2016 Resenhas Trilha Sonora

Batman V. Superman: A Origem da Justiça – a trilha sonora de Hans Zimmer e Junkie XL (2016)

Trilha épica reforça os maneirismos de Zimmer

Por Lucas Scaliza

Há uma diferença de tom considerável nos filmes da Disney/Marvel para com os filmes da Warner/DC. Na casa do Mickey dá-se mais espaço para o alívio cômico e uma visão de mundo que revolve em torno dos próprios super-heróis. O mundo é medido a partir deles e suas jornadas, de maneira mais leve e pueril. Se o mundo externo (e real) tem algum peso, é pouco visto na tela. Talvez Capitão América: Soldado Invernal tenha conseguido trazer uma discussão acerca das políticas de vigilância dos Estados Unidos, mas trazer o peso do mundo para as telas não é algo recorrente. Já nos estúdios Warner/DC os heróis são mais sérios, com maior peso moral e, apesar do gigantismo da presença desses seres com capas e habilidades especiais, o mundo em torno deles os molda e os afeta de maneira mais indelével. Esse retrato começou com a trilogia Batman, dirigida por Christopher Nolan, e continuou no Homem de Aço e em Batman V. Superman: A Origem da Justiça (Batman V. Superman: Dawn of Justice, 2016) dirigidos por Zack Snyder. Como os filmes da DC adotam um tom mais épico, a trilha sonora acompanha: os primeiros acordes da primeira música, “Beautiful Lie”, são trovejantes e sisudos. Reconhecemos o estilo do alemão Hans Zimmer de longe.

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Mas Zimmer não encarou essa tarefa sozinho. O filme tem mais de 2h20 e ganhará uma versão de 3 horas para blu-ray. Para conseguir compor mais de 1h30 de som, Junkie XL (o holandês Tom Holkenborg) foi chamado para o papel também. Junkie já trabalhou com Zimmer nas trilhas de Homem de Aço e O Cavaleiro das Trevas Ressurge, mas nos dois casos foi creditado como autor de música adicional. Vale lembrar que ele fez sozinho a incrível trilha de Mad Max: Estrada da Fúria (2015) e de Deadpool (2016), provando que, apesar de suas origens alternativas na música eletrônica, podia sim compor para blockbusters e para um público mais amplo. Agora ele responde pela trilha do filme de Zack Snyder em pé de igualdade com o veterano alemão.

Para Zimmer, foi difícil encontrar um tema para a Mulher Maravilha (Gal Gadot). Tinha que ser forte, marcante e feminino. Após várias tentativas frustradas, encontraram o som ideal para ela proveniente de um cello elétrico que rasga pelas trovejantes percussões e nos dá uma melodia acelerada, agressiva e tribal. A música da Mulher Maravilha aparece em “Is She With You”, um dos melhores temas de ação do filme. Já o tema para o Superman (Henry Cavill) reflete sua busca por humanidade, muito mais simples e comovente. E está bem representada na faixa “Day of The Dead”, de fato uma das melhores da trilha, mostrando que Zimmer tinha razão ao dedicar um pouco de tempo e imaginação à representação do Homem de Aço. Já o novo Batman (Ben Affleck) tem um tema épico, pesado e imponente que pode ser ouvido logo no início de “Beautiful Lie” e com diversas variações ao longo da trilha.

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A participação de Junkie XL é melhor sentida quando a orquestração abraça o eletrônico, levando novas sensações à trilha Zimmer. “Must There Be a Superman” é um épico e tanto. Começa com uma polifonia de vozes humanas que soam como almas atormentadas (recurso usado com maestria na trilha de A Bruxa). Logo em seguida, Junkie cria uma espécie de marcha que simula uma respiração ofegante e pesada. A canção segue crescendo, aglutinando sintetizadores e corais, confusa e atormentada, como é típico dele. Outra de suas participações mais interessantes está em “The Red Capes Are Coming”. Apesar de ser a faixa projetada para conter o tema de Lex Luthor (Jesse Eisenberg) – um tema mais clássico e puro, com violinos –, Holkenborg encaixa fraseados eletrônicos que simbolizam tanto a faceta tecnológica do personagem e sua empresa (LexCorp) quanto sublinham seu aparente desajuste mental. São nos últimos segundos da faixa entra o violino, revelando o tema de Luthor, marcando a passagem de batuta de Junkie para Zimmer. Já “Vigilante” é uma faixa que poderia muito bem figurar em um filme de terror. Uma legião de vozes contidas e espremidas pelos sussurros eletrônicos. E por fim, entra o tema do vigilante de Gotham.

