2016 Diversos Folk Indie Resenhas

Iamthemorning – Lighthouse (2016))

Dupla russa traz o progressivo para o neoclássico e se inspira em Virginia Woolf e Sylvia Plath

Por Lucas Scaliza

O belíssimo Belighted (2014) mostrou ao mundo como a música pop ocidental podia se misturar à tradição da música erudita russa, resultando em canções que sabiam brincar com a forma se aproveitando das habilidades de canto de Marjana Semkina e do pianista Gleb Kolyadin. Dois anos depois, muitos desafios foram vencidos, mas muitas dificuldades ainda se mantêm como barreiras para a dupla continuar a gravar e lançar sua música. Lighthouse é, sobretudo, uma vitória da música independente, da arte e de como criar um nicho de interesse com a ajudinha de alguns amigos influentes (como o produtor Marcel van Limbeek, o selo de art rock KScope e Daniel Cavannagh, guitarrista do Anathema) para que projetos diferenciados possam sair das partituras e chegar a quem quiser ouvi-los.

Tecnicamente, Lighthouse é tão bom quanto seu antecessor. Os pianos e teclados de Kolyadin são muito bem tocados e mostram que ele é não só bom compositor, mas um virtuose das teclas que mantém o respeito pelas técnicas clássicas, sem precisar recorrer a exibicionismos. Marjana mostra um controle bem grande sobre a dinâmica, a respiração e a afinação. Apesar de todo cuidado técnico com o canto, ele não soa frio, como mostram as duas partes de “I Came Before The Water”, em que Marjana usa seu vocal lírico. A banda de apoio é um show a parte com o incrível baterista Gavin Harrison (solo, Porcupine Tree, King Crimson), o baixista Colin Edwin (Porcupine Tree), o guitarrista Vlad Avy, Evan Carson na percussão (como na música “Clear Clearer”) e Andres Izmailov na harpa. O cantor polonês Maiusz Duda, do Riverside, faz uma ponta vocal na faixa-título.

iamthemorning_2016_2

Como dá para perceber, o Iamthemorning está muito associado ao rock progressivo, embora Lighthouse tenha menos momentos roqueiros do que Belighted. Dessa vez estão mais focados no som neoclássico, embora o pulso de diversas músicas seja muito influenciado mais pela progressividade do que pela música erudita, como fica bem claro no terço final de “Matches” e na dupla “Chalk And Coal” e “Too Many Years”, duas das melhores do disco e que possuem mudanças de compasso marcadas principalmente pelo ritmo na mão esquerda de Kolyadin.

O álbum é criativo e instigante. Souberam manter os elementos que caracterizam sua sonoridade e tentar coisas novas, como a percussão de Evan Carson no lugar da bateria de Harrison, dando um ar muito mais folclórico ao trabalho, o que se encaixa muito bem à proposta, como é o caso da imaginativa “Clear Clearer” e da melancólica “Sleeping Pills”, construída em torno do piano, mas que abre espaço para violino, coral fantasmagórico e uma percussão crescente ao final. “Libretto Horror” é curtinha, mas sozinha já atesta o poder criativo da dupla que, ao retratar o desespero da personagem, conseguem fazer com que cordas, teclado e sopros tenham um poder interpretativo incrível, sem falar na performance impecável de Marjana.

Sem pressa, sem pressão e sem nenhum tipo de ansiedade, Marjana e Gleb desenvolvem o trabalho buscando maturidade e não repetir o que já fizeram em Belighted. Isso dura até o ótimo terceiro ato de “Lighthouse”, quando um violão preenche a faixa e a voz de Mariusz Duda contrasta com os bakcing vocals de Marjana, em um dos momentos mais marcantes do álbum.

Se há algum ponto negativo em Lighthouse ele pode estar, dependendo da sua preferência musical, nas faixas “Harmony” e “Matches”. A primeira é instrumental e tem jeito de fantasia (palavra que descreve peças eruditas com mais cores e imaginação), mas talvez merecesse um clímax com dinâmica mais elevada. “Matches” também parece mudar bastante, mas não chegar a lugar nenhum exatamente. E embora o timbre de Marjana possa parecer repetitivo quando chegamos à “Belighted”, a música se beneficia do arranjo de harpa e da orquestração que ganha cada vez mais espaço até alcançar um clímax envolvente.

Lighthouse é um disco conceitual que conta a história de uma garota e o progresso de sua doença mental, que a leva a primeiro buscar meios de lidar com sua condição, mas acaba sucumbindo. A vida e a obra das escritoras Virginia Woolf e Sylvia Plath inspiraram as letras de Marjana Semkina e Gleb Kolyadin (vale a pena conhecer a trágica história de ambas).

O disco consegue ser mais sentimental que o anterior e faz o ouvinte viver as emoções da protagonista conforme as faixas se seguem. Quando chegamos à excelente “Chalk And Coal” temos não apenas a volta da progressividade, mas também a entrada do jazz no mix sonoro do Iamthemorning. Além disso, o distúrbio mental da personagem é representado por uma das passagens mais expressivas de Gleb ao piano e pela voz de Marjana que invade a faixa para soar como as vozes que atormentam a garota.

iamthemorning_2016

A segunda parte de “I Came Before The Water” é um dos momentos mais arrebatadores e dramáticos do disco, marcando o momento em que a personagem aceita seu fim. A orquestração que a envolve traz tanto a beleza da vista do mar a partir de um farol como o peso das águas sobre o corpo. A instrumental “Post Scriptum”, que fecha o trabalho, traz a mesma melodia de “I Came Before The Water”, mas reinterpretada pela banda, não pela orquestra, e com maior leveza.

O disco foi gravado em estúdios de Londres, Moscou e São Petersburgo (cidade de origem do Iamthemorning). O piano de Kolyadin foi gravado no estúdio Mosfilm, o maior e mais antigo estúdio da Rússia, fundado em 1920 e palco de diversas gravações de orquestras para trilhas sonoras de filmes soviéticos. O inconveniente da banda é o fato de apresentações ao vivo serem escassas, dadas as distâncias geográficas e tamanho de equipe de músicos necessários caso queiram reproduzir a música de seus álbuns. E Lighthouse é um desses álbuns que quase clamam para serem tocados na íntegra e na ordem, para que possamos vivenciar ao vivo as emoções que a música do duo russo busca despertar.

Dentro do neoclássico, do prog, do rock ou mesmo da música russa, o Iamthemorning é o nicho do nicho. Se você estiver lendo esse texto ou ouvindo a música deles, considere-se um privilegiado. Mesmo que não goste logo de cara, dê tempo ao tempo.

iamthemorning_marjana_semkina_gleb_kolyadin

0 comentário em “Iamthemorning – Lighthouse (2016))

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: