Gwen Stefani – This Is What The Truth Feels Like (2016)

Disco atira para todos os lados sem cuidar da personalidade musical

Por Lucas Scaliza

Gwen Stefani, vocalista do No Doubt e jurada do The Voice estadunidense, chega ao terceiro disco solo repetindo os mesmo erros e acertos dos dois primeiros. Ou talvez não sejam erros e acertos, mas apenas uma decisão criativa de uma mente que trafega pelo pop de maneira tão abrangente que tenta abraçar todas as tendências e possibilidades, sem se preocupar – mais uma vez! – com a criação de uma marca pessoal.

É preciso tratar com cuidado a argumentação no caso de This Is What The Truth Feels Like. A versão deluxe do álbum possui 17 músicas e muitas delas são cativantes; algumas são ótimas; mas no geral fica uma impressão difusa do trabalho enquanto formato álbum, porque Gwen Stefani atira para todos os lados, assim como fez há 10 anos em The Sweet Escape (2006). Se a música mainstream radiofônica hoje é um aglomerado de R&B, hip hop, pop, música eletrônica, dance e até reggae, pode apostar que você encontrará tudo isso em TIWTTFL.

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Gwen Renée Stefani se dá bem em praticamente todos os estilos musicais citados acima e, há tanto tempo sem um disco novo no mercado, talvez ela tenha achado uma boa ideia mostrar como é versátil. Nada contra a versatilidade da cantora, mas no final das contas o álbum soa sem foco, mais como uma coleção de faixas muito distantes umas das outras e sem que, mais uma vez, seja possível identificar qual é a assinatura sonora de Stefani. Qual é a essência estética dela? Após três discos de estúdio continua muito difícil determinar. Em menos tempo de estrada e com o mesmo número de discos, Lana Del Rey já se posicionou plenamente como a rainha do drama e do retrô; Lorde e sua economia de meios para fazer dream pop nada alienado; e FKW twigs como a outsider criativa que une R&B e eletrônica de maneira vanguardista.

Talvez a característica de Gwen Stefani seja fazer música variada mesmo, sem uma estética única. Mas nesse caso ela sempre será parecida com outro alguém, e não uma referência forte o bastante por si só.

Mas se no geral This Is What The Truth Feels Like tenta incluir tudo o que o pop permite que seja pop, as músicas individualmente valem a pena. É claro que neste contexto várias delas correm o risco de se tornarem muito genéricas (como o primeiro single, “Make Me Like You”), mas há destaques que atestam a qualidade de Stefani como cantora, frontwoman e voz criativa no pop.

“Truth” é uma balada com potencial para sobreviver no repertório de Stefani por bastante tempo.  Embora ganhe uma roupagem bem apropriada para o pop, fica claro que uma versão voz e violão ficaria ótima ao vivo. Já “Used To Levo You”, “Send Me a Picture” e “Getting Warmer”, também baladas, soam como aquele estilo que Ellie Goulding já deixou para trás no disco anterior.

No campo do R&B e hip hop, “Red Flag” é uma das músicas mais interessantes do álbum, enquanto “Asking 4 It” mais uma reciclagem de ideias já testadas do que uma composição original. “Naughty”, por outro lado, é uma canção que mostra o poder de interpretação de Stefani (easter egg: tem uma referência ao Radiohead nessa canção).

Há muita preocupação para que tudo seja acessível e pop em TIWTTFL, o que inclui fazer músicas curtas. Tão sintéticas que não sobra espaço para arranjos bonitos ou interessantes se destacarem e também preencherem sozinhos lacunas da composição ou e do sentimento de cada canção. Assim, algumas músicas que poderiam se beneficiar do instrumental, como “Me Without You” e “Misery”, soam podadas, como se faltasse amadurecimento para serem ótimas faixas. Curiosamente, “Splash” é uma das faixas mais joviais do álbum e um dos únicos momentos em que ela cria batidas interessantes (que soam como bolhas estourando em um aquário) e faz com que um sintetizador perpasse toda a canção, chegando ao ponto de simular um solo de guitarra. São momentos inspirados como esse que faltam ao TIWTTFL.

O histórico do disco também vale a pena ser compartilhado. Gwen Stefani passou por um divórcio e toda a dor, mágoa e raiva desse processo lhe deu a inspiração e coragem para colocar suas ideias em novas músicas, descartando diversas outras que já estavam sendo trabalhadas anteriormente. No meio do caminho ela encontrou um novo companheiro e também essa experiência que lhe deu nova fé no amor está presente no álbum.

Dessa forma Stefani compartilha com os fãs e com o público o que ela diz ser a “verdade”, suas reais impressões sobre um rompimento e uma reconstrução. Contudo, a carga emocional das músicas não condiz com o que suas letras almejam retratar, reforçando aquela impressão de pop genérico ou de pop embalado mais embalado para seus jovens seguidores do que para pessoas que pretendam realmente se conectar à sua música por meio de seus temas e nuances. 1989 da Taylor Swift, por mais embalado que seja para servir ao mainstream, guarda maior carga emocional.

No final das contas, TIWTTFL é um concentrado de catchy songs que funcionam muito bem, mas que não trabalham juntas e nem se conectam de forma musicalmente coerente. Gwen Stefani é uma veterana dos palcos e da indústria e trabalhou com produtores de renome nessa mesma indústria. Por isso é estranho que ela não consiga deixar uma marca sonora indelével, justamente em um momento em que cada artista (mesmo os iniciantes) tenta dar uma cara própria ao que faz mesmo quando suas músicas não têm o apelo comercial necessário para estourar. E os produtores não ficam atrás: se o artista não tem estilo coeso o suficiente, eles deixam sua marca por eles (e não é o que acontece com o Purpose do Justin Bieber?).

Depois de toda a exposição com The Voice, Stefani virou mais uma celebridade que precisa ser abrangente do que ter uma personalidade forte. Mesmo que a derrocada de seu casamento e o nascimento de uma nova relação sejam experiências significativas que ela queira compartilhar, o disco carece de personalidade musical.

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