The Cult – Hidden City (2016)

Nada de novo no front do The Cult, mas é mais uma dose de rock poderoso e bem feito

Por Lucas Scaliza

Tenho a impressão de que o grupo inglês The Cult só é “cult”, e não realmente cultuado como uma das boas bandas da década de 1980 que continuam vivas e produtivas, porque a concorrência ao longo do caminho sempre foi pesada. Antes havia The Doors, depois vieram Joy Division, então chegamos ao hard rock com Bon Jovi e Guns N’ Roses, sem falar em Whitesnake e diversas outras bandas de rock do gênero. Você já ouviu falar mais de qualquer uma delas do que do The Cult, certo?

Hidden City é um lembrete de que a banda é boa, é rock’n’roll e, o melhor de tudo, continua em ótima forma. Até mesmo o Ignite está pegando mais leve agora enquanto os Cults estão colocando as garras para fora álbum após álbum. O hard rock oitentista característico que fizeram em álbuns como Love (1985) e Electric (1987) conseguiu ser sabiamente atualizado para a sonoridade deste novo século, com timbres mais encorpados e baterias mais estrondosas. Foi assim, afinal, com os discos Beyond Good And Evil (2001) e Born Into This (2007), e continua tendo a mesma pegada com o novo lançamento.

The-Cult-2016

Josh Homme, o midas, e Iggy Pop, o punk, fizeram um rock bem legal em Post Pop Depression, mas tomaram a via alternativa do estilo. Já o Cult continua direto, colocando as guitarras de Billy Duffy em primeiro plano, deixando o baixo passear gostosamente e propor bases tão boas quanto àquelas dos anos 80, e a voz de Ian Astbury está soando muito bem, como se a idade ainda não pesasse. Canta alto, com força, não usa falsetes e recorre pouco ao drive para colocar mais pressão na melodia de voz. Faz bonito usando a voz de cabeça mesmo.

Não há nada de novo e nem mudanças de estilo significativas nas 12 faixas de Hidden City, mas é o mesmo caso de Wonderful Crazy Night, do Elton John: o que não tem de altamente inovador tem de coerente com a discografia e mostra como ainda são relevantes. Isso não quer dizer, no entanto, que as faixas sejam todas iguais. Usando o bom e velho hard rock, fazem faixas que descem muito bem logo de primeira sem precisar maneirar no overdrive e nunca chegando nem perto de usar melodias bonitinhas e chicletes.

Vai ver esse foi o “problema” do The Cult ao longo dos anos: Whitesnake, Bon Jovi e Guns eram banda americanas com frontmen carismáticos, fizeram diversos singles que ficaram por um bom tempo no gosto do público, tudo adoçado por letras de amor melado. O Cult não tomou esses caminhos e não abriu mão das letras mais politizadas. Mas é impossível não ouvir uma música como a ótima “Birds Of Paradise” e não pensar que há sim muito potencial comercial na banda sem que ela precise perder a dignidade. Na verdade, O Cult nunca duelou com o

“Hinterland”, “Dark Energy” e “GOAT” são realmente pura energia. “Heatens” tem balanço e traz o DNA oitentista da banda; “Lilies” é simples, mas dá um chacoalhão no álbum ao misturar o rock com uma levada mais flamenca. “No Love Lost” tem um refrão poderoso, mas toda a parte dos versos aposta numa percussão mais temperada. “Avanlanche of Light” e “Dance The Night” são as músicas mais animadas do trabalho, mantendo acesa a flâmula do hard rock como um tipo de rock bastante divertido e cativante. O que já houve de post punk ou gótico no som da banda está diluído em detalhes ou passagens de algumas faixas. Em Hidden City esse lado do grupo está mais presente na forma arrastada de “In Blood” e da ótima “Deeply Ordered Chaos”. Esta última tem um teclado bastante presente que simula uma orquestração que complementa bem o arranjo, sem roubar a cena da banda. Apenas “Sound And Fury”, mais dramática e climática, com um piano no lugar das guitarras, mergulha no gótico e, como resultado, tem uma das faixas mais bonitas que o The Cult gravou na última década e uma das melhores do álbum, aproveitando tanto um estilo vocal mais limpo e sentimental de Astbury como a boa mão da banda para baladas profundas (“Painted On My Heart” mandou abraços).

Além do vocalista e do guitarrista (que são destaque em todas as faixas), a banda conta com John Tempesta entregando um ótimo trabalho nas baquetas. Sem baixista no momento das gravações, o instrumento foi gravado pelo competente Chris Chaney, do Jane’s Addiction, que soube executar linhas melódicas coerentes com toda a discografia do grupo. Teclados e pianos foram tocados por Jamie Muhoberac (que já tocou com diversas bandas famosas, incluindo os Rolling Stones e Chris Cornell).

A verve para letras mais críticas e interessantes continua firme no DNA do grupo. “In Blood” é tanto um conto de lobisomem quanto pode ser uma metáfora para o efeito “amaldiçoado” de uma doença venérea. Em “Deeply Ordered Chaos“ falam tanto dos atentados em Paris quanto apontam o dedo para o Ocidente e suas mazelas, cientes de que o “lado de cá” do globo também tem sua parcela de culpa. A energia de “Hinterland” poderia ser um mergulho no vício em drogas e em como essas substâncias acabam possuindo o indivíduo, virando toda a “verdade” que eles precisam. Em termos de escrita, as letras do Cult não são tão bem construídas e nem sempre criam as melhores imagens possíveis do que querem dizer, mas fica claro que a pegada da banda não é essa em que tudo acaba em amor. Tocam em temas mais amplos e não consigo deixar de pensar que o rock, afinal, é para isso também: não se conformar. E este é mais um motivo para ouvir Hidden City.

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