2016 Folk Indie Resenhas

Matt Elliott – The Calm Before (2016)

Folk experimental inglês mantém a pegada soturna, mas continua mostrando abertura para passagens mais iluminadas

Por Lucas Scaliza

O folk contemporâneo ainda conserva aquela velha imagem do homem, ou da mulher, com seu violão no colo. Mas é um erro manter essa imagem rígida em mente toda vez que se fala em folk. Além do violão, que pode permanecer em primeiro plano sem problema nenhum, é importante destacar o papel de drones, sintetizadores, pedais de expressão, orquestrações e percussão na música de uma boa quantidade de compositores do gênero nesta virada de século. O experimentalismo está presente na música do irlandês Damien Rice, dos americanos Sun Kil Moon e Sufjan Stevens, só para citar alguns.

O inglês Matt Elliott não está nem perto de ser o mais conhecido deles, mas é dono de uma discografia esmerada. Um artista que possui pathos e ethos fortíssimos, identificáveis em cada uma de suas músicas. Cada um de seus sete discos trazem um folk levemente diferente do que já ouvimos anteriormente e mesmo assim nunca perde de vista a profundidade sonora, a melancolia, o virtuosismo, o sarcasmo, a blasfêmia, e a paciência para deixar cada música respirar à vontade, tomando o tempo que for necessário para que evolua e se resolva. Não é por acaso que já se referiram à música de Elliott como “dark folk”.

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The Calm Before, seu sétimo e novo álbum, é mais uma peça única em sua discografia. Maturidade musical ele exibe desde a estreia, então o que sobra para perscrutarmos a cada novo trabalho é a utilização de novos e velhos instrumentos, as letras, as nuances do registro vocal e que novas influências ele emprega para contar suas histórias.

Não importa para onde vá sua música, quais caminhos ele escolha e que detours tenha que fazer, suas músicas continuam partindo do violão e voltando a ele. “Wings & Crown” é uma faixa bastante diferente de tudo que ele já produziu, apostando na música mediterrânea com percussão bem marcada, quase como uma marcha, e um clima bastante épico. Encontra espaço para uma guitarra lacerante e até um solo de baixo acústico, sempre deixando o violão temperado soar.

Assim como no excelente Only Myocardial Infarction Can Break Your Heart (2013), ele mantém uma boa dose de climas soturnos e sombrios, mas deixa entrar raios bastante luminosos também, dando uma abertura sonora maior à sua música em alguns momentos. “The Allegory of the Cave” exemplifica isso de maneira muito clara, mantendo uma melodia de voz terna e fraseados bastante cristalinos no lado mais luminoso da canção, enquanto o tímido zumbido eletrônico e uma percussão bem funda vão e voltam, acompanhando a evolução da faixa e criando a moldura mais sombria, marca de Elliott.

“The Calm Before” e seus 14 minutos de duração é uma amostra do poder lírico de Elliott. O dedilhado sóbrio do violão em suas mãos abre espaço para o brilho da gentileza de sua voz. O piano o acompanha com as teclas mais agudas, apenas marcando mudanças harmônicas chaves com as teclas mais graves. Ao fundo, rugindo constante mas timidamente, ouvimos um drone. Embora não seja uma faixa tão expansiva como “The Right To Cry”, do disco anterior, é uma das típicas composições do inglês que exigem paciência e entrega do ouvinte para revelar seu carisma. É pouco depois da marca de 10 minutos que cello, sopros e até coral se juntam ao corpo da música, criando um arranjo encorpado e iluminado.

Curtinha e poderosa é “The Feast Of St. Stephen”, com um registro vocal extremamente grave de Elliott, violão misturando as escalas menores temperadas e as técnicas de violão clássico europeu. “I Only Wanted To Give You Everything” rivaliza com a faixa-título o posto de melhor canção de The Calm Before. Sempre houve uma ênfase na repetição de frases, temas e ciclos de acordes caracterizando a estrutura das canções de Matt Elliott. Nesta faixa, ele leva a repetição para os versos “But you don’t love me”, que a cada turno ganham mais força, mais instrumentação, mais ansiedade e mais caos, mostrando um dos momentos mais barulhentos de sua discografia. Daí você entende o alerta sobre o folk contemporâneo que não se resume mais só a um homem/mulher e seu violão, mas abre-se para uma experimentação bem maior.

A música de Matt Elliott nunca foi inofensiva, nem pouco criativa, e sempre foi adulta mesmo com todos os trocadilhos e referências sarcásticas que sempre empregou. The Calm Before não dá grandes passos além do que ele já mostrou anteriormente, mas não é nenhum passo para trás também. O álbum tem qualidades técnicas de sobra e uma expressão artística que não decepcionará nenhum ouvinte do músico. Aliás, dentre todos os seus discos, The Calm Before pode ser seguramente a porta de entrada para novos admiradores. Só lembre-se de que cada trabalho tem seu próprio jeito de ser e é por isso que vale a pena mergulhar nas águas turvas e profundas da música de Matt Elliott.

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3 comentários em “Matt Elliott – The Calm Before (2016)

  1. Mais uma boa recomendação do blog, ouvindo agora. Abraço!

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