Jesu & Sun Kil Moon – Jesu / Sun Kil Moon (2016)

Sobre pais e filhos, família e fãs

Por Lucas Scaliza

Ao ouvir Jesu / Sun Kil Moon é muito fácil notar a presença esmagadora do estilo maduro de Mark Kozelek/Sun Kil Moon, já que o fluxo de consciência de seus últimos álbuns dita o lirismo de todas as faixas e, claro, sua voz é onipresente. Mas é ao avaliar a música em si, a roupagem para o estilo de composição de Kozelek, que se revela o papel fundamental do inglês Justin Broadrick (o Jesu). Se em Universal Themes (2015), Kozelek já tinha mostrado confiança suficiente em seu folk para poder experimentar com o estilo, o novo álbum se beneficia de todas as vertentes que fazem de Jesu um músico experimental, indo do metal à música eletrônica, do folk à música ambiente. E a beleza do trabalho é justamente a crueza dos temas, dos versos, dos sons, de como notícias cotidianas se convertem em temas tocantes, como parentes, fãs e histórias da estrada entram nesse caldeirão nos dando uma visão de fresta da vida de Kolezek e contribuindo para o caráter intimista de sua obra nesses três últimos anos.

“Good Morning My Love” mostra as garras da dupla (inclusive o passado metaleiro de Jesu, que foi guitarrista do Napalm Death nos anos 80) logo na abertura do disco com distorção pesada, arranjo repetitivo e frases narrativas, sem métrica, sem rimas. É como se Mark levasse o speech típico do rap para o folk, mas em vez de violão, temos um guitarra fazendo shoegaze, quase fazendo metal. Mistura cenas e significados do documentário The Road To Las Vegas com momentos de sua vida. No último ato temos uma maior abertura harmônica, mais vocais dobrados e mais melodias, os versos parecem menos narrativos. Um dos motivos de as músicas de Kozelek serem tão longas é sua recusa de editar e condensar suas ideias. A forma “crua” como parecem relatadas é parte do show, afinal.

Sun-Kil-Moon-Jesu

“Carondelet” é um protometal com vocal pespegante, intenso e forte. Os riffs da guitarra e a percussão arrastada cairiam bem ao heavy metal, embora todo o resto fique no meio do caminho entre o folk e o rock de garagem. Já na linda “A Song Of Shadows” há um equilíbrio entre melodia e peso, criando uma das faixas em que se percebe na performance do cantor uma autêntica entrega aos sentimentos da música, coisa que não é muito comum, já que durante uma seção de gravação se prioriza a execução técnica perfeita e milimetricamente planejada e não a vazão de sentimentos.

“Last Night I Rocked The Room Like Elvis and Had Them Laughing Like Richard Pryor” dá um tempo na guitarra pesada e no clima opressivo para experimentar com a música eletrônica combinada à interpretação folk. E então, mesmo com a liberdade métrica que ele tão bem delineia e executa, propõe melodia intuitiva que combina e se encaixa às batidas regulares da bateria eletrônica. No final, lê a carta de Victor, um fã de Singapura. “America’s Most Wanted Mark Kozelek and John Dillinger” é uma das músicas mais redondas do disco, um indie rock que se adequa bem ao folk narrativo, cuja letra foca-se em um período da vida recente de Kozelek. Há ainda episódicas intervenções eletrônicas e mais uma leitura de carta (como Mark lê a correspondência de dois fãs no álbum, creditou a eles também a composição das músicas).

Fica claro como neste disco as letras tentam lidar, de alguma forma, com a fama que Kozelek/Sun Kil Moon alcançou após o lançamento de Benji (2014), o trabalho que ampliou absurdamente a exposição do compositor. Na primeira faixa – “Good Morning My Love” – ele diz que acha fantástico que existam pessoas fanáticas por vinil, que sejam “apaixonadas por papelão”, que ouçam música em “plástico multicolorido” e que fiquem perguntando a ele quando é que vai sair a versão em vinil de seu álbum. No entanto, para Mark Kozelek, essas são questões menores. Ele diz que está mais preocupado com o que sente. Em “Last Night I Rocked…”, a carta que lê é de um antigo fã que o acompanha há 20 anos e voou de Singapura a Melbourne só para vê-lo tocar. E o próprio fã reclama dos fãs hipsters que estão atrás dele apenas por causa de Benji. Parece que Kozelek encontra algum tipo de redenção nessa carta, sabendo que sua obra completa tem peso, não apenas o disco que acabou sendo o mais aclamado (até agora).

