2016 Eletronica Indie Pop Resenhas

M83 – Junk (2016)

Nostálgico, M83 faz álbum que serve como gatilho de lembranças e emoções

Por Lucas Scaliza

“Você pode se divertir e chorar ao mesmo tempo”, disse Anthony Gonzalez sobre seu novo disco. É a melhor descrição de um álbum que seu criador poderia dar neste caso. Ao ouvir e prestar atenção às letras, a declaração mostra que Gonzalez, a mente por trás do M83, sabe exatamente o que criou.

Desde o começo, Gonzalez tinha consciência de que queria algo diferente do que havia feito nos seis discos anteriores. Sabia também que após o sucesso de Hurry Up, We’re Dreaming (2011) haveria muita expectativa no ar e muitos novos fãs esperariam, naturalmente, uma pegada parecida com a daquele grande (e excelente) disco. Bem, Gonzalez e o M83 não entregaram nada parecido com Hurry Up…, mas nos deram um novo trabalho para nos apaixonarmos. Diferente, mas tão bom quanto o anterior.

M83_2016-Andrew-Arthur
Foto: Andrew Arthur

Desde o começo, ele sabia também que rumo seguiria: buscaria nas décadas de 1970 e 1980 a vibe e alguns dos sons que poderiam construir aquelas atmosferas divertidas ou animadas na superfície, porém bastaria prestar um pouco mais de atenção à intenção dos acordes, da dinâmica e detalhes da letra para perceber que não eram, de forma alguma, faixas exatamente felizes (o single “Go!” é um exemplo disso). E dentro desse escopo, encontrou espaço para diversos estilos diferentes que seguem a mesma vibe e assim formam um todo muito coeso.

Junk é retrô e lembra muito o retrô estilístico de duas duplas francesas da melhor música eletrônica que o país tem feito nos últimos anos. A primeira referência e mais fácil de distinguir está no Daft Punk, cujo Random Access Memories (2013) é retrô com aquele senso de futuro nos maneirismos que a música deles sempre teve, como os vocais distorcidos eletronicamente (“Walkway Blues” é um bom exemplo). A segunda referência vem da dupla Air e seu instrumental eletrônico e sofisticado que não soa milimetricamente programado, mas quente e justamente como a música dos anos 70 e 80 (principalmente na trilha de As Virgens Suicidas, de 2000, e Pocket Symphony, de 2007).

A gravação das faixas foi feita por quatro mãos multi-instrumentistas. Anthony Gonzalez e o produtor Justin Meldal-Johnsen, que também o acompanha em turnê, tocam meia dúzia de instrumentos cada um, além de acumularem diversas funções diferentes, como direção de arte, design, produção e engenharia de som. Apesar das programações e da dose de música eletrônica, muita coisa que ouvimos é orgânica mesmo. E vintage, pois o estúdio utilizado por eles em Los Angeles estava abarrotado de guitarras, amplificadores, teclados e sintetizadores de diferentes épocas.

Tem mais teclados e sintetizadores e menos shoegaze, mas alguns elementos se mantêm. As músicas têm ótimos crescendos e bastante ênfase nos instrumentos. Se dos anos 90 até hoje os solos perderam bastante espaço na música pop, Gonzalez os recupera em Junk de uma forma extremamente bem-vinda, com bom gosto e não nivelando a composição por baixo ou como se fosse apenas um amontoado de refrãos. Os solos são variados e todos acrescentam algo à música, nunca soando nem obrigatórios e nem descartáveis.

“Do It, Try It” é totalmente retrô, dos slaps no baixo às batidas eletrônicas e o piano house. “Go!” é construída com a repetição de palavras e frases curtas, quase como uma colagem. Além do ótimo refrão, tem um solo de guitarra de Steve Vai que garante um dos melhores momentos instrumentais do disco. “Road Blaster”, do lado mais animado do disco, é outra que desce fácil e tem tema que gruda fácil na cabeça, mas não soa imbecil. Direta e dançante, outro dos pontos mais altos dessa nova empreitada do M83.

A inocente “For The Kids” (vocal de Susanne Sundfør) passaria facilmente como uma canção antiga e não lançada em 2016 e conta com uma narração feita filha de Medal-Johnsen, a mesma dona da voz infantil que figurou em “Reconte-Moi Une Historie”, de Hurry Up, We’re Dreaming. “Atlantique Sud” é sua principal “rival”. Simples e bonita, é como um cartão postal de um local que costumávamos frequentar na infância e que não visitamos mais, mas encontramos o cartão, amarelado pelo tempo, nos fazendo reviver todos os sentimentos daquela época, quando ainda fazíamos programas na companhia dos pais e dos irmãos. Mas se é a nostalgia que dita o tom do álbum, “Sunday Night 1987” é sua expressão máxima. Até mesmo o solo de gaita ao final nos remete a algo que vivemos e que já perdemos, mas acessamos novamente ao entrar em contato com a música. Para quem tem 30 anos ou mais, Junk pode ser um gatilho de memórias e emoções.

Há menos vocais de Anthony Gonzalez dessa vez, abrindo espaço para alguns convidados. Além dos já citados Vai e Sundfør, a francesa Mai Lan canta em quatro faixas; Beck está em “Time Wind”; e o companheiro de banda Jordan Lawnor empresta a voz para “Walkway Blues”. Nenhum deles rouba a cena e parecem totalmente integrados ao intento do projeto, sem estrelismos.

Mas se Gonzalez sabe dividir com outras vozes as boas composições, guardou a melhor faixa (ou talvez a mais pessoal) para si. A melancólica “Solitude” é uma das composições mais emocionantes de Junk. A forma como seus versos são construídos dão a ideia de uma incompletude no eu-lírico que facilmente impacta e se conecta ao ouvinte. O instrumental é valorizado para criar mais drama. Começa com um solo de sintetizador lá pela metade da faixa e termina com outros sintetizadores, que imitam orquestrações, criando um crescendo que coloca muito mais pressão e tensão na música.

Como a busca pelo passado domina o modus operandi de Gonzalez e Meldal-Johnsen, o cuidado com a atmosfera do trabalho torna-se essencial para envolver o ouvinte. E aí faixas instrumentais – beneficiadas por diversos timbres de teclado, piano e sintetizador – ganham vida e forma na divertida “Moon Crystal”, na nebulosa “The Wizard”, em “Tension” e na climática “Ludivine”, já preparando terreno para o final de Junk.

O nome do disco, Junk (lixo), é uma declaração de intenção para o M83. Totalmente desconectado de diversos artistas atuais (Skrillex e Diplo incluídos aí), Gonzalez não está a fim de procurar o som do futuro ou de tentar fazer algo totalmente inédito (o que ele não acha que seja mais possível). Ele e Justin abraçaram a nostalgia e buscam o que era interessante em suas juventudes. Assim, o “lixo” do título refere-se a como grande parte do público trata a música atualmente. Escolhem uma ou duas músicas de um álbum, colