2016 Indie Resenhas Rock

The Joy Formidable – Hitch (2016)

Terceiro disco mostra muita energia e uma sinfonia nas guitarras da vocalista Ritzy Bryan

Por Lucas Scaliza

Hitch é a expressão mais bem acabada de uma banda que sabe fazer rock’n’roll com energia e com entusiasmo. Não que o power trio galês The Joy Formidable tenha tido problemas com isso em seus dois discos anteriores, mas o novo trabalho é um primor que alia boas canções – capazes de fazer você pular no sofá ou cantar junto de uma multidão em um festival de verão – com uma técnica que não é exibicionista, mas deixa claro como o instrumental tem peso e proeminência da música da banda. “Radio Of Lips” é tão bem composta, bem gravada e animada que pode entrar desde a primeira audição para a lista de melhores faixas da banda.

A banda ainda consiste da carismática e Rhiannon “Ritzy” Bryan nos vocais e na guitarra, Rhydian Dafydd no baixo e James Thomas na bateria. Vamos dizer que James Thomas e Dafydd fazem uma base competente ao longo de todo o álbum, daquelas que reforçam as características que mais gostamos na música rock, mas não deixam de temperar as faixas com alguns detalhes ou criações que chamarão a atenção dos ouvidos mais atentos. A ponte antes do refrão da ótima “A Second In White” é dominada pela percussão ágil de Thomas, elevando a dinâmica da faixa à força. Já Rhydian Dafydd faz linhas de baixos memoráveis em diversos momentos, seja subindo e descendo a escala em um interlúdio ácido de “The Last Thing To My Mind” ou carregando a balada “Liana” até seu ápice. Mesmo “Fog (Black Windows)”, que soa como a música mais acessível do álbum, possui um pulso forte roqueiro graças à condução de Thomas e Dafydd que não deixam a cozinha da faixa soar pasteurizada, problema que às vezes acomete a mixagem de faixas “com potencial radiofônico”.

The_Joy_Formidable_jan16_1024_683

Mas o disco é realmente uma sinfonia guitarreira de Ritzy. Impossível não notar a quantidade de ideias que ela atira ao longo de Hitch sem medo de a quantidade de guitarras com distorção do álbum afastá-lo do espectro radiofônico. Ela não tem medo de mostrar a força de seu instrumento em bases poderosas nos riffs de “It’s Started” e “Liana”, no solo emocional de “The Gift”, ou nos pesados acordes de “Running Hands With The Night” que soam ainda maiores com a ajuda da bateria trovejante de Thomas e a mão pesada de Dafydd.

Além da guitarra, Ritzy dá uma mostra de como seu timbre de voz, mesmo quando o som é mais roqueiro, faz com que as faixas pareçam bastante amigáveis e palatáveis. Hitch é um disco que tem tudo a ver com os primeiros trabalhos do The Joy Formidable, mas que também resgata o gosto por bandas de rock que possuem vocalistas femininas, como The Cranberries ou Alanis Morissette. A presença de Ritzy como boa cantora e ótima guitarrista também nos faz pensar no protagonismo de St. Vincent na música alternativa e autoral nos últimos anos.

Embora o Best Coast também tenha entregado um disco bastante roqueiro, a estrutura musical da dupla é bastante previsível se comparado ao The Joy Formidable. Mesmo uma música direta como “Blowing Fire” possui seus momentos de virada, algo central para que se evidencie que as composições possuem “acidentes” e não soem tão retilíneas.

Se resta alguma dúvida de que a banda tem música para mostrar, “Underneath The Petal” nos entrega um belíssimo passeio pela música folk galesa, com violões, piano e flauta. É claro que a faixa destoa do restante do disco, mas está longe de ser um momento ruim. Pelo contrário: é quando sabemos que estamos diante de músicos que pensam nas possibilidades artísticas, não sacrificando uma boa canção apenas porque o público pode não compreender bem a proposta da composição.

O processo de gravação de Hitch foi mais paciente do que o de Wolf’s Law (2012). O trio se reuniu na casa em que viveu a família da vocalista e cantora, nos arredores de Mold, no País de Gales. Com um estúdio montado na casa e não precisando pagar por hora de gravação, a banda realmente aproveitou seu tempo no local para compor e testar. Ritzy Bryan revelou que chegara a fazer entre 60 e 70 novas faixas e que o trio considerou lançar um álbum duplo ou triplo. Mas acabaram com um disco simples mesmo, mas longo. E talvez essa seja a única baixa do lançamento. Se fosse um pouco menor, talvez a energia fosse melhor absorvida. Por melhor rock que Hitch guarde, pode soar um pouco exaustivo, já que todas as faixas – e todas ótimas – levam a um crescendo inescapável, sem que exista uma real diversidade de climas (melancolia, tristeza e estranhamento têm participações realmente diminutas no álbum) que ajude a dar um respiro.

Se ainda não conhece The Joy Formidable, chegou a hora de conhecer. Hitch não é apenas uma ótima introdução ao grupo, mas provavelmente um exemplo de rock que quer ser acessível sem sacrificar o instrumental e o papel da guitarra, com uma frontwoman que rouba a cena não porque seu carisma deriva da beleza das fotos publicitárias, mas porque sua atitude nos vocais, nas letras e nas seis cordas nos convidam a saber quem é a responsável por todo o som que ouvimos.

E, acima de tudo, Hitch é divertido. Muito divertido.

the-joy-formidable-2016

1 comentário em “The Joy Formidable – Hitch (2016)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: