2016 Pop Resenhas Rock

The Mute Gods – Do Nothing Till You Hear From Me (2016)

O pop elegante e a criatividade do progressivo

Por Lucas Scaliza

O primeiro disco do The Winery Dogs mostrou como o lado rock’n’roll de cada um dos músicos envolvidos (um power trio que reunia Richie Kotzen na guitarra e nos vocais, Mike Portnoy na bateria e Billy Sheehan no baixo, todos veteraníssimos) poderia criar ótimas canções que eram tão técnicas quanto melódicas e acessíveis. E preencheram o disco de viradas progressivas e solos virtuosos. O The Mute Gods tem uma proposta parecida: fazer pop/rock de qualidade e elegante, com boas letras, e várias intervenções progressivas que atestam que a qualidade instrumental é tão importante quanto tornar cada faixa digerível, mas não banal. E o The Mute Gods acerta em cheio em Do Nothing Till You Hear From Me, conseguindo inclusive um equilíbrio maior do que o The Winery Dogs.

A formação também é espetacular, embora não cause tanto hype quanto dos Dogs. No vocal, no baixo e no Chapman stick temos o excelente músico inglês Nick Beggs, atual baixista da banda de estúdio e ao vivo de Steven Wilson e do grupo pop Kajagoogoo. Beggs é o letrista e principal compositor do The Mute Gods, fazendo da banda quase que um novo projeto solo do músico inglês. Vale lembrar que Beggs tocou com muita gente boa e diferente, como Steve Hackett, Steve Howe, Tina Turner, Seal e uma penca de outros nomes. Na bateria está o alemão competente e gente boa Marco Minnemann, que também grava com Steven Wilson e é parte do trio instrumental The Aristocrats. Por fim, fazendo os teclados, pianos e a produção da banda está Roger King (que já se destacou trabalhando com Hackett também). Um curto perfil de cada membro já indica que estamos diante de uma banda experiente, cheia de ideias e boas referências. É por isso que Do Nothing Till You Hear From Me é uma estreia com jeitão maduro.

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Nada soa deslocado, seja na estrutura de cada canção ou na mixagem cristalina que faz todos os instrumentos terem a mesma definição. É tão redondinho que até sentimos falta de alguma crueza mais visceral. “Do Nothing Till Your Hear From Me” é uma introdução perfeita ao trabalho, mostrando boas levadas de rock e um senso de melodia bastante amplo. Não mostra as garras, mas não deixa de evidenciar a qualidade dos músicos. É acessível, mas não comercial. Já “Feed The Troll” e “Your Dark Ideas” representam o lado mais sombrio e ainda assim instigante do grupo, com temas melódicos que grudam na memória. “Swimming Horses” é um deleite de mixagem para os ouvidos. Várias nuances em uma única faixa, incluindo as habilidades de Beggs no baixo e sua voz suave e interjeições progressivas bem características.

“Last Man On Earth” é uma balada pop com arranjos de qualidade, como Steven Wilson fez com “Hand. Cannot. Erase.” e “A Perfect Life” em seu último disco. A doce e excelente “Nightschool For Idiots” revela as inspirações oitentistas da banda, enquanto “In The Crosshairs” tem jeitão de composição do Steve Hackett, equilibrando-se muito bem no rock progressivo que dá uma baita ênfase ao instrumental. Já “Father Daughter” destoa um pouco do clima geral do disco. Tem aquela pegada etérea dos anos 80 que o Silva gosta de usar. Lula Beggs, filha de Nick, canta nesta faixa, fazendo um bom dueto entre pai e filha.

O som grave que parece um baixo sintetizado que ouvimos em diversas faixas (como “In The Crosshairs”, “Mavro Capelo”, “Your Dark Ideas” e outras) não é uma programação eletrônica, e sim um Chapman stick, um versátil instrumento em que Beggs é versado, fazendo um excelente uso dele no The Mute Gods e também nos discos de Steven Wilson. “Praying To a Mute God”, uma das melhores faixas, poderia muito bem tocar nas rádios. Um daqueles exemplos de música que desce fácil que as bandas progressivas às vezes fazem para provar que pop não precisa ser babaca, pode ter letra crítica, pode ter arranjos ricos e melodia cativante.

Nenhum guitarrista foi contratado para o grupo, nem como músico convidado ou de sessão. Beggs e Minnemann dividiram os afazeres nas seis cordas e, para músicos que não conhecíamos com esse instrumento, se dão muito bem, seja fazendo bases ou solos e acompanhamentos melódicos. Mas isso explica também porque o baixo, o Chapman e o teclado/piano são tão centrais em Do Nothing Till You Hear From Me. São tantas linhas de baixo acima da média que não há como não notar o protagonismo de Beggs na banda. Isso é ótimo, pois aumenta a oferta de composições de baixistas, dando um protagonismo merecido ao instrumento. Em tempo, Beggs dedicou o disco a Chris Squire, baixista fundador do Yes, que faleceu em decorrência de um câncer em junho de 2015.

Embora Marco seja membro oficial do grupo, os bateristas Gary O’Toole e Nick D’Virgilio ajudaram nas gravações de bateria, guitarra e teclado também. Beggs escreveu grande parte das faixas enquanto estava na turnê de The Raven That Refused To Sing (2013) em 2014.

O ouvinte casual pode curtir o som tanto quanto o ouvinte mais técnico, que repara em fraseados, na estrutura das canções e no virtuosismo mais intrincado. Embora tenha dito que não há momentos de crua visceralidade, não quer dizer que o rock feito pelo trio e seus convidados seja capenga. Há muita energia nas faixas e a performance de nenhum deles deixa a desejar. Minnemann, como já era de se esperar, preenche o álbum com ritmos criativos e sabe ser prog mesmo quando a dinâmica não é tão alta (caso de “Strange Relationship”). King cria as atmosferas do disco com muito tato, explorando sonoridades diferentes de teclado, piano e sintetizador ao mesmo tempo em que embala tudo dentro de uma estética bastante coesa. Seja o ouvinte mais desatento ou o mais exigente, Do Nothing Till You Hear From Me agradará principalmente quem tiver ouvidos bastante abertos.

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