2015 Resenhas Trilha Sonora

O Regresso (The Revenant) – a trilha sonora (2015)

the_revenant_trilha_sonora

Música minimalista mistura o erudito e o eletrônico para acompanhar o drama de sobrevivência de DiCaprio na tela e de Ryuichi Sakamoto na vida real

Por Lucas Scaliza

Se for mesmo verdade que temos um ótimo filme diante de nós se ele for projetado mudo e ainda assim ele não perde a sua força, então O Regresso (The Revenant, 2015) é um dos melhores filmes que veremos nos últimos anos. Não é o mais arrebatador, o mais criativo ou revolucionário, nem mesmo o mais emocionante, mas com certeza poderia ser exibido sem sons que entenderíamos perfeitamente as motivações de seus personagens e o grau de dramaticidade de sua história.

Pode parecer um contrassenso dizer que o filme poderia não ter sons justamente em um texto que busca analisar sua trilha sonora, mas é verdade. Os diálogos de O Regresso servem para dar contexto sobre a geografia do oeste dos Estados Unidos durante o inverno, sobre quem é quem, quem é filho de quem e quem desconfia de quem, mas não é como em Os Oito Odiados (2015), em que cada fala, até mesmos as aparentemente mais prosaicas, revelam a força do filme e o fazem seguir adiante. Até mesmo a trilha sonora é tímida em 80% das vezes. Você quase não há percebe em meio às florestas ou campos tomados pelo gelo.

the_revenant_dicaprio

O que abunda com ímpeto, elegância, sensibilidade artística e destreza técnica é de fato a fotografia do mexicano Emmanuel Luzbeki. As imagens que ele capta, o seu olhar para enquadramentos e para a luz é de tirar o fôlego. O diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, encontrou em Luzbeki um parceiro ciente das imagens que homens e natureza podem proporcionar e competente o suficiente para dar conta de filmar em lugares difíceis, sob condições difíceis, e realizando todos os planos-sequência que são a marca de Iñárritu. Cabe lembrar que Luzbeki também é responsável pela fotografia de filmes de Terrence Malick, sempre referências nesse campo. (Luzbeki ganhou o Oscar pela fotografia de Gravidade, de Alfonso Cuarón, e de Birdman, o filme anterior de Iñárritu).

Ainda que seja discreta a maior parte do tempo, a trilha é importante na produção. Assim como Os Oito Odiados, O Regresso é um western cuja música não é típica do gênero. Quem foi contratado para a tarefa foi o experiente compositor japonês Ryuichi Sakamoto, que congrega tanto o espírito clássico como o de vanguarda, com laivos de minimalismo também. Sakamoto venceu o Oscar de melhor trilha por O Último Imperador, de Bernardo Bertolucci, e não trabalhava para uma produção de cinema americano desde 1992. Além disso, quando aceitou o convite do diretor, já estava travando uma batalha contra um câncer na garganta, da qual saiu vitorioso, mas teve dúvidas se conseguiria levar o trabalho até o fim. Por isso convocou o alemão Alva Noto (Carsten Nicolai) para lhe ajudar. A pedido de Iñárritu, o músico Bryce Dessner (guitarrista do The National, mas com formação clássica) também contribui.

the-revenant-tom-hardy-1

Em abril de 2015, Ryuichi Sakamoto voou até Los Angeles para se encontrar com o diretor. Naquela etapa da produção o filme já estava pronto e usava temp tracks feitas por Dessner, nome dado às músicas que servem de guia para o diretor durante a edição do filme, pontuando o clima e o humor de cada cena e depois substituídas pela trilha original. Alejandro G. Iñárritu não queria uma trilha orquestral comum e, caso fosse esse o objetivo, nem teria sentido contratar Sakamoto. O mexicano queria uma trilha que tivesse tanto o som acústico dos instrumentos quanto uma vibe mais sintetizada e esse intercâmbio sonoro é justamente o que Sakamoto e Alva Noto produzem conjuntamente desde 2002.

Sakamoto não tem um processo de composição para trilhas bem definido. Ele é muito intuitivo com sua música e diz que geralmente as primeiras impressões de como a música deverá se encaixar no filme são as certas. Assim, o tema principal do filme foi escrito logo no início do processo.

Praticamente não há bateria ou percussão para acompanhar as cenas da primeira metade do filme. Os personagens, em especial o vivido por Leonardo DiCaprio, precisam chegar do ponto A ao B antes que morram (os perigos são vários: ursos, indígenas, franceses, o frio, a fome, o medo). Embora seja um filme sobre mover-se pelo terreno, essa “marcha” não ganha acompanhamento de bateria ou percussão ritmados. E há muita tensão e pesar na música. Não é como a tensão ameaçadora de Os Oito Odiados, em que a ênfase nos acordes e nos intervalos de meio tom deixa clara a medida da maldade. É um tipo mais sutil de ameaça que temos aqui.

