Clarice Falcão – Problema Meu (2016)

Clarice ainda não definiu com certeza o que quer fazer e revela muito desconforto com o som que tentou em novo disco

Por Gabriel Sacramento

Problema Meu é o segundo disco da atriz, cantora e humorista Clarice Falcão. O sucessor de Monomania traz a produção de Alexandre Kassin e uma sonoridade diferente do primeiro trabalho. Para quem não sabe, a carreira de Clarice foi alavancada por vídeos no YouTube, onde ela apresentou suas primeiras canções até gravar o début em 2013.

Falcão trouxera uma sonoridade bem juvenil, inocente, com letras que falavam de amor sob uma ótica diferente. Musicalmente, ela se baseou no indie folk, com presença forte e marcante de violões. Mas seu primeiro disco tem um problema: é monotemático demais. Pelo fato de insistir no uso de violão em diversas canções e no mesmo jeito de cantar, Clarice não surpreende o ouvinte quando este se propõe a ouvir Monomania inteiro, faixa por faixa. Talvez o sucesso da cantora se dê pelo fato de muitos dos fãs ouvirem apenas singles e não pararem para prestar atenção no álbum como um todo.

Clarice Falcão 1

Problema Meu pode surpreender muita gente: não usa o formato voz e violão que foi central no primeiro disco. Em seu novo álbum, Clarice tenta bases instrumentais com auxílio de levadas mais pesadas de bateria e um pouco de guitarra (inclusive com distorção).

Em “Irônico”, a cantora deixa claro suas intenções de mudança de sonoridade. Com um ritmo mais forte e acentuado, embora seu jeito de cantar – que é o mesmo de sempre – não impressione. A cantora não varia muito sua interpretação mesmo diante de uma música com ritmo mais pegada. “A volta dos Mecenas” traz uma base bem cheia, com uma instrumentação intensa. Porém a cantora utiliza o mesmíssimo jeito de interpretar a canção e isso acaba prejudicando a faixa. “Marta” tem guitarras distorcidas, o único fator que a diferencia das demais. A candura e tranquilidade impressas em “Se esse bar fechar” são incríveis e essa canção tem força para ser classificada como a melhor do disco. “Como é que eu vou dizer que Acabou” também não surpreende, peca pelos mesmos motivos das anteriores. Clarice ainda experimenta com o brega em “Banho de Piscina”, na qual experimenta com um pouco de uma sonoridade tipicamente baiana – o arrocha.

As letras da cantora continuam as mesmas. Se o instrumental e proposta sonora mudou, o conteúdo lírico não. A descrição de relações amorosas conturbadas é utilizada constantemente pela vocalista em suas composições. Além do tom “ácido” (é assim que chamam por aí), ela tenta algumas críticas. O problema é que o jeito de expressar essas críticas não condiz com a força do que ela realmente quer dizer. Em “Clarice”, uma espécie de canção que ela fez para si mesma, utiliza metalinguagem – inclusive chamando sua própria música de ‘meio chata’, o que não deixa de ser verdade. A música possui uma proposta lírica interessante, que realmente vale menção, mas é só isso mesmo.

Quando um artista permanece por bastante tempo em uma determinada sonoridade, isso faz com que esse artista melhore naquilo que faz. É como se ele adquirisse fluência na linguagem musical que utiliza. Isso gera solidez para a sua música, que se torna regular. Também é mais fácil para convencer o ouvinte acerca do que ele faz. O problema de Clarice em seu novo álbum é justamente esse: falta de segurança e fluência com a nova linguagem que ela tenta utilizar. Caso a pernambucana explorasse mais a sonoridade do seu primeiro disco, com certeza nos entregaria algo mais sólido e mais convincente acerca do seu trabalho. A falta de conforto é evidenciada pelo fato da cantora permanecer cantando do mesmo jeito que cantou no disco anterior, mesmo que o estilo musical tenha mudado. Ela não trata as canções como deveria e seus vocais ficam aquém do que deveriam ser para transmitir que ela realmente mudou com segurança.

A carreira da cantora se encontra bastante inconstante e imprevisível. Ninguém sabe o que ela vai tentar no próximo disco, se ela vai permanecer na pegada do segundo ou retomar as ideias do primeiro (ou mixar as ideias de ambos). Como ela ainda é nova no mundo musical, parece que ela ainda está tentando encontrar o seu som.

Ou seja, a cantora ainda não se achou, não definiu com certeza o que quer fazer e revela muito desconforto com o som que tenta em Problema Meu. Muitos fãs podem não gostar das mudanças que foram feitas e podem sentir falta dos violões na música de Clarice. Para outros, a dúvida maior é: o que ela vai tentar no próximo? Só nos resta esperar para ver.

clarice_falcão_2016

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