A bonita “Fragile” mostra as habilidades de Kozelek com o violão, usando dedilhados e uma escolha harmônica esperta para criar ambientação. Sem perder a delicadeza, “Father’s Day” volta ao eletrônico e ao cotidiano como fonte de inspiração e material para as letras. Nem tudo o que ele conta é interessante, mas às vezes o cruzamento das histórias aparentemente banais faz com que os fatos não sejam mais tão banais agora que estão imortalizados na música, chamando nossa atenção para a profundidade que essas “banalidades cotidianas” podem ter. Kozelek diz, por exemplo, que viu na CNN a notícia de nove pessoas mortas e que o assassino parecia um menininho, não um homem. Ou quando relata que ligou para o pai no Dia dos Pais e deu-se conta do quanto sentia falta dele. Mas o que nos toca mesmo é quando revela que ele e a mulher não pensam em ter filhos, mas mesmo assim conseguem ouvir a voz de um suposto rebento no playground próximo à residência do casal. E então ele canta:

“Será que vou ouvir as pessoas dizerem Feliz Dia dos Pais? / Tenho o dinheiro, tenho o espaço/ Tenho a garota certa, tá tudo no lugar/ Será que teremos um filho lá fora no playground, rindo e brincando/ Durante metade da minha vida/ Aquele playground tem sido meu som favorito”.

“Exodus” mantém Jesu e SKM no tema da paternidade. É a canção mais intimista de Jesu / Sun Kil Moon, com aquela simplicidade elegante e profunda do Nick Cave dos anos 90. A referência não é apenas comparativa, é direta mesmo, pois a música é uma longa reflexão sobre pais que perderam seus filhos. É extremamente comovente e revela a habilidade de Kozelek em partir de ocorrências cotidianas para falar de assuntos espinhosos e pesados com graça, respeito e sem hipocrisia. Ele parte da morte do filho de Nick Cave, passa pela morte da filha de Mike Tyson, do filho de Danielle Steele e chega até sua prima Carissa (sim, aquela imortalizada em Benji, mas já morta no plano existencial).

“Beautiful You” fecha o álbum com 14 minutos de base enevoada, arranjos etéreos e jeitão de música ambiente que pode embalar você na tristeza ou no sono. Grande parte dos vocais não são cantados, parecendo mais como um relato ou uma leitura, dando à faixa uma característica ainda mais acentuada de trilha de filme de Jim Jarmusch ou de trilha de sonho mesmo.

Melhor do que Universal Themes, provavelmente, mas não supera Benji. Suas letras ainda são uma atração à parte. Kozelek narra trechos de sua vida e de seu cotidiano, de repente BLAM!, o ouvinte acaba enredado em versos sentimentais no meio do fluxo de consciência do compositor, fazendo-o sentir o mesmo que o cantor sente. Embora a distorção de “Carondelet”, “Good Morning My Love” e a violência de “Sally” falem alto, a compaixão pelos pais enlutados em “Exodus” e seu desejo reprimido de ser pai em “Father’s Day” são sentimentos tão que se comunicam diretamente com o coração do ouvinte.

De certa forma, Jesu / Sun Kil Moon é tão vasto estilisticamente para um artista folk e um artista experimental quanto I Love You Honeybear (2015) foi para Father John Misty. No entanto, enquanto Father John usa folk, eletrônico, rock e balada de uma forma aberta e cristalina, Mark e Justin Broadrick adotam uma sonoridade mais introspectiva e mais difícil de atravessar, mais abafada e mais alternativa. No final das contas temos um belo álbum colaborativo que mostra dois artistas diferentes encontrando uma forma de não abrir mão de suas respectivas estéticas e, ainda por cima, criar um trabalho legítimo para a discografia e carreira de ambos. Difícil imaginar uma colaboração mais proveitosa e madura do que essa.

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