Matmos – Ultimate Care II (2016)

Casal grava disco no porão de casa usando uma máquina de lavar roupa

Por Lucas Scaliza

Caso você já não fosse um ouvinte da cena mais artística e vanguardista da música eletrônica, seria comum se deparar com um disco da dupla Matmos e achar aquilo um pouco mais difícil de digerir do que o normal. O casal M. C. Schmidt e Drew Daniel sempre manteve os pés no experimentalismo, sendo famosos sobretudo por suas batidas matematicamente planejadas, um recurso conhecido como microbatidas (uma sucessão de cliques ao invés de bate-estacas) que tornou-se amplamente conhecido e apreciado depois que o Matmos contribuiu com o disco Vespertine (2001) da Björk e saiu em turnê com a islandesa.

Mas uma coisa é ser experimental e musical ao mesmo tempo. Nesse campo temos artistas que vão de David Bowie e The Mars Volta, no rock, até Thom Yorke e deadmau5 no eletrônico. Por mais difícil que The Marriage Of True Minds (2013) possa parecer a princípio, revela-se uma música bastante interessante e palatável com o tempo (embora tenha muito pouco apelo pop, é verdade). Mas o que Schmidt e Daniel fazem em Ultimate Care II é dar um passo para mais longe da música, aproximando-se muito mais do experimentalismo com sons sem pensar em como – ou se – o resultado vai soar realmente como uma faixa musical.

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Para isso, o casal desceu até o porão de sua residência em Baltimore e usou a sua Whirlpool Ultimate Care II, uma lavadora de roupa fabricada pela americana Whirlpool Corporation, para extrair sons, ritmos, padrões, não-padrões e samples que servissem de base para o novo disco. Gravaram a máquina de lavar funcionando ali mesmo no porão e depois apenas complementaram a experiência convidando outros músicos tão vanguardistas quanto eles, como Jason Willet (do Half Japanese), Dan Deacon, Max Elibacher e Sam Haberman (ambos do Hose Lords) e Duncan Moore (Needle Gun).

Ultimate Care II é constituído por apenas uma faixa, que dá nome ao trabalho, com 38 minutos de duração. E toda a faixa é constituída por estímulos sonoros, ruídos e alguma música representável em partitura, como uma versão mais longa de “Ross Transcript”, presente no álbum anterior da dupla. É, assim, uma música bastante fria e frequentemente desconfortável. Há que se lembrar que causar desconforto por meio dos sons sempre foi parte do conceito sonoro do Matmos e não seria agora, dando um passo mais ousado na direção da abstração, que voltariam atrás nesse ethos musical.

“Ultimate Care II” é constantemente caótica, alternando momentos mais pesados com outros mais introspectivos. Alterna entre passagens de compasso mais livre e sons mais aleatórios e outros de tempo mais marcado por batidas e ritmo mais regular. Às vezes você realmente identifica o som da lavadora de roupa enxaguando, centrifugando ou tendo sua lataria amassada, mas a grande sacada aqui é propor uma miríade de sons incomuns que aos poucos vão tomando a forma de música para logo em seguida se desfazer em abstração. No final das contas, temos uma manipulação sonora bastante interessante, em que objetos cotidianos são convertidos em instrumentos e instrumentos são usados de forma menos convencional. Um disco de conceito parecido é a trilha Pomegranates de Nicolas Jaar.

É uma forma de burlar os métodos convencionais de composição, de notação musical e de gravação. Schmidt e Daniel fazem um trabalho dadaísta com sua lavadora de roupa. Deslocam-na de sua função original e propõem uma nova visão do objeto, em outro contexto. E sim, isso é arte. Talvez uma das experiências mais excêntricas e interessantes de 2016, aliás. E que vai ser levada aos palcos, a dupla não sabe como exatamente, mas a máquina de lavar estará lá.

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