2016 blues Resenhas Rock

Joe Bonamassa – Blues Of Desperation (2016)

Mais distorção, mais moderno, mais autoral e o mesmo blues

Por Lucas Scaliza

Os trens, os rios, as pastagens, os vales e as montanhas, a passagem do tempo, o sofrimento, a solidão. São elementos que evocam as mais bucólicas cenas do imaginário americano. São clichês temáticos do blues que sobrevivem há pelo menos um centenário e é com esses ingredientes tão desgastados que o guitarrista Joe Bonamassa cozinha e tempera as 11 faixas de Blues Of Desperation, seu novo disco solo. Embora sejam clichês, Bonamassa acerta a mão e dá vida nova a todos eles e faz um de seus discos mais roqueiros e mais instigantes.

Bonamassa resolveu olhar com olhos mais bem abertos para o estúdio e as possibilidades de gravação, permitindo-se sair do que lhe era um processo convencional. Não usou amplificadores Marshall dessa vez, preferindo três Fenders. Essa mudança já é suficiente para impactar o resultado do timbre de seu instrumento, mas ele foi um pouco além e trouxe novos e diferentes equipamentos (pedais) para explorar ainda mais a sonoridade de sua música. Mas não pense que ele virou um cara experimental. Longe disso. Um dos pés continua bem fincado no blues e o outro não sai do rock. “This Train”, por exemplo, é direta ao ponto, mas repare na guitarra base dos versos: enquanto canta, sua mão continua deslizando pelo braço da guitarra, dando uma sensação de maior movimento dentro dos compassos quadradinhos da canção. O baixo de Michael Rhodes martela os ritmos, mas também dança conforme o blues. Quem gosta de um blues mais suingado e raiz encontrará um pequeno petardo na sensual “Livin’ Easy”, que mantém a guitarra comportada enquanto dá espaço para piano e saxofone solarem de forma bastante melíflua.

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Foto: Marty Moffatt

Bonamassa também está utilizando mais riffs, o que ajuda a dar mais peso ao som, e soa menos lickeiro do que anteriormente, buscando uma expressão própria em cada canto das faixas de Blues Of Desperation. “Mountain Climbing” tem não apenas muitos riffs, mas power chords e distorção de sobra, ao mesmo tempo que três backing vocals femininas trazem a alma gospel do blues para o rock. Já a longa “No Good Place For The Lonely” é um épico blues dos mais criativos e emocionantes que deverá desafiar os guitarristas a copiarem seu riff. Joe Bonamassa também executa um solo final tão impressionante que poderia ser emoldurado e colocado em uma parede. E se você sentir algo de progressivo na música dele, é porque há mesmo. Mas não o progressivo do Yes ou do Genesis, mas uma utilização mais interessante de efeitos de guitarra e dando uma liberdade para o tecladista Reese Wynans intervir nas canções que são pouco explorados no blues. A faixa-título “Blues of Desperation” é uma afirmação disso, mudando o andamento constantemente, fazendo com que a guitarra pareça apenas um arranhão sinistro durante os versos e solte riffs roqueiros no refrão, dividindo espaço com sons espaciais em sua metade final.

Embora o press release do disco diga que Bonamassa “reinventa” o blues, fica claro que não é isso o que ocorre no álbum. Ele ainda bebe nas águas do passado, seja de B. B. King, Buddy Guy, Gary Moore ou Stevie Ray Vaughan. Embora possamos sentir o peso do passado – e do legado, pois Bonamassa é o jovem que vai suceder toda essa turma, vai suceder Eric Clapton e Jeff Beck, Keith Richards e Jimmy Paige na guitarra blueseira – a música dele agora mais do que nunca olha para o futuro. Não há reinvenção, mas sim algo tão singular quanto: Bonamassa mostra sua própria expressão do estilo, agarra a guitarra com unhas e dentes para fazer algo com sua assinatura. Isso é motivo suficiente para justificar a importância do disco.

Foram necessários apenas cinco dias de gravação no mesmo estúdio de Nashville onde gravou o antecessor, Different Shades Of Blue (2014). Ao seu lado, na produção, estava novamente o experiente Kevin Shirley (produtor do Iron Maiden, Journey e Led Zeppelin). E se a percussão do álbum soa mais encorpada, é porque Shirley e Bonamassa concodaram em tocar com dois bateristas ao mesmo tempo, Anton Fig e Greg Morrow, trazendo maior pressão ao som base das gravações, o que ajudou a fazer com que o guitarrista e cantor pesasse um pouco mais a mão nos riffs e girasse um pouco mais também o knob da distorção e overdrive (como mostra a nervosa “Distant Lonesome Train”).

Mas isso não quer dizer que tudo seja pesado no álbum. Há diversas faixas mais caipiras ou mais baladas, como a suave “The Valley Runs Low”, a acústica “Drive” e a acelerada e divertida “You Left Me Nothin’ But The Bills And The Blues”. Mantenha o coração bem aberto para a valsa blueseira “What I’ve Know For a Very Long Time”, que tira um excelente proveito do timbre morno do Fender Rhodes e dos sopros do trio Paulie Cerra, Mark Douhit e Lee Thornburg.

Joe Bonamassa é o músico que aos 12 anos impressionou B. B. King e abriu um show do rei do blues. Portanto, qualidade técnica e feeling ele tem de sobra e nem entram em questão. Sobre a sua evolução artística e o quanto ele sabe diversificar sua expressão sobre um gênero musical já antigo e testado das mais variadas formas, o guitarrista dá sinais de ter encontrado, pelo menos neste disco, o entendimento de que não é preciso ser purista para ser bom ou melhor. Na verdade, são esses experimentos que mantém o estilo vivo e pulsante (vide o trabalho de Jack White com blues, country, rock e folk misturados e regurgitados de forma totalmente pós-moderna, nem sempre com limites claros). Não é apenas um grande disco autoral, mas um disco sem medo de ser moderno.

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2 comentários em “Joe Bonamassa – Blues Of Desperation (2016)

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