2016 Folk Resenhas Rock

Black Mountain – IV (2016)

Entre o stoner e o psicodélico, banda de Vancouver propõe um álbum retrofuturista

Por Lucas Scaliza

A proposta e os elementos ainda são os mesmos: stoner rock, timbres encorpados, riffs poderosos, flertes com o folk e com o alternativo, e muitos sintetizadores. O som de IV ainda é o mesmo som dos álbuns anteriores do Black Mountain, principalmente o début de 2005. Em um minuto estão mandando o mundo abaixo com guitarras pesadas e seus riffs deliciosamente calibrados. No outro, a dinâmica cai para algo muito mais delicado (e às vezes até sem graça) ou estranho.

Mas IV parece se aproveitar da experiência demonstrada em Wilderness Heart (2012) com a força da música pesada, mostrando um equilíbrio mais coerente entre esses diversos elementos musicais que nem sempre caem bem juntos, mas que agora soam mais naturais. Desse modo, o novo álbum dos canadenses recupera um pouco da experiência de In The Future (2008).

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A longa “Mothers Of The Sun” abre o disco com seu retrofuturismo, uma concepção que está presente também na capa do disco. Sintetizadores monótonos dão o tom da canção até que um primeiro riff apareça, mas seja descontinuado, abrindo espaço para os teclados sinfônicos e viajantes de Jeremy Schimdt e para as vozes dos vocalistas Amber Webber e Stephen McBean. Sem pressa, a banda primeiro hipnotiza o ouvinte, levando mais de três minutos para que mostre suas garras. Isto é: os riffs poderosos e um solo de guitarra agressivo e cheio de notas que promete incendiar apresentações ao vivo.

Incêndio que deve continuar com “Florian Saucer Attack”, mostrando o lado mais roqueiro, direto e pulsante da banda. A alternativa “Cemetery Breeding” é a música mais próxima de um single radiofônico que o Black Mountain compôs para IV e pode mesmo virar uma das suas preferidas no álbum. “Defector” tem o lado mais Roger Waters do grupo, seja nas escolhas harmônicas ou nas linhas melódicas. Fica claro também que a mistura de elementos é uma constante na banda. O teclado de Schimidt ainda é bastante pinkfloydiano, mas as guitarras estão mais para anos 90.

“You Can Dream” volta a colocar a banda em rota espacial abusando dos efeitos de sintetizadores e misturando batidas eletrônicas com guitarras distorcidas. Mesmo “Line Them All Up” e “Crucify Me”, que trocam as guitarras pelos violões para exercitar o lado folk do grupo, acabam cedendo bastante espaço para as sinfonias e acordes de Schimidt, nos lembrando a todo momento de como essa banda do século 21 ainda tem um pé nos anos 70. “(Over and Over) The Chain”, por exemplo, é praticamente uma canção irmã de “Mothers Of The Sun”: teclados épicos, efeitos sonoros espaciais e, após uma longa introdução, guitarras pesadas que passam dos riffs para uma paisagem sonora ruidosa.

O disco, afinal, parece o casamento entre o Pink Floyd do início da década de 1970 com a vontade de soar raivoso como os riffs do Tony Iommi. Apesar das qualidades dos músicos e dos dois vocalistas, as teclas de Jeremy Schimidt são onipresentes. E como esse teclado quase sempre olha para o passado para buscar inspiração, enaltece o teor retrô da banda e do disco, podendo ser um deleite para os saudosos, mas não tanto para quem espera uma releitura mais criativa daquela época. O curioso é que apesar de sua proeminência do trabalho, Schimidt nunca foi um dos compositores da banda.

Nesse contexto, até chegar à “Space To Bakersfield” você já deve ter percebido o posicionamento do grupo e, se se entusiasmou o suficiente, é a hora de reclinar o assento de sua nave espacial e aproveitar a última viagem com direito a grandes e longos acordes sinfônicos, guitarras timbradas como aquelas usadas pelos ingleses urbano-psicodélicos há 20 anos e uma cadência convidativa para a meditação. É cinematográfica em sua condução e na forma como deseja despertar sentimentos no ouvinte.

Embora já tenham tido alguns highlights na carreira, acredito que IV possa de fato ser um ponto de virada se for entregue para o público correto e da forma correta. Ainda há espaço para melhorarem a coesão, encontrando um tom que norteie todas as canções de um futuro álbum, mas a evolução está ocorrendo sem precisar sacrificar o lado mais stoner e nem o lado mais psicodélico do grupo.

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1 comentário em “Black Mountain – IV (2016)

  1. Conheci essa banda pelo Dave Grohl e não parei de ouvir

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