2016 Indie Resenhas Rock

Savages – Adore Life (2016)

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Novo disco é exageradamente experimental e confuso

Por Gabriel Sacramento

O quarteto feminino Savages surgiu na Inglaterra em 2011. Elas são representantes do movimento musical conhecido como post-punk revival, que define uma nova geração de bandas influenciadas pela new wave e pelo rock alternativo/indie. A banda lançou seu début Silence Yourself em 2013. Agora chegam ao segundo disco: Adore Life.

O disco lançado pelo quarteto pode ser definido como underground. É um som difícil de chegar ao mainstream, já que é caracterizado por ruídos, sons complexos e experimentais. A proposta da banda neste novo disco é a mesma que a de Silence Yourself, criando algo bastante diferenciado se comparado com os padrões da música popular.

Savages-2016

Quando uma artista/banda lança um disco, há três objetivos a cumprir: continuar agradando os ouvintes que já gostavam do trabalho; surpreender os que já ouviram e não gostaram do trabalho; e causar uma boa impressão para estimular aqueles que nunca ouviram nada, nem da banda/artista, nem do estilo, a ouvir mais. Vamos ver abaixo quais dos objetivos, o quarteto britânico Savages cumpriu com sucesso.

Primeiro de tudo: o novo trabalho tem força para agradar, sim. Agradar aos fãs de longa data, tanto do estilo, quanto da banda. Esses ouvintes irão se identificar com a sonoridade de Adore Life. Já com relação aos outros objetivos, o grupo falha miseravelmente. Quem ouviu Silence Yourself e não gostou, quando apertar o play em Adore Life também não irá gostar. E o disco não é recomendado para iniciantes no post-punk, indie/alt rock.

A mais punk do disco – que ganhou até um clipe – “The Answer”, começa com guitarras distorcidas, pesadas e emboladas. A guitarra permanece sustentando a música toda com uma levada de bateria que até soa interessante. O problema é o vocal: interpretação chata, com algumas escolhas melódicas dissonantes péssimas. “Sad Song” é predominante conduzida pelo baixo e bateria e ressalta o estilo vocal desafinado de Jehnny Beth que é, no mínimo, irritante. Sua voz atrapalha a condução da canção e o crescimento do peso. Seu estilo vocal traz ligeiras lembranças do estilo depressivo e emotivo do Layne Stanley, ex-vocal do Alice in Chains. Só que o vocalista grunge transmitia sentimento e conseguia tocar os ouvintes com seu estilo diferenciado. Ao contrário da vocalista do Savages.

“Adore” começa mais calma, enfatizando a voz de Beth. No final, a canção cresce, mas as garotas parecem estar temerosas em injetar peso (quando deveriam) e acabam tocando com uma certa agressividade “de plástico”. Desagradáveis e totalmente incapazes de provocar algum tipo de emoção, seguem-se as faixas “I Need Something New”, “When in Love” e “Surrender”. Em especial “I Need Something New”, que é tão desprovida de feeling que parece um conjunto de máquinas tocando. Aliás, no quesito falta de feeling, “Surrender” empata com a supracitada. “T.I.W.Y.G” começa com os típicos ruídos, desembocando em passagens bastante densas em que sobra distorção. A repetição exagerada da frase principal da música (“This is what you get when you mess with love”) é um dos pontos mais incômodos da faixa. A interpretação da vocalista melhora um pouco em “Mechanics”, que tenta evocar um clima denso e reflexivo, para então fechar o disco.

As garotas soam experimentais, com arranjos que abusam de ruídos e imprevisibilidades, isso é fato. Mas a maioria das escolhas não funcionam tão bem, gerando um conjunto de canções fraquíssimas que causa uma péssima impressão. Aqui não há linhas vocais memoráveis, arranjos memoráveis e nem nada que chame muito a atenção. Mas sim, interpretações chatíssimas da vocalista Jehnny Beth, arranjos totalmente sem sentido que não contribuem em nada para a forma das músicas, apenas confundem. Também há ênfases constantes em elementos errados: aquelas repetições de peças no arranjo que poderiam ser evitadas.

A sonoridade me lembra um pouco os experimentalismos noventistas do grunge. Bandas como Alice in Chains, Soundgarden e Nirvana, que abusavam de timbres ruidosos e uma sonoridade complexa e esquisita. Essas bandas traziam experimentalismos bem dosados, que funcionavam e possuíam sentido. As escolhas das dissonâncias eram bem feitas, bem como os elementos que reforçavam a complexidade rítmica. A sonoridade das Savages peca na dosagem. No desejo de querer soar diferente do óbvio, as garotas exageram nos experimentalismos e caem no erro de fazer uma música difícil demais. Também faltam aqueles pontos centrais (leia-se: clímax) nas canções, que fazem a diferença e manipulam as emoções do ouvinte. As canções soam sem sentido, sem direção, como um conjunto de ruídos e vocalizações que desafiam os limites da afinação.

Não é errado soar experimental, ruidoso ou agressivo, mas esses elementos devem ser utilizados com cuidados, pois a probabilidade de prejudicarem o desempenho das faixas é muito grande. É uma arma muito perigosa, que deve ser manuseada com muito esmero. Uma vez bem utilizada, cria obras maravilhosas; mal utilizada, pode criar algo descartável e muito ruim.

Como disse acima, três objetivos Adore Life busca cumprir. Desses, a banda falha em dois deles. Os fãs do grupo não se decepcionaram. Mas é o tipo de sonoridade que faz bandas permanecerem confinadas nas grades do underground, sem nenhuma possibilidade de conhecer a luz do sol.

A banda ainda é nova e é comum que demore um tempo para se “encontrar”. Resta esperar para conferir o futuro do quarteto (a menos que já tenha se encontrado nas esquinas mais escuras do post punk).

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Foto: Tom Hines
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7 comentários em “Savages – Adore Life (2016)

  1. Posso estar enganado, mas o que se percebe no texto é uma tremenda má vontade do resenhista em relação ao álbum das Savages e falta de maior aprofundamento no tipo de som proposto pela banda. Basta ver a frase: “É um som difícil de chegar ao mainstream, já que é caracterizado por ruídos, sons complexos e experimentais”. Primeiro que chegar ao mainstream talvez não seja mesmo o objetivo da banda, ou chegar ao mainstream vendendo “a alma ao diabo”, repetir clichés, fazer refrões ganchudos e melodias bonitinhas.
    Ao dizer que é um som caracterizado por ruídos, sons complexos e experimentais, deixa explícito sua falta de conhecimento em relação à música independente, haja vista que bandas como Bauhaus, Siouxsie and the Banshees e Joy Division já faziam algo semelhante no final da década de 70 e início dos 80; e o Sonic Youth de forma mais radical ainda em toda sua carreira. Ou seja, não há nada de complexo e tão experimental, muito menos novo para quem conhece o território musical em que a banda atua. Nesse sentido, há razão em afirmar que a música da banda é difícil demais para o resenhista. Outra, comparar Savages com Nirvana e Soudgarden deixa clara a limitação de conhecimento de estilos, seria por causa da distorção? A música das Savages é construída a partir da cozinha, com a guitarra geralmente fazendo efeitos diversos, microfonias, dissonâncias e em outros pegando na distorção mesmo, que nesse álbum tá bem mais intensa. Quanto aos vocais de Johnny Beth, que é chamado de desafinado, melhor nem comentar.

    • Olá Luciano. Obrigado pelo comentário e por ter lido a resenha. Vamos lá:

      1. Eu falei que o som da banda é difícil de chegar ao mainstream como uma característica da sonoridade delas e não como um demérito.
      2.A proposta do post-punk é a de um som complexo (de compreender) e experimental, no sentido de trazer ideias diferentes do que é comum e padrão para a música popular. Um estilo de música experimental é um estilo inovador e diferenciado, que se afasta dos paradigmas estabelecidos pelo que é dito “comum” (que vão desde a estrutura das músicas, até conceitos como harmonias, etc).
      3. A semelhança com o grunge vai da atitude das meninas (independente, sujo e com uma sonoridade diferenciada – em termos de timbres) ao uso de psicodelia e harmonias não convencionais. E também, no jeito dos vocalistas cantarem suas letras, com certo “descuido”, de uma forma um tanto “depressiva”.
      4. Você canta? Se sim, poderá com propriedade desconstruir o que eu disse sobre o vocal ser desafinado. E saberá que isso também não se trata de um demérito, dentro do que a banda se propõe a fazer. Apenas citei o fator como um demérito para mim (como ouvinte), pois para mim, esse fator não funcionou no conjunto ‘música’ e nem para me agradar (como ouvinte).

      • Na verdade, acho que por não gostar do estilo de música proposto pela banda, tua resenha ficou enviesada.

  2. E ainda errou o nome da faixa, que é “Sad Person” e não “Sad Song”!

  3. Na boa, acho que faltou ao resenhista melhor aprofundamento do estilo, além de não gostar do estilo em si.

  4. Pingback: Headless Buddha – Homesick (2016) | Escuta Essa!

  5. Pingback: Warpaint – Heads Up (2016) | Escuta Essa!

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