2016 Resenhas Trilha Sonora

A Bruxa (The Witch) – trilha sonora de Mark Korven (2016)

Dissonância e polifonia criam ambiente satânico e ameaçador

Por Lucas Scaliza

A Bruxa (The Witch) é o filme de terror que ganhou notoriedade pelo medo, mas sem sustos. Afinal, é nas atuações, no drama e na reconstituição de época que está a real mágica desse filme independente de baixo orçamento. Assim como Corrente do Mal (2015), A Bruxa percorreu o circuito de Sundance (em 2015) e só depois da aclamação crítica no mundo indie é que foi lançado nacionalmente nos Estados Unidos. E só chegou agora, em 2016, ao Brasil.

É o filme de estreia do diretor Robert Eggers, um designer gráfico criado na Nova Inglaterra e totalmente ciente do passado e da religiosidade aguda que formou esse Estado americano. Uma das principais marcas da produção de Eggers foi a busca pela autenticidade. Seus personagens se vestem com roupas do século 17, usam palavras e pronúncia do inglês arcaico daquela época e até o cenário (casas, mesas, cadeiras, camas, etc) foram reconstruídos com materiais e de forma idêntica ao que colonos da Nova Inglaterra usavam. A iluminação foi quase toda feita com luz natural, chegando ao ponto de iluminar cenas noturnas e de jantar ao redor da mesa apenas com a claridade de velas.

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Sem entregar o filme ou possíveis spoilers, é interessante notar que Eggers usa sua história sobrenatural de época para falar de problemas presentes na sociedade contemporânea. Para isso, respeita as histórias de bruxas do passado e trata as lendas, para seus fins narrativos, com respeito. Assim, seria importante o espectador conhecer um pouco do caso das bruxas nos Estados Unidos e Europa, do que eram acusadas e como supostamente agiam, para entender como Eggers abraça o sobrenatural para contar um caso de bruxa que não é aquela herbalista mal compreendida pelas religiões cristãs, mas a bruxa maligna mesmo, que dançou nua com o diabo em volta da fogueira na floresta e escreveu seu nome em seu livro.

A trama parece simples: uma família extremamente religiosa é banida de uma comunidade e acaba reconstruindo a vida na margem de uma floresta. Tentam plantar e criar animais nessa nova vida rural de exclusão. Um dia, a filha mais velha do casal, Thomasin (Anya Taylor-Joy), está brincando com o bebê Sam, que some misteriosamente. A partir daí, a família começa a ser afetada em suas relações pessoais, a fome vira uma ameaça e a religiosidade vira uma faca de dois gumes: é tanto uma tentativa de refúgio quanto possivelmente o fator causador de tantos problemas. Embora retrate um senso de religião fundamentalista, o filme é bastante provocativo. A religião que salva é também aquela que condena, uma linha cada vez mais tênue vai se desenhando.

A música que acompanha o filme tem grande impacto no espectador. Ouvi-la sozinha, sem o acompanhamento visual, é uma experiência ainda mais horripilante. Dentre as 16 faixas compostas pelo canadense Mark Korven, apenas a introdutória “What Went We” e as músicas folclóricas do final, com suas melodias melancólicas, é o que consideramos uma música comum. Possui centro tonal bem definido e se adequa totalmente ao século 17 em que se passa a história. Daí até a última cena antes dos créditos, Korven vai usar diversas técnicas já conhecidas para criar um ambiente indigesto, satânico e assustador, chegando ao ponto de conseguir mesmo reproduzir uma espécie de ritual extremamente desconcertante.

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A maior parte das trilhas de terror aposta em acordes de alta tensão (como os diminutos, menores com sétimas aumentadas e trítonos), mas poucos usam a voz humana para criar polifonias atrozes. Em certo trecho de Doutor Fausto, Thomas Mann escreve como a combinação de vozes humanas, quando utilizadas como instrumentos, podem soar macabras, ainda mais quando a polifonia for dissonante. E é exatamente o que Korven faz e torna a trilha de A Bruxa tão singular. “Banished”, por exemplo, é praticamente um ruído, uma nota sibilante, que evolui até que várias vozes femininas partam de uma nota comum para várias outras conflitantes. É um trecho pequeno de vozes logo no início do filme, mas enervante e antecipa o que está por vir, musicalmente e narrativamente falando. O mesmo princípio se aplica a “A Witch Stole Sam”: um sinistro “Uuuh”, novamente feito por várias vozes femininas, dá a tônica da faixa, enquanto o cello raspa notas repetitivas e a percussão cria um ritmo ritualístico para o que vemos na tela.

Korven não utilizou sons eletrônicos para criar os ruídos que ouvimos nas faixas de A Bruxa. Para criar esses efeitos ele usou um waterphone, instrumento percussivo circular cheio de hastes de diversos tamanho que emite sons ao utilizar uma baqueta contra suas hastes ou mesmo um arco de cello ou violino. “Hare In The Woods” e “I Am The Witch Mercy” são faixas em que o waterphone pode ser ouvido. Os sons que parecem portas rangendo ou violinos desafinados são, na verdade, criados por esse exótico instrumento. A percussão também não foi feita por tambores, bumbos, caixas e demais partes de um kit de bateria. O compositor resolveu usar o corpo de madeira do próprio cello para isso. Essa é uma das razões de a percussão muitas vezes não soar cheia ou retumbante, mas sim oca, magra e estralada.

Sons que achamos que possa ser um cello também enganam. O músico usou um nyckelharpa sueco que produz sons ora parecidos com o cello, ora com o violino e a viola.

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As três músicas que retratam a “jornada” de Caleb (Harvey Scrimshaw), filho do meio do casal e irmão de Thomasin, que está descobrindo a sexualidade, são bastante icônicas. A primeira, “Caleb Is Lost”, retrata o momento em que ele está sozinho na floresta. Além dos ruídos do waterphone, ouvimos o rugir do megabass waterphone, uma variação experimental do instrumento. Outros ruídos feito com os instrumentos surgem no fim da faixa imitando passarinhos e sons do vento em folhas. Creepy. “Caleb’s Seduction” é uma das músicas mais sinistras e marcantes do filme. É quando dissonância e sons que imitam o ambiente da floresta abrem espaço para as vozes do mal. A sedução é tanto sensual quanto corruptora. “Caleb’s Death” é melancólica e encerra com um grave sinistro, mas Korven deixa o clímax da cena em questão para a direção e atuação. Nem sempre, afinal, a música precisa subir quando temos uma cena de impacto.

Além da tensão e da dilaceração do fundamentalismo religioso, as vozes são, de fato, uma das coisas mais perturbadoras que veremos na trilha e no próprio filme. Foram gravadas pele The Element Choir de Toronto, um grupo coral especializado em improvisação. Korven deu apenas alguns indícios do que queria e o próprio grupo criou o restante. A participação em “Caleb’s Seduction” e “A Witch Stole Sam” são excelentes, mas o coral encarna a bruxa maligna em “Witch’s Coven”, trilha ritualística que acompanha cena final. Vozes em dialeto estranho conjurando espíritos e demônios em frenesi. A polifonia de vozes cria um desconforto muito maior do que dos instrumentos, como Thomas Mann já havia registrado em seu Doutor Fausto e Arnold Schoenberg já havia comprovado com sua música. “Witch’s Coven” é, possivelmente, a faixa mais intrigante que ouvirá em muito tempo.

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Antes de Mark Korven assumisse a trilha do filme, o diretor Robert Eggers e Louise, a editora, já tinham uma ideia de que tipo de música queriam e tinham preenchido as cenas com “temps” (faixas que dão o tão e a atmosfera de cada cena, processo que ajuda tanto na montagem do filme como na produção da trilha definitiva). Korven foi escolhido por Eggers justamente por ser um músico versado em dissonância.

Uma das cenas mais interessantes de A Bruxa é o confronto entre Thomasin e seu pai, William (Ralph Ineson). A jovem, que já dava sinais de esgotamento ideológico frente à extrema religiosidade da família, joga na cara do pai todos os seus erros e opressões que foram ou seriam cometidas contra ela. Há muito de liberdade feminina nesse momento. Eggers usa o contexto da época para mostrar como a situação seria facilmente reproduzida hoje. É um dos momentos mais dramáticos e de maior significado do longa. Ocultismo, feminilidade, fé e patriarcado são cuspidos na mesa. Para acompanhar esse momento e a consequente confissão do pai, Korven entrega um faixa que é basicamente ruído e outra cujo início tem melodia pesarosa, mas desaba pra a dissonância também. É o estado psicológico dos personagens representado na trilha sonora.

O filme inclui o sobrenatural naquilo que vemos. Contudo, sabemos que os casos de bruxaria relatados podiam tanto ter relação com a crença em forças ocultas e mágicas, como poderia ser resultado de um estado mental alterado pela reclusão e pela religiosidade exacerbada, causando histeria coletiva. Há também a contaminação por ergot (fogo de Santo Antonio), um fungo dos grãos que eram cultivados no século 17 e que ataca o sistema nervoso, causando diversos efeitos nocivos à mente e ao corpo, podendo levar a morte. Por isso, é sempre possível interpretar que tudo partiu de problemas psicológicos, e não de real bruxaria. Mas a reconstituição dos relatos sobrenaturais da época é exibida tão bem que este “conto sobre a Nova Inglaterra” pode muito bem querer retratar o caso como se tudo aquilo realmente existisse.

A Bruxa teve uma trajetória parecida com Corrente do Mal, mas suas trilhas sonoras são totalmente diferentes. Em Corrente do Mal a trilha de Disasterpeace serve não para assustar, mas para dar ao filme um clima estranho e onírico, além de ter sido feita com sintetizadores e outras manipulações eletrônicas. A trilha de A Bruxa utilizou apenas instrumentos acústicos e carrega nas tintas do mal, fazendo de sua música, sozinha, um elemento ainda mais assustador que o próprio longa-metragem. Mas ambos conseguem extrapolar a própria narrativa e fazer relações entre o terror e diversas questões sociais prementes em nosso dia a dia. No final, não importa se dá medo ou não. O drama tem subtexto suficiente para fazer o filme durar no tempo.

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3 comentários em “A Bruxa (The Witch) – trilha sonora de Mark Korven (2016)

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  2. Gente… Loguei só pra comentar. Que texto maravilhoso! Adorei! Eu gostei tanto da trilha desse filme que ouço sempre, e realmente dá mais medo ouvir somente a música.
    E sobre o filme, concordo:
    “No final, não importa se dá medo ou não. O drama tem subtexto suficiente para fazer o filme durar no tempo.” Perfeito.

  3. Pingback: Susanne Sundfør – Music For People In Trouble (2017) – Escuta Essa!

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