O volume é bem baixo em diversas faixas, fazendo com que a trilha realmente se integre ao cenário do filme como mais uma força da natureza. Sério, você quase não percebe a trilha agindo em diversos momentos. O sintetizador de Noto entra de forma tão minimalista que não se percebe facilmente a intervenção eletrônica na música de Sakamoto, como em “Discovering Bufallo” e “Church Dream”. Já em “Carrying Glass” as ondas sintetizadas ganham todo o protagonismo. Na bela e atmosférica “Hawk Punished”, composição de Noto e Dessner, o ruído ganha espaço em meio a sintetizadores, criando um dos únicos momentos de em que o som torna-se estridente. “Imagining Bufallo” é apenas de Dessner. Você só percebe que há um sintetizador fazendo boa parte da faixa conforme suas camadas ganham volume.

Nada a se estranhar nessa mistura de erudito e eletrônico: Sakamoto é um compositor que estudou piano clássico, harmonia e contraponto, mas já na década de 1970 entrou para um grupo de vanguarda chamado Yellow Magic Orchestra, fazendo música eletrônica. Na virada do milênio, se uniu diversas vezes a Alva Noto para produzir música minimalista: o japonês toca piano clássico enquanto o alemão contribui com ondas sonoras, e há economia de notas em todos os discos lançados pela dupla. Então é natural que ele(s) saiba(m) mesclar muito bem suas partes e balanceá-las.

Ryuichi e Alva Noto não compuseram juntos. Diversos trechos foram trabalhados independentes um do outro e depois reunidos em uma mesma música. Outras faixas dependeram da troca de arquivos entre eles para cada um saber para onde o outro estava levando a composição. Dessner sabia o que Sakamoto estava fazendo, mas compôs suas partes de forma independente também. Quando a música fica mais alta e mais forte, com contornos mais materiais e menos abstratos ou etéreos, desconfie que sejam músicas de Dessner. Sua orquestração em “Looking For Glass” e “Final Fight” dão uma cara mais convencional à trilha. Já “Cat & Mouse” é tão vasta que congrega as seis mãos de uma só vez: o abstrato do japonês, os sintetizadores e ruídos do alemão e as orquestrações do americano, que encaixa até uma percussão.

Há melodia também. “The Revenant Theme 2” surge como uma das faixas com melodia mais destacável do álbum, com cellos pesarosos e um piano marcando o tempo e a harmonia. Em “Goodbye to Hawk” temos a escolha de uma flauta para descrever um tema lamurioso para um personagem meio-índio. “Out of Horse” também mostra a mão de Sakamoto para o trágico, faixa em que provavelmente toda a melodia foi criada com um antigo sintetizado do compositor e que o próprio Iñárritu pediu que ele usasse novamente. Em “Revenant Main Theme Atmospheric” percebe-se os traços estilísticos de Sakamoto e seu piano, bem como a melodia mais “japonesa” da trilha. E “Final Fight” é a maior contribuição de Bryce Dessner ao projeto. Sakamoto não gosta de compor coisas explosivas e não é bom com cenas de ação. Mas Dessner é. O músico até coloca uma bateria trovejante para acompanhar a tensão do embate entre o personagem de DiCaprio e o de Tom Hardy.

THE REVENANT, Leonardo DiCaprio, 2015. TM and Copyright ©20th Century Fox Film Corp. All rights

O Regresso, de várias maneiras, é um filme com formato mais clássico do que a produção anterior do diretor, o oscarizado Birdman (2014). Birdman dificilmente poderia ser convertido em filme mudo e preservado todo o seu potencial. Feito para parecer um longo plano sequência, com apenas um corte, era um filme que dependia muito dos atores, do diretor e da câmera de Luzbeki para funcionar. A trilha sonora era nada convencional também, consistindo apenas de trilhas de bateria gravadas pelo jazzista Antonio Sánchez, pontuando o desassossego mental do protagonista. O novo filme também tem pretensões de grandeza, mas diferentes.

O que move Hugh Glass (DiCaprio) é a vingança, mas antes ele precisa sobreviver. Há muito sangue, mas nem sempre resultado de um confronto direto. Aliás, a maior batalha acontece logo nos primeiros minutos. É um filme de contemplação e meditação. Por isso a trilha lhe cai muito bem.

Aos 63 anos e lutando contra o câncer, Ryuichi Sakamoto foi pessoalmente reger a Northwest Sinfonia, em Seattle, que deu vida às suas partituras. o combate ao câncer foi o momento em que Ryuichi Sakamoto mais se sentiu perto da morte, e essa sensação influenciou sua produção musical. “O passo dessa música, o tema, é baseado na minha respiração: pesada e longa, talvez um pouco triste também”, diz o compositor, que venceu o câncer. “Esse é o sentido de O Regresso: uma volta dos mortos”.

The-Revenant-2

Anúncios

0 comentário em “O Regresso (The Revenant) – a trilha sonora (2015)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: