Yuck – Stranger Things (2016)

Mais agressivo que o anterior, mas sem perder a fofura

Por Lucas Scaliza

Glow And Behold foi um ótimo disco de shoegaze lançado em 2013 que deu mais visibilidade ao Yuck, superando sem dificuldade o disco de estreia, de 2011. Stranger Things carrega um pouco mais nas tintas, deixando a mostra o lado mais noise rock da banda inglesa. Em termos práticos, esse lado noiser consiste em uma carga maior de overdrive e distorção nas guitarras, fazendo com que o timbre fique saturado e borrado (característica dos pedis de fuzz), e a voz gravada de forma pouco cristalina nas faixas mais nervosas, como “Hold Me Closer”, “Cannonball”, a barulhenta “I’m OK” e a noventista “Hearts In Motion”.

Como mostra “Like a Moth”, o quarteto não perdeu a mão para baladas e melodias fofas, no entanto. A estrutura musical, os arranjos e os dedilhados continuam reproduzindo os mesmos trejeitos do indie rock e do shoegaze de Glow And Behold. É quando eles combinam melhor esses elementos, sem carregar tanto na distorção, que o Yuck parece conseguir os melhores resultados. “Stranger Things” é uma das faixas mais equilibradas do disco, com uma levada bem ao estilo rock inglês, e que se conecta ao ouvinte quase que instantaneamente. Longe de ser a mais criativa do disco, mas com certeza é uma das que melhor funciona.

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A bonita “As I Walk Away” entra para o rol das músicas destaque do álbum, tanto pelos arranjos bem feitos quanto pela voz de veludo da baixista Mariko Doi, que canta na faixa. Um exemplo de dinâmica, indo do gentil ao rascante sem perder a mão (qualidade que não acompanha “I’m OK”, por exemplo). “Swirling” é uma grande onde sonora causada pelas guitarras que, de um jeito garageiro, nos embala e nos conduz até o fim da faixa. Cada vez que a palheta passa pelas cordas de uma das guitarras, sentimos as vibrações atingir nossos tímpanos como ondas atingem nosso corpo no mar.

O rock do álbum combina-se mais uma vez ao aspecto sinestésico do som do Yuck em “Yr Face”, quando o ritmo lento e arrastado, pressionado pela pesada distorção, une-se com um som sintetizado (provavelmente efeito criado por um pedal de expressão) que imita uma ventania no terceiro ato da faixa.

Fica claro, assim, que Stranger Things é uma tentativa de não perder as características que fazem do Yuck uma boa banda, mas ao mesmo tempo não quer fazer sempre o mesmo som. Então abrem espaço para uma série de diferentes influências que na maioria das vezes caem bem ao estilo que mistura o rock de garagem e as melodias fofas, a agressividade e a busca por experiências sonoras com os instrumentos e pedais que possuem.

Quem admira Glow And Behold não vai encontrar substitutas para músicas como “Rebirth”, “Somewhere” e “Middle Sea”, mas sim complementos para uma carreira no indie que continua indo muito bem. Stranger Things não é melhor que o anterior, mas mantém a mesma verve. O Yuck acerta ao tentar algo diferente que nem mesmo o EP Southern Skies (2014) antecipou.

Max Bloom continua sendo o líder do grupo após a saída de Daniel Blumberg e se dá muito bem na função. Não é um grande vocalista, mas seu timbre fica ótimo no som proposto pelo grupo. Ao lado do guitarrista Ed Hayes, fez de Stranger Things um palco para uma série de arranjos diferentes nas seis cordas: levadas rítmicas, riffs, solos bonitinhos, solos noiser, ruídos, utilização de efeitos para criar paisagens sonoras e, claro, muita distorção. Para quem gosta de um som sujo e não abre mão de um pouco de beleza.

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