2016 Folk Resenhas

Anneke van Giersbergen & Árstíðir – Verloren Verleden (2016)

Cantora holandesa dá voz de veludo à composições para voz de trovão

Por Lucas Scaliza

A cantora Anneke van Giersbergen gosta de rock. Os discos de sua carreira solo são todos roqueiros. E sua antiga banda, o The Gathering, também investia no rock alternativo, explorando muito bem os dotes vocais da ruiva holandesa. No entanto, é como uma cantora que se aproxima do lírico, ou da música folclórica europeia, que Anneke consegue resultados mais interessantes desde que deixou o Gathering.

No disco The Diary (2015), ela uniu forças com Arjen Lucassen para uma empreitada que pretendia mostrar as mesmas composições tanto em versão folk como em versão metaleira. Embora a versão metal fosse boa, muito mais interessante era o som dos instrumentos acústicos da Europa.

Anneke-van-Giersbergen-en-Árstíðir-Verloren-verleden-2-fotograaf-Mark-Uyl
Foto: Mark Uyl

Dessa vez ela ganhou a instrumentação do quarteto islandês Árstíðir, especialistas em obter um som tanto clássico quanto folclórico. Ou seja, o palco perfeito para a voz cristalina e gentil de Anneke brilhar.

O resultado é satisfatório, mas nem sempre acertam em cheio. A menos que você seja muito fã de música folk europeia, Verloren Verleden pode em alguns momentos soar um tantinho enfadonho. Mas atravessá-lo é bastante prazeroso também, já que provê diferentes abordagens para cada faixa. Embora tenha muito de clássico, não deixa de ser um álbum de música moderna.

Anneke canta em inglês, islandês, holandês e francês; já o Árstíðir usa violinos, cellos, violas, violões e piano para reinterpretar partituras de compositores como Leonard Bernstein e Stephen Schwartz, Gorrfried Stölzel, Irving Berlin, Henry Purcell, Gabriel Fauré, entre outros. Anneke e os músicos estão particularmente bem em “Solveig’s Song” (de Edvard Grieg) e em “Pavane”, também duas das faixas mais acessíveis do trabalho.

“Bist Du Bei Mir”, uma famosa ária do alemão Johann Sebastian Bach, geralmente é cantada por cantoras líricas sopranos, com todo o vozeirão que é típico da música clássica. A voz de Anneke não fica mal, mas não tem a mesma força e profundidade de tantas outras versões que vieram do mundo clássico. O mesmo ocorre com “When I Am Laid In Earth”, de Purcell. Temos que esquecer a interpretação pesarosa que geralmente cantoras líricas dão à essa canção da ópera Dido & Aeneas e encarar a versão de Anneke van Giersbergen como uma releitura mais folclórica e menos operística. Quem brilha mesmo nessa versão são as cordas da Árstíðir, que dão ágil colorido instrumental no terceiro ato sem perder o ar de tragédia.

O som tipicamente islandês, com suas várias camadas vocais com dissonâncias e ritmo menos fluido, dá as caras comÞér ég unni”, composição do próprio Árstíðir, e comHeyr Himna Smiður”, de Kolbeinn Tumason e Þorkell Sigurbjörnsson. São as duas faixas mais estranhas e mais tristes do repertório e que conscientemente representam a sonoridade mais difícil do álbum. Caso não tenha familiaridade com a música islandesa, seja de artistas eruditos ou de artistas pop (como Björk ou Sigúr Ross), talvez sejam as duas faixas que vai ter prazer em pular. Caso goste, serão duas das faixas mais interessantes e diferentes do panteão clássico escolhido.

A presença do violão faz com que as canções seja mais facilmente assimilada pelo público, dando toda a roupagem folk de Verloren Verleden. “Londonderry Air (Danny Boy)” é o maior exemplo, já que se baseia em uma música tradicional e ganhou ares orquestrais apenas na versão do quinteto. Já  “A Simple Song” ganhou duas partes diferentes. A princípio, o piano e o vocal de Anneke com impostação mais lírica traz mais cores para a composição, mas continua dentro do terreno da canção original. Já a segunda parte, com violão e orquestrações, mostra uma fusão bem feita com o folk e uma das versões mais originais já gravadas dessa simpática composição de Bernstein. A famosa “Russian Lullaby”, que ganhou diversas versões ao longo das décadas nos mais variados estilos, também está ótima com Anneke van Giersbergen, mas não supera a interpretação de Ella Fitzgerald. Contudo, é uma música de orquestra que ficou bem com o violão em primeiro plano.

O repertório está muito bem escolhido e, embora nem todas as versões sejam totalmente inovadoras ou surpreendentes, há sempre o que se ver e reparar em Verloren Verleden caso o ouvinte conheça as versões originais ou tradicionais das músicas em questão. Anneke é uma ótima cantora, mas não é Tarja Turunen. Sua voz é mais veludo do que trovão, o que ajuda muito a fazer as composições parecerem mais próximas do público não acostumado a ouvir música erudita e não frequentador de ópera, mas a deixa em desvantagem quando comparada às sopranos. No entanto, vale a experiência.

anneke_arstidir_verloren_verleden_2016_2

Anúncios

0 comentário em “Anneke van Giersbergen & Árstíðir – Verloren Verleden (2016)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: