2016 Indie Pop Resenhas

Elliphant – Living Life Golden (2016)

As músicas são melhores, mas perder a visceralidade é o preço por se tornar pop

Por Lucas Scaliza

Conhecemos muito bem as exigências da indústria fonográfica e da maioria do público consumidor de música. O que geralmente é visceral demais, não tão bem lapidado, acaba sendo relegado a um nicho de mercado bem específico. Se quiser ser maior, precisa se ajustar. O caso de Elliphant é mais um exemplo de ajuste que teve como resultado a quase imediata maior visibilidade para ela e sua música. Ao mesmo tempo em que sua música parece melhor acabada e com mais direção, fica evidente também que perdeu o vigor das ruas.

Living Life Golden é o segundo disco completo da sueca Ellinor Miranda Salome Olovsdotter, mas antes ela já havia liberado diversas músicas avulsas e alguns EPs (vários deles disponíveis no Spotify) e um primeiro disco chamado A Good Idea (2013) que não foi distribuído por uma grande gravadora ou selo no mundo todo.

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O que encontramos em um EP como Look Like You Love It¸de 2014, são canções longe de serem perfeitas, mas que contaram com produções de gente como Diplo, Skrillex e The Reef e mostraram as garras de uma jovem cantora e compositora. Este EP mostra muito bem como Elliphant tem a energia do hip hop e o poder crítico que o estilo é capaz de disseminar com suas letras. É um exemplo de como a sueca tinha uma pegada bem underground.

Living Life Golden é muito mais fácil de digerir. O hip hop não é mais tanto um estilo que ela exercite, mas sim uma grande influência ao pop que desfila pelas 12 faixas do álbum. As músicas não têm mais o vigor e a rebeldia de Look Like You Love It, mas estão melhor estruturadas e com arranjos mais interessantes. Algumas faixas são o eletropop mainstream mais genérico que se pode encontrar (como “Love Me Long”, com Mazor Lazer e Gyptian), mas várias outras foram feitas para funcionar nas paradas pop e indie pop – e de fato conseguem.

Além do esperto jogo de linguagem da primeira e do clima mais indie da segunda, “Love Me Badder”, “Thing Called Life” e “Where Is Home” têm ótimos refrãos que grudam na cabeça. São músicas simples e não diferem da maior parte do pop que ouvimos por aí, mas que crescem no ouvinte. Até mesmo “Not Ready” tem uma graça particular: carrega o DNA do reggae com linhas de baixo e bateria eletrônicas que lembram o groove do Gorillaz.

É muito difícil ouvir Living Life Golden e não levar em conta como o dream pop ganhou espaço e importância estética comercial após o sucesso de Lorde. Seguindo essa linha de pensamento, até mesmo o ótimo Badlands (2015) da Halsey é parte desse processo em que Elliphant está inserida. Desse cenário, o disco da sueca se beneficia utilizando produções mais econômicas – como na ótima “One More” (com participação da dinamarquesa ) e “Hit And Run”. Letras mais críticas sobre estilo de vida também permeiam o disco, fazendo com que, felizmente, Living Life Golden não seja um trabalho de pop alienado. É com toda certeza uma tentativa de ser menos politizado ou pesado do que as músicas mais hip hop apresentadas por ela anteriormente, mas se está menos rebelde na forma, pelo menos algumas mensagens ainda são importantes.

“Step Down”, single do disco e a primeira faixa, sintetiza essa nova fase de Elliphant. A música é descomplicada e tem um daqueles refrãos que pegam fácil; a letra é sobre um relacionamento nada sério em que uma das partes se acha em posição mais cômoda. No final, há uma superposição de versos em que Elliphant surge cantando de forma mais agressiva, com sua voz rouca, um lampejo da visceralidade de outrora. Com participação de Azealia Banks, “Everybody” é aquele momento de papo sério e reto em que ambas podem apontar o dedo para fãs, mídia, sociedade e falar da massificação dos desejos e expectativas. E “Where Is Home” é a busca pelo seu lugar no mundo, tanto físico quanto emocional na companhia de alguém. Não há grandes sacadas ou profundidade nos versos dela, mas já são exemplos de música pop que tenta não repetir os mesmos clichês de amor e fossa. “Living Life Golden”, que fecha o trabalho, se aproxima muito dos temas de Lorde em Pure Heroine, em que retrata-se uma juventude que falha – ou não sabe como ter sucesso e até contesta essa noção –, mas tenta encarar a vida de peito aberto. “One More” também é parte desse contexto, uma música sobre sair com um(a) amigo(a) para beber e fugir momentaneamente dos problemas da vida até que possa voltar a ter coragem de encará-los.

Living Life Golden é um caminho sem volta. Elliphant está mesmo trilhando um caminho que se ajusta melhor ao gosto musical de uma maioria. Se ela voltar ao hip hop mais underground será para um trecho de canção ou composição episódica, não mais como exercício de um estilo pelo qual será reconhecida. Seus shows poderão conter faixas dessa época que serão bem aceitas pelos fãs mais antigos, mas não estarão no repertório da maioria do público. Mas vale a pena ouvir Living Life Golden e acompanhar como será o desenvolvimento artístico dela a partir de agora.

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1 comentário em “Elliphant – Living Life Golden (2016)

  1. Pingback: Birdy – Beautiful Lies (2016) | Escuta Essa!

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