompanhamos John Ruth (Kurt Russell) tentando chegar a Red Rock para enforcar a criminosa Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) e receber US$ 10 mil de recompensa. No caminho, sua diligência acaba trombando com o caçador de recompensas Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e com o xerife Chris Mannix (Walton Goggins). Os quatro mais o cocheiro O.B. acabam presos em uma hospedaria nas montanhas, precisando esperar até que uma brutal nevasca passe e todos possam chegar a Red Rock. Na hospedaria, acabam se encontrando com mais quatro personagens – o mexicano Bob, o vaqueiro Joe Gage, um capitão das tropas Confederadas e o carrasco inglês Oswaldo Mobray – e o circo está montado: tensões de cunho social, racial, fronteiriço e político vão pontuar a história e a motivação de cada personagem, sem falar na pergunta que não quer calar: quem entre todos aqueles homens poderá tentar salvar Daisy da forca?

É importante saber que Tarantino é o tipo de diretor e cinéfilo que entende os westerns como filmes que refletem a década em que são feitos, influenciados pelas questões e pelo tom político que os Estados Unidos adotam. Por isso, não olhe para Os Oito Odiados com visão superficial ou ingênua. Além de toda a violência e das partes cômicas que fazem parte da produção, é um filme com comentários sociais. Não é a toa que se coloca um negro no papel principal (racismo), que há um mexicano na trama (imigração) e que há apenas uma mulher com papel relevante em quase três horas de filme. Aliás, todo o arco da sardônica Daisy/Jennifer Leigh pode ser entendido como um chamado de atenção para a misoginia que nos cerca no dia-a-dia. Embora sobre chumbo grosso para todo mundo, é Daisy quem apanha ao longo do tempo sem que ninguém sinta remorso disso ou sofra qualquer tipo de consequência. Começa com um olho roxo, passa para uma linha de sangue escorrendo pela cara, um nariz ensanguentado e mesmo quando sua face está toda pintada de vermelho, Tarantino encontra um jeito de cobri-la com mais violência. E o oscarizado diretor de fotografia Robert Richardson está sempre a postos para captar uma imagem sempre contundente e bruxesca de Daisy ao longo de todo o filme.

Apesar dos tiros, não espere bangue-bangue. Você conhece o Tarantino: toneladas de diálogos, passo lento e de repente, pow! Um arroubo de violência. Não há perseguições também, apenas uma longa espera e uma tensão crescente. Assim como Cães de Aluguel (1992), a estreia do diretor cuja maior parte da trama transcorria dentro de um galpão, Os Oito Odiados repete a situação de clausura. A trilha sonora tem pouco a ver com os temas mais clássicos dos faroestes. Nada de assobios, nem sinal de gaitas e harmônicas e o único violão dedilhado é aquele que a atriz Jennifer Leigh usa em uma cena chave da trama. No geral, Morricone abusa dos dedilhados dos instrumentos de corda da orquestra para criar temas simples e tensos (e também um pouco repetitivos). Modernos, mas com um ar vintage.

O compositor italiano leu o roteiro para preparar a música. Em Praga, conduziu a Orquestra Sinfônica Nacional da República Tcheca. Morricone declarou que não queria se repetir e entregar algo que Tarantino já conhecesse de seus outros trabalhos. Sua intenção era fazer algo que fosse novo para ele, para o diretor e para o cinema. O resultado é bem interessante, carregado de momentos sinistros, ainda que as cenas em si não sejam tão evocativas de satanismo ou terror. Há uso do trítono (o intervalo de notas mais tenso da aplicação musical) e de semitons, que também causam uma estranha tensão no som. Melodias descendentes também estão por toda a parte, quase nunca como temas principais, mas surgindo uma vez ou outra nas principais músicas, como em “L’Ultima Diligenza di Red Rock” (a partir de 1’11”), “Overture” (a partir de 2’03”) e a versão integral de “Neve” (a partir de 5’59”).

Não é por acaso que muitos identificaram uma imersão do músico no clima do giallo, o nome que se dá na Itália para filmes de terror, crimes e suspense. Este é um terreno mais explorado por John Carpenter em seus slasher movies. Assim, ouvimos Morricone levar a musicalidade do terror e do suspense para um filme de outro gênero, o western. Uma das razões que poderiam explicar isso é que o compositor aproveitou algumas sobras de composições para a ficção científica de terror O Enigma de Outro Mundo (1982), dirigido por Carpenter (que também é coautor da trilha ao lado de Morricone) e estrelado por Kurt Russel (olha aí um easter egg dos cruzamentos cinematográficos que Tarantino adora promover em sua obra).

