Céu – Tropix (2016)

Etérea e sintética, mas ainda olhando para a frente

Por Lucas Scaliza

Não deixa de ser interessante notar que Céu, dona de uma discografia impecável até agora, sempre aliou apelo pop, clima tropical em seus discos e intervenções sonoras modernosas em seus discos desde Céu (2005). E ela resolveu assumir essa “tropicalidade” presente em sua estética sonora justamente no título deste quarto disco, Tropix, que, em comparação com os antecessores, parece mais introvertido e etéreo. Até a capa do álbum, preta e branca, é um contraponto ao colorido que normalmente se espera de algo tropical.

Contudo, essa introversão não deve ser entendida como um ponto fraco do disco. Também fica claro que é apenas uma impressão superficial causada pela instrumentação escolhida para o disco. Principalmente o baixo e a bateria soam como programações eletrônicas, sintetizados. Mas não se engane: é uma banda real tocando, você consegue sentir a humanidade e o suingue tropical nas vibrações e batuques. Guitarra e violão têm menos presença, ressaltando os tímidos grooves (nada robusto como encontraríamos em um drum’n’bass ou expansivo como no funk) e a participação de teclados e sintetizadores. “Amor Pixelado” é uma grande amostra da estética que soa eletrônica, mas ainda orgânica, que a cantora e compositora parece buscar desta vez.

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Maria Céu Whitaker Poças apresenta faixas que mudam de vibe conforme se desenvolvem, quase sempre partindo do eletrônico para chegar a uma sonoridade mais aberta, como no primeiro single, a ótima “Perfume do Invisível”, “Varanda Suspensa” e a deliciosíssima “Pot-Pourri: Etílica/Interlúdio”. E as partes mais abertas das três contam com uma guitarra reforçando as levadas. Pode não ser o instrumento protagonista na banda dessa vez, mas ainda é usada de maneira definitiva, como aquele atleta que entra em campo para resolver a jogada.

“Arrastar-Te-Ei” é a faixa que não sai da ambientação sintética geral do trabalho, mas é uma das mais tropicais. “Minhas Bics” tinha tudo para ser outra com a mesma pegada. Aliás, ela tem uma base percussiva e um arranjo de guitarra perto do fim que remete bastante ao marasmo do Havaí, mas tem um jeito contido e ondas graves de sintetizador que simplesmente não deixam que a canção se entregue.

Já a regravação de “Chico Buarque Song” (gravada pelos paulistas do Fellini em 1990) surge como um dos raios de luz mais fortes de Tropix, com refrão para cima e pop, contrapondo-se ao pulso mais bossa nova dos versos. “Camadas” é outro grande highlight que desabrocha e cresce dentro do ouvinte junto com os arranjos de cordas. “A Nave Vai” lembra as canções de Silva. Não se desvia da estética do disco, mas está muito mais pop e é de muito mais fácil assimilação pelo público geral.

O clima melancólico e viajante, que tantas vezes nos embalou nos discos anteriores, dá as caras em “Sangria”, a representante da mistura do clássico (principalmente como Céu usa sua voz para interpretar a canção) e modernidade (em como os instrumentos expressam esse bolero, mantendo o pulso, mas não as levadas óbvias [no lugar do violão, o baixo]).

“Rapsódia Brasilis”, a última faixa do trabalho, é uma das músicas mais avançadas e diferentes já gravadas por Céu. Pode não virar single, mas é o tipo de música que a banda sabe do potencial no momento em que a grava e nota que pode ter sido o ponto de expressão mais alto do álbum. Não se presta a resumir a estética do trabalho, mas pega os novos elementos (bases sintéticas, orquestração) e os exacerba, resvalando de leve no experimentalismo. Não é a toa que foi a faixa escolhida para integrar a coletânea de novas músicas deste mês da revista francesa Les Inrockuptibles.

Samba, bossa, synthpop, jazz e ritmos tropicais estão no DNA de quase todas as músicas. Só que você mais sente do que ouve esses estilos, pois Céu e seus músicos (que ela chamou de alquimistas) criaram arranjos criativos para cada uma das 12 faixas. Além de Céu assinar a composição de 10 faixas e ser responsável pela coprodução do disco (tendo supervisionado todas as escolhas criativas), deu espaço para que os músicos de sua banda pudessem exercer um trabalho tão interessante para a carreira dela quanto para a deles mesmos. Assim, Pupillo (baterista do Nação Zumbi), Lucas Martins (baixista que toca com Curumin e Russo Passapusso) e o tecladista francês Hervé Salters (do grupo General Eletriks e que já tocou com Mayer Hawthorne) são os responsáveis pelos criar os timbres sintéticos com pulso humano por trás de cada faixa. Discordo totalmente de quem afirma que são sons frios e robóticos. Dá para sentir as mãos de Pupilo, Martins e Hervé coordenando cada nota. Não teria como ser tropical se não fosse assim.

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E aí temos, mais uma vez, essa sensação de pós-modernidade em Tropix, onde o pix (de pixel) no final do nome é o que te induz a entender que é tropical sim, mas de uma forma filtrada pelo digital, pelo futuro – ou o que se crê que sejam sons do futuro atualmente. Seja como for, ou seja lá o que o futuro reserva (visto que o contemporâneo tem muito do “ontem” reinterpretado pelas possibilidades tecnológicas e combinações estilísticas do “hoje”), Tropix não é o disco que vai apresentar Céu a um novo público – essa função ainda pode ser muito bem desempenhada pelo excelente Caravana Sereia Bloom (2012) ou mesmo por seu Ao Vivo (2014) – mas representa mais um passo à frente de Céu e sua banda.

É o tipo de disco que cresce no ouvinte com o tempo. Sua aparente introspecção, os acordes de teclado e as linhas de baixo demandam algum tempinho para serem decifradas, principalmente na primeira metade do trabalho. Mas esse tipo de detalhe é só um aviso a quem vai mergulhar em Céu a partir de agora. Quem a acompanha desde que ela cantava “Menino bonito, menino bonito, ai” de “Malemolência” vai encontrar a mesma voz de aconchego e a mesma preocupação com uma música de qualidade. Ah, e ela continua sendo uma das vozes mais interessantes da nova geração da música brasileira.

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