2016 Folk Indie Pop Resenhas Rock

Hinds – Leave Me Alone (2016)

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Mulheres independentes, disco de garagem

Por Lucas Scaliza

Antes de serem as Hinds, com este nome e um quarteto, era uma dupla. Ana Perrote e Carlotta Cosials, ambas guitarristas e cantoras, tocaram juntas em 2011 usando o nome Deers. O projeto entrou em hibernação e foi reativado em 2013 e no ano seguinte lançaram dois singles online que conseguiram uma tímida atenção da mídia, mas ganhou elogios de Patrick Carney, o batera do The Black Keys. E então viraram um quarteto de meninas de Madri, Espanha, com o reforço de Aden Martin no baixo e Amber Grimbergen na bateria. Um problema no nome da banda obrigou que mudassem de Deers para Hinds (que, em inglês, é o feminino de deers) e é assim que se apresentam agora.

Depois de lançarem muitas faixas avulsas e um EP de compilação chamado Very Best of Hinds So Far no ano passado, chegou a hora de ver a estreia de fato no formato álbum, com o folk rock marotíssimo de Leave Me Alone. Um disco que dividiu opiniões no Escuta Essa e que também deverá dividir entre o público.

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As espanholas constituem uma banda independente, e toda a qualidade de mixagem e de gravação que ouvimos no disco deixa a falta de produção bastante evidente. As composições misturam o folk despretensioso com o indie rock quase letárgico, um encontro de Belle And Sebastian com o Rodrigo Amarante. Existe uma imprecisão instrumental e vocal que acaba virando a marca de Leave Me Alone. Nenhuma delas é uma instrumentista de fazer saltar aos olhos (não neste disco pelo menos), e as vozes de Ana e Carlotta soam e se unem às vezes como se estivessem cantando despreocupadamente em um karaokê. Confira “Walking Home” e vai parecer que os vocais foram gravados por microfones de headsets de gamers online.

As 12 faixas são bem largadas, dando um aspecto até meio tosco ao disco. Porém, é um trabalho cheio de vontade e de boas músicas. Mesmo que a produção não dê a cada uma delas o polimento que estamos acostumados a ouvir, pode haver uma identificação (como não abrir um sorriso com o refrão de “Warts”?), assim como havia nos anos 70 e 80 com as bandas punks e as bandas de garagem daquela época até hoje. Identificação com a vontade de tocar e de gravar, mesmo sem recursos (ou emulando não ter recursos), uma recuperação do do it yourself. Mas se Leave Me Alone perde em nitidez e precisão, ganha em espontaneidade e organicidade. Não há nada nele que você não tenha certeza que fora feito pelas quatro madrilenas.

A alternância de vozes funciona bem e os arranjos de guitarra são simples, mas curiosamente é o instrumento com melhor definição em cada música, superando muito até mesmo os vocais. Bateria soa um pouco abafada e o violão um tantinho embolado. O ar de descontração exibido desde a capa do álbum perpassa, com força, todas as músicas. Importante ressaltar que as Hinds são carismáticas, o que explica, em parte, como elas tiveram a oportunidade de confirmar presença no South by Southwest (nos EUA, onde tocaram mais de 10 vezes ao longo do evento!), na Tailândia e na Austrália, além de diversos outros festivais, mesmo sem um disco propriamente lançado. Os fãs antenados abraçaram a música dela que, com uma gravação dos anos 60 que soa como se fosse reproduzida de uma fita cassete, tem um alto poder de se embrenhar entre os indies e na cena hipster (deve ser uma experiência bastante válida poder ouvir “Solar Gap” em vinil, aliás).

No final das contas, tudo isso ajuda a fazer com que Leave Me Alone tenha uma personalidade. Mesmo com todos os seus aparentes “defeitos”, é bom lembrar que existe muita música bem produzida sendo lançada todas as semanas e que não possuem identidade própria. Afinal, é com isso que nos identificamos.

Faixas animadas como “Castigadas em El Granero”, “San Diego” e “Fat Calmed Kiddos” e mais letárgicas como “Bamboo” e “And I Will Send Your Flowers Back” podem dividir opiniões, sem problema. Eu vou ficar com o time que vê valor no que fazem. Não é preciso concorrer a uma vaga entre os melhores do ano para valer a experiência. Ana, Carlotta, Amber e Aden querem se divertir com a música. Nós também podemos.

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2 comentários em “Hinds – Leave Me Alone (2016)

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