“Sei Cavalli” é curtinha, mas rica em textura. O xilofone de “La Musica Prima del Massacro” cumpre o papel esperado de fazer a composição soar inocente, como se saída de uma caixinha de música, mas executando as notas tensas que perpassam toda a trilha. O bonitinho como assustador, presente em diversas trilhas de terror. “Sangue e Neve” faz um uso mais interessante do xilofone, que pode representar tanto a pureza dos flocos de neve caindo lá fora quanto o sangue que já goteja dos homens e da mulher dentro da hospedaria. E então a orquestração sobrepuja essa delicada violência com violinos estridentes retomando a melodia tema de Os Oito Odiados. E se falamos em elementos de uma música “satânica”, não podemos esquecer do caos e de partes que se alternam em “L’Inferno Bianco” para acompanhar o último ato de sadismo do filme. A cena em que O.B. e Chris Mannix precisam encarar a nevasca para demarcarem um caminho que leva da cabana até o banheiro é acompanhada por uma escala descendente bastante macabra. A cena pode parecer não ter grande importância para a trama, mas a música sublinha a ameaça que a neve traz para aqueles homens e aquela mulher. Infelizmente, a música que acompanha esse trecho não está no disco da trilha do filme.

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Em uma entrevista concedida anos atrás, Tarantino admitiu que apesar de toda a vingança e de toda a violência, seus filmes possuem sempre um final moral. O personagem pelo qual nós torcemos vence no final; ou chega-se ao resultado mais socialmente correto; o policial morre no cumprimento do dever em Cães de Aluguel, o boxeador não se deixa corromper em Pulp Fiction, a noiva mata Bill e recupera sua filha em Kill Bill, Django resgata sua amada em Django Livre e Hitler morre e os nazistas se dão mal em Bastardos Inglórios. Em Os Oito Odiados simplesmente não temos um herói, apenas uma grande soma de anti-heróis. E se você prestar atenção suficiente para não se deixar enganar, verá que o personagem de Samuel L. Jackson está longe de ser um cara legal, sendo mais um son of a gun entre os personagens. E no final (sem spoilers), temos a faixa mais vibrante de Morricone para o filme. Melancólica, mas triunfante e sem tensão. “La Lettera di Lincoln” sublinha o triunfo diante da morte na cena final.

Mas não é apenas de Morricone que Tarantino se serve. De repente, a voz de Jack White surge entoando o folk blues de “Apple Blossom”, do The White Stripes. “Now You’re All Alone”, de David Hess (usada em Aniversário Macabro, primeiro filme de Wes Craven, lançado em 1972) também figura na trilha. Os créditos finais ganham “There Won’t Be Many Coming Home”, de Roy Orbison, cuja letra tem muito a ver com o estado final das coisas em Os Oito Odiados e foi trilha do filme O Violão Heroico (1967), que retrata justamente um período da Guerra Civil americana, com Orbison no papel principal.

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Em certo momento, Bob, o Mexicano, senta-se ao piano e toca “Noite Feliz”. A simplicidade e harmonia da música são ironizadas pelo diretor ao deixá-la como background para um dos duelos verbais e sentimentais mais ásperos do filme entre Warren e o confederado Sandy Smithers (Bruce Dern). Além disso, ele erra algumas notas, pontuando o diálogo com relevantes dissonâncias. Há ainda uma interpretação ao violão de Daisy Domergue para a balada de fora da lei “Jim Jones At Botany Bay”, uma canção folclórica da Austrália. Enquanto rolam os versos, a câmera ora foca a atriz, ora foca o segundo plano, em que se desenrola uma ação importante para a trama.

Muitos são os músicos pop que usaram algo de Morricone ou tiveram influência do compositor italiano. A lista é longa e inclui Snopp Dogg, The Prodigy, Cibo Matto, Bruce Springsteen, Celine Dion, Sarah Brightman, Flying Lotus, Gorillaz, Muse, Metallica, Ramones, o jazzista Herbie Hancock e até os compositores de trilhas Hans Zimmer, Alexandre Desplat e Harry-Gregson Williams. Essa reputação na música fora das telas também foi conseguida por John Carpenter, que influenciou uma série de bandas de rock e metal.

O álbum tem 28 faixas, sendo que oito correspondem a trechos de diálogos do filme, um costume antigo que Tarantino repete em todas as suas trilhas. Apesar de Ennio Morricone, 87 anos, ser bastante reverenciado pelo diretor americano (que já tinha convidado ele para fazer a música de Pulp Fiction e Bastardos Inglórios), o compositor não gostou de como uma de suas músicas foi usada em Django Livre e chegou a declarar que nunca mais trabalharia com Quentin. Mas, como se vê, voltou atrás. Suas composições em Os Oito Odiados não tenta captar a época em que se passa a história e nem o gênero, mas reflete toda a tensão que perpassa o passado e o presente da história americana e de cada personagem confinado na hospedaria. Não é a grande trilha da vida de Morricone, mas contribui para que o filme seja mais perturbador.

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