2016 Eletronica Indie Jazz Resenhas

Anenon – Petrol (2016)

Pitadas de jazz e música ambiente em um bom trabalho eletrônico sobre Los Angeles

Por Lucas Scaliza

Petrol, segundo disco completo do músico Brian Allen Simon (Anenon), é um retrato bastante interessante de sua cidade natal, Los Angeles. Uma tentativa bastante criativa e nada enfadonha de pintar um quadro da cidade com sons, mas sem que o artista precise recorrer a todos os tipos de som que possam fazer parte de uma cidade gigante como L.A. Não há hip hop, rap, rock e nem música latina em Petrol, por exemplo. Mas não importa. Não se trata de um documentário e sim de uma impressão pessoal de Brian Allen Simon sobre o lugar onde vive. Por isso, ele usa o que lhe é mais caro: música ambiente, ruídos de tráfego e pitadas de jazz, seguindo uma linha muito próxima ao trabalho já apresentado em Inner Hue (2012) e Sagrada (2014).

Como o próprio Simon explica, a Los Angeles de Petrol é aquela construída pelo frenesi da energia cinética de suas estradas (quem assistiu a segunda temporada de True Detective tem uma imagem bem vívida dessa característica da cidade) e os momentos de reflexão nas solitárias manhãs. Para o artista, o angeleno “entende a beleza da distância e as consistências da irregularidade”, elementos que ele quis permear em sua música.

Contudo, não é preciso viver ou ter andado pelas avenidas e boulevards de L.A. para compreender o álbum, desde que o ouvinte tenha um mínimo de informação, memória imagética e poder de abstração. A própria música de Anenon cria espaço para sua mente divagar e entrar em contato com o que quer que seja. Sabendo que cada uma das músicas é uma tentativa de nos colocar em contato com uma das almas de Los Angeles, essa imersão fica ainda mais facilitada.

anenon_2016

Se ouvir muito apressadamente, os sons iniciais de “Body” podem até te lembrar do barulho das ondas de Venice ou Malibu, mas são carros passando pela freeway. Além dos acordes gentis e do saxofone que representam a sonoridade de Simon, temos a inclusão de um violino também, que vibra competindo com motores e sintetizadores. A pressa e a confusão da grande cidade não tarda a ser representada. Cabe a “Lumina” esse papel. “Once” tem uma percussão acelerada, meio jazz e meio drum ‘n’ bass, cheia de nuances, encontrando uma continuação perfeita na experienciosa “CXP”. Se “Hinoki” evoca um lado mais enevoado e etéreo da cidade, “Machines” tenta aliar a presença dos equipamentos de construção com a beleza de suas paisagens urbanas. Fraseados de violino, camadas de teclado e sintetizadores se encavalam para construir o gigantismo confuso da cidade.

Petrol foi feito a partir de uma série de improvisos de Brian Simon com o amigo baterista Jon-Kyle Mohr, com a violinista Yvette Holzwarth e com o baixo clarinetista Max Kaplan. Isso quer dizer que as músicas do disco não seguem uma pauta musical escrita antes que os músicos tocassem em seus instrumentos. Após terem uma série de sons prontos, Anenon e Mohr sentaram-se para organizar a miríade de opções de frases e harmonias dentro de um produto coerente. Por isso Petrol, embora parta da improvisação, não soa improvisado em momento algum. Não soa friamente calculado também, graças às cadências jazzísticas. “Petrol”, a música que fecha o trabalho, vai ganhando corpo aos poucos, com múltiplas camadas e maior velocidade.

Os três trabalhos e os EPs de Anenon sempre têm algo para nos mostrar, mas Petrol é o álbum que parece mais bem acabado e redondo. Los Angeles é um pano de fundo apenas, deixando para o ouvinte a tarefa de sentir a metrópole em seus ritmos e acordes. Mas se não sentir onde aquele saxofone de Simon entra, ou o violino de Holzwarth, ou aquelas passagens delicadas que lembram as trilhas de Phillip Glass, não faz mal. O disco ainda assim é um bom exemplo de música eletrônica alternativa bem montada.

anenon_2016_Petrol

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