Kanye West – The Life Of Pablo (2016)

Disco pretensioso se faz de gospel, gossip e rap sem mensagem, mas samples e participações são ótimos

Por Lucas Scaliza

São vários os Pablos que encontramos em The Life Of Pablo. Pablo Picasso, Pablo Escobar e até mesmo São Paulo, o apóstolo. Um artista, um imperador das drogas e um cristão, três personalidades que mudaram alguma coisa no curso da realidade enquanto viveram. Um nível de pretensão que combina perfeitamente com o perfil ambicioso de cada trabalho de Kanye West, principalmente porque cada letra tenta, de algum modo, ser um pouco autobiográfica. E aí você fica se perguntando o que West tem de Picasso, Escobar e Paulo.

A personalidade de Kanye West sempre rouba a cena se não olharmos bem para a sua obra. É muito fácil não analisar seu sétimo disco e perder várias linhas apenas citando as chatices e excentricidades do rapper. Também é fácil não gostar de The Life Of Pablo e de qualquer outros dos seus últimos discos simplesmente por não gostar de sua personalidade. Contudo, desta vez fica ainda mais difícil – e irresistível – não entrecortar a vida pessoal de West e sua música, dada a natureza e as letras de seu novo álbum.

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Antes de falarmos da música em si, é bom que fique claro que a primeira audição de The Life Of Pablo em Nova York, e divulgada simultaneamente por streaming pelo TIDAL, era um evento de marketing do Yeezy Season 3, que não é nenhuma “instalação artística” e nem mesmo um nome mais amplo para os trabalhos conceituais do rapper. Trata-se de um catálogo de roupas (várias transparências, tênis, etc) em parceria com marcas famosas (Adidas) com várias modelos usando essas peças e também não usando nada. Aliás, as modelos do catálogo estavam na festa de lançamento, mas nem sinal dos catálogos. O que havia de material de Yeezy Season 3 eram enormes painéis exibindo as lindas fotos. Picasso, Escobar e o apóstolo Paulo, assim, contribuíram com um lançamento comercial. West e Kim Kadarshian, sua esposa, compareceram, tiraram fotos, e foram embora. Kanye com um largo sorriso no rosto.

Assim como essa mistura de arte e comércio já não deveria te surpreender, não deveria surpreender também que existe muito a ser mostrado com The Life Of Pablo, mas não muito a ser dito. Digamos, desde já, que em termos sociais, políticos, raciais e econômicos, TLOB não é como To Pimp A Butterfly de Kendrick Lamar. Boa parte do disco faz parecer como se você estivesse lendo uma revista de celebridades, e várias das histórias ali têm a ver com o cantor e produtor. Se existe um lado de gospel music no trabalho (e há citações cristãs o suficiente para isso, mas somente na boa “Ultralight Beam”, em que o paralelo entre ele e São Paulo é explícito para falar de fé), também tem muito de gossip music.

Ao longo do álbum há muita fofoca e ela explode nos versos já bastante discutidos em que Kanye diz que transaria com Taylor Swift e que foi ele que tornou “essa vadia” famosa (e nessa declaração, como em várias outras, é difícil separar o que é egocentrismo puro, o que é misoginia e o que é simplesmente um jeito de colocar as palavras para atender à sua composição) na forte “Famous”. Já “30 Hours” é um dos exemplos de gossip music autobiográfica mais bem acabados que veremos em 2016. Nesta faixa, Kanye lembra-se de uma ex-namorada, Sumeke Rainey, que ele deixou em Chicago quando foi a Los Angeles para estrear no epicentro da música americana com The College Dropout (2004). Leva 30 horas em média uma viagem entre as duas cidades. Ao longo da faixa, uma das mais fáceis e diretas do disco, ele fala como sua ex fazia sexo oral em outro cara enquanto ele ia e vinha, além de descrever seu café da manhã, seus exercícios na academia, e etc. Todo o texto da letra parte de um episódio em que ele vê fotos da ex-namorada pela internet, notando como ela já não é a mesma; e termina se vangloriando de tudo que conquistou e ela perdeu. Os versos iniciais de “Answer Me”, de Arthur Russell, ecoando ao longo de toda a canção, dando o clima quase melancólico às memórias que ouvimos. Assim, “30 Hours” é uma das faixas mais legais do disco, com uma das letras mais thrash.

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Estilo e Colagens

Há muito mais R&B desta vez do que nos discos anteriores, o que contribui para que seja um disco com mais balanço, mais sensualidade e mais leveza do que My Dark Twisted Fantasy (2010) e Yeezus (2013). Ele não deixa de usar o rap e o hip hop, seus portos seguros, mas como um artista que preza pela inovação nesses segmentos, acaba incorporando uma série de diferentes estilos musicais, fazendo de The Life Of Pablo um trabalho que aponta para várias direções musicais e, não raro, toma diversos desvios sem prévio aviso.

O grande trunfo de TLOB é ser mais uma peça bem feita de arquitetura, acomodando dentro de si um cara de ego inflado, uma miríade de referências, tenham elas a ver com as histórias que conta ou com as diversas participações especiais (Rihanna, Kendrick Lamar, Frank Ocean, Ty Dolla $ign, The Weeknd, entre outros), produtores (como Hudson Mohawke e Rick Rubin) e compositores. Todas as participações funcionam bem, e algumas inclusive roubam a cena, como Lamar em “No More Parties in LA” e Rihanna em “Famous”. Se tem algo que Kanye sabe fazer bem é isso: montar um mosaico de vozes, sons e temas.

A escolha e a manipulação de samples é outra das melhores habilidades da equipe de Kanye West. O rapper ganhou notoriedade ao ser o produtor de The Blueprint (2001), de Jay-Z, justamente fazendo batidas criativas e recortando, remixando e colando samples com muita competência. Essas são as principais marcas de seus álbuns também, mas com a fama e o dinheiro ele deixou de fazer as próprias batidas e manipular os próprios samples – o que não diminuiu a qualidade do trabalho. Agora, com muito dinheiro para gastar, Kanye pode se dar ao luxo de usar uma quantidade absurda de samples famosos e obscuros, mais do que qualquer outro artista, contribuindo para que a colagem sonora de TLOP seja rica de cores, emoções e referências. Mais uma vez ele usa um ótimo sample de Nina Simone (em “Famous”) e de “Bam Bam” de Sister Nancy, assim como sampleia um “Perfect” retirado do jogo Street Fighter 2, logo no início de “Pt. 2”. A lista de samples é longa, assim como a lista de compositores e produtores de cada faixa, e pode ser encontrada aqui na íntegra.

Com 18 faixas, é verdade também que várias músicas parecem mais enchimento do que exatamente peças necessárias ao álbum. “Low Lights”, “Feedback” e “Freestyle 4” estão nesse time. Em defesa dele, pode-se argumentar que embora não seja grandes faixas, mantém o exercício de estilo do rapper, que nunca foi mesmo um músico dado a limitar seus álbuns apenas ao estritamente necessário. A vinheta vocal “I Love Kanye” também poderia entrar no grupo das dispensáveis, mas os versos mostram que ele está a par de todas as críticas que todos nós temos para com ele, seja por sua música ou sua personalidade, e a ideia de como ele ama a si mesmo e faz tudo girar em torno de si. Não deixa de ser mais uma faixa sobre ele mesmo, mas são 44 segundos de humor que não vemos com frequência nem em TLOP e nem em sua discografia. Uma pequena janela em que o produtor se permite rir de si mesmo.

O Melhor de TLOB

Mas Kanye acerta em vários momentos, entregando faixas realmente boas para sua discografia e para o hip hop de maneira geral.  “Ultralight Beam”, a música cristã, com direito a coral gospel e teclados intermitentes emoldurando a canção, usando desde o speech do rap até refrãos R&B e Kelly Price cantando soul bem alto. “Famous” não tem a mesma força de “Power” em My Dark Twisted Fantasy, mas ocupa o mesmo posto estratégico de canção poderosa. Ainda que tenha toda a autorreferência, o verso infeliz sobre Taylor Swift e sua letra não convença ninguém de que West ainda seja o mesmo cara lá do sul de Chicago apesar de toda a fama, “Famous” é um mosaico muito bem planejado, principalmente quando abre espaço para Rihanna, para o sample de Sister Nancy e, lá no final, para versos finais de Nina Simone. A roupagem sintética de “Waves” e os refrãos de Chris Brown fazem a faixa valer a pena, um exemplo de R&B e rap combinado com a música eletrônica contemporânea.

A mesma experiência e mistura de referências continuam nas boas “FML” (com refrão de The Weeknd), em que Kanye fala sobre ser fiel a sua esposa, embora seja fácil esquecer desse compromisso, e em “Real Friends”, sobre como ele tem um relação difícil com os amigos, com a família e questiona quem seria seus amigos de verdade, já que teve até que pagar 250 dólares a um primo que roubou o computador que guardava imagens do rapper com mulheres. “Wolves” é bastante intensa com sua instrumentação dramática e tensa aliada a uma letra que traz a história de José e Maria para os dias de hoje.

Por fim, duas das melhores músicas do disco. “No More Parties In L.A.” é uma das faixas mais interessantes e completas do álbum, investindo em batidas e em peso. É a faixa que poderia estar em To Pimp A Butterfly e não por acaso tem a participação de Kendrick Lamar nos vocais e uma letra crítica sobre o estilo de vida das celebridades dos Estados Unidos. Além de samples de músicas antigas, a bateria, o baixo e o teclado soam mais vintage e mais orgânicos do que no resto do disco, contribuindo para ser um hip hop com força de uma banda e não apenas programações eletrônicas. TLOP pode até não ser um álbum do ano, mas “No More Parties In L.A.” com certeza poderia ser uma de suas melhores músicas. “Fade” fecha o disco com uma linha de baixo sampleada que dá um clima mais dançante e mais retrô. Nem parece uma faixa de álbum do Kanye West, mas sim de qualquer duo eletrônico dos anos 90 que manipule e tenha bom gosto para samples.

O grande público de Kanye West é bastante volátil e não se importa muito com as minúcias de seu trabalho. Embora suas habilidades como produtor tenham feito sua música valer a pena, sua fama se baseia em declarações bombásticas e quase sempre autorreferenciais, para não dizer que é uma das celebridades com o mesmo estilo de vida que critica em “No More Parties In L.A.” e que sua vida está estampada nos site e revistas de fofoca e celebridades. Portanto, ao ouvir The Life Of Pablo é importante levar em consideração que nem sempre o homem deve se confundir com a obra, mesmo quando a obra está totalmente baseada em sua vida. É um dos casos em que o papel, ou o gravador, aceitam tudo. O Kanye religioso e “ainda o mesmo garoto do sul de Chicago” que aparecem nas letras podem não corresponder à realidade. Ainda assim, o disco tem seus méritos. O que ele não parece ter, no entanto, é mensagem. E se você encara o rap e o hip hop como uma música que deve ser mais do que entretenimento, é uma falta e tanto para um projeto vasto e caro.

The Life Of Pablo é a cara de seu criador, afinal.

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