2016 Eletronica Rap/Hip-Hop Resenhas

Baauer – Aa (2016)

Criador do “Harlem Shake” continua apostando nas ondas graves e na ótima manipulação de samples, mas dessa vez não vai viralizar

Por Lucas Scaliza

Baauer é mais um produtor americano que parece saído de algum gueto negro de Miami ou Los Angeles. Mas a figura é um jovem de 26 anos, branco e descendência portuguesa por parte de pai e judia por parte de mãe (cuja família é austríaca) que nasceu na Filadélfia (Pensilvânia), morou na Alemanha e na Inglaterra da infância até o início da adolescência, e voltou para Westport (Connecticut) aos 13. Harry Bauer Rodrigues é, portanto, um cara que experimentou diferentes vertentes musicais e culturais até voltar a se estabelecer em seu país natal e se aproximar de tudo o que estava ocorrendo por lá em termos de música eletrônica e dance. Se ouvindo seu som não daria para esperar um cara branco promovendo música cheia de suingue com batidas irregulares, ao olharmos para ele não imaginaríamos que criaria uma música que deve-se tanto à música negra. Mas também deve muito ao dubstep e ao trap. É aí que percebemos como sua musicalidade é vasta, sempre agregando um pouco de cada estilo – e independe da cor ou do gueto.

Você pode não conhecer Baauer, mas não passou incólume por “Harlem Shake”, a música que ele lançou em 2012 como seu primeiro single, mas só virou uma febre em 2013, quando o vídeo foi postado no YouTube. A música foi um tremendo sucesso, mas Baauer não viu a cor do dinheiro que ele gerou, já que a lançou com um sample de Diplo que não havia sido acertado contratualmente. Contudo, abriu portas.

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Após lançar diversas outras faixas com diferentes artistas, Aa é o primeiro álbum completo de Baauer. Ele segue a linha dançante e recheada de baixos mecânicos produzindo aquelas notas graves impossíveis de não notar e não comandar o balanço do corpo. São os mesmos elementos de “Harlem Shake”, mas mesmo que seu primeiro sucesso continue ecoando de cada faixa, é fácil sentir como ele usou o tempo do álbum para usar sua assinatura em sons bem diversificados.

“Church” abre o álbum e nos dá um susto. Etérea e viajante, soa como uma faixa eletrônica artística, sem a materialidade dançante esperada. “GoGo!” soa como uma composição dos anos 90 vestida com ritmos irregulares e cheias de samples picados. “Body” abafa o vocal sampleado e deixa pulsar as ondas graves, fazendo da faixa uma música perfeita para a pista, sem abusar de bate-estaca e sem ansiedade. E Pinku tem uma sobriedade gostosa com aquele balanço meio robótico típico do Daft Punk.

“Day Ones” é um rap bem agressivo, com a base de baixo e batidas típicas do estilo de Baauer. E tem até dream pop, como mostra a “Way From Me”, com seu teclado que soa como se estivesse mergulhado em uma piscina. E até o Brasil tem espaço no disco em “Sow”, onde o produtor abusa de uma declaração de um jovem dizendo ser “o Jonathan da nova geração”.

No final das contas, não dá para prever se “Harlem Shake” foi um sucesso isolado ou se Baauer vai conseguir repeti-lo – ou pelo menos chegar perto disso – com alguma faixa de seu disco. Mas dá para afirmar que esse estilo de recortes de samples e superposição de sons, batidas nem sempre regulares e linhas de baixo mecânico marcantes é adaptável para todo tipo de música. Baauer não se perde tentando criar a próximo hit comercial. Aa soa até que bastante alternativo para o estilo eletrônico. “Temple”, com MIA e G-Dragon, e “Kung Fu”, com Pusha T e Future, têm deliciosas linhas de baixo e claro que são hits anunciados, mas são os convidados que se ajustam ao estilo de Baauer, não o contrário (E talvez não tenha artista melhor que MIA para se ajustar à música do americano). “Make It Bang”, com TT The Artist, é uma das faixas mais fortes para balada que ouvi esse ano até agora e deverá fazer algum barulho pistas mundo a fora.

Esta primeira obra de Harry Bauer Rodrigues foi se desenvolvendo em parte debaixo do olhar dos fãs. O ponto de partida é claro que foi “Harlem Shake”, mas ele não teve pressa em colocar logo um disco no mercado. De 2013 até agora ele amadureceu a ideia, deu novos contornos à ideia e foi soltando músicas aos poucos. A integridade do que faz importa mais do que ter um hit bombando no mundo todo, ao que parece. O poder pop, a força baladeira e a veia alternativa de seu som já eram claros antes de Aa chegar.

Baauer não ficou rico com seu sucesso inicial e mundial, pois pagar copyrights é algo pesadíssimo (apenas Kanye West tem dinheiro de sobra para encher seus discos com samples de gente famosa) e continua fazendo música, recortes e produções em seu quarto, em seu computador pessoal. Aa comprova que ele sabe o que faz e, embora não seja nenhum álbum do ano, é uma estreia muito boa que chama a atenção para sua habilidade em manipular samples e gravações do ambiente. E o trabalho soa global, inter-racial e multiétnico, mas filtrado pelo dubstep, trap e black music. De retrô não tem nada e, embora vários sucessos tenham a influência do que ele criou lá em 2012, ainda consegue ser futurista.

O problema agora será ele criar uma estética que pareça futuro frente ao que já apresentou. Mas este é um problema futuro. No momento, Aa tem aquela qualidade de trabalho que soa difícil e acessível quase que ao mesmo tempo, dentro das mesmas faixas. E o público vai precisar de paciência e sapiência para absorver, já que dessa vez não vai viralizar.

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