No finalzinho de “Beautiful Lie”, primeira faixa da trilha, ouvimos um clarinete entoar três notas. Mistério, tensão e melancolia. Simples, mas é o tema do filme e vai se repetir várias vezes por outras faixas, como em “New Rules”, mas nunca de forma exagerada, sempre como uma citação sublinhando sonoramente em que reino estamos. Aliás, o tema pesado e percussivo do Batman também dá as caras em diversos momentos, mas não estende-se demais. Assim, seja qual for o personagem, nunca temos uma música tema para ele, mas sim um curto tema musical que surge episodicamente no contexto de outras situações, assim como a Warner/DC têm a preocupação de incluir os heróis em um mundo, e não fazer o mundo a partir da existência deles.

E assim como nas obras pregressas de Zimmer para filmes superheróicos (os três Batman de Nolan e Homem de Aço), não falta marcha militar, tambores de guerra e metais, muitos metais, soprando a materialidade e o peso tão marcante em suas composições. Se o filme da Warner/DC se diferencia dos filmes da Disney/Marvel por ser épico e grandiloquente, e se o filme retrata o herói mais poderoso do universo, capaz de acabar com o planeta se ele assim quiser, a trilha acompanha essa escala e tenta esmagar o ouvinte. É importante notar que a trilha sabe exatamente quando deve pesar a mão durante o filme. Ouvi-la separadamente, no entanto, dá uma impressão muito mais acachapante da experiência.

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Enquanto “Is She With You” é uma das trilhas mais legais de ação do disco (e uma das mais assobiáveis também), “Do You Bleed” e “Fire Night” são as mais diretas ao ponto, os grandes heavy metal sinfônicos do filme, cheias de percussão, corais e intervenções eletrônicas. E a épica “Men Are Still Good (Batman Suite)” é mastodôntica: 14 minutos percorrendo desde o violino que faz o tema de Lex Luthor até a passagem emocional de Superman, tema do Batman, tema de três notas no clarinete que se repetem ao longo do filme todo, e, nos minutos finais, um daqueles crescendos que almejam fazer o coração sair pela boca.

Além dos temas musicais, das referências aos quadrinhos e a outros filmes, da preocupação em retratar uma Terra onde existem seres que são deuses, um mundo pós 11 de setembro e ameaças globais, há um tema bastante delicado que se repete na narrativa: o papel do amor. Amor pela humanidade, por uma companheira e por uma mãe, sempre muito bem representado pela expressão “Ela é meu mundo” ou “Isso é meu mundo”. Zimmer e Holkenborg não perderam a chance de fazer uma música para esse tema narrativo. “This Is My World” é bastante sentimental do segundo ao terceiro ato, mas como estamos em uma produção de larga escala, onde o minimalismo tem pouco espaço, a primeira parte da canção traz uma orquestração bastante épica. Zimmer até deixa as cordas respirar, mas é uma preparação de terreno antes dos metais chegarem para potencializar a música, tornando-a digna de ser ouvida em uma catedral. Mas não se engane: apesar da grandiloquência, é uma música muito bonita, tocante como poucas vezes Zimmer se permite ser em filmes de ação. O tema de piano da música é recuperado depois em “Men Are Still Good”.

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Apesar das habilidades de Junkie XL e apesar de trabalhar bem junto do compositor alemão, a trilha sonora reforça os maneirismos de Zimmer. A dupla não reinventa e nem subverte a trilha de ação, mantendo tudo grandiloquente, o que acaba fazendo do filme uma obra musical um tanto barulhenta e pesada, mas que se conecta com o espírito e o tom da produção. Convenhamos que Batman V. Superman: A Origem da Justiça não é um filme de arte que pode se permitir a muitas soluções vanguardistas, já que precisa se manter dentro de um gosto popular mais geral. No entanto, conseguem fazer músicas que funcionam bem sozinhas e fazem sentido acompanhando o enredo. A escolha de temas que se repetem num contexto maior – ao invés de temas que são o próprio contexto de determinadas canções – é bem interessante, assim como as veias eletrônicas de Junkie correm vigorosas pelo corpo metálico dos sons planejados por Zimmer.

Mas se Batman V. Superman tem sido um desses filmes de polarizar opiniões, sua trilha sonora também sofrerá dessa divergência de opiniões e sensibilidades no tímpano. Não faltam pessoas que categorizariam a trilha como escandalosa. Não faltam também quem a defenderia, enxergando seu papel dentro do contexto da indústria. Não acho que seja uma questão de tomar lados, mas somente as assinaturas de Hans Zimmer e Tom Holkenborg são suficientes para se esperar algo épico e pesado. Contudo, todos os temas do filme são marcantes desde que você consiga notá-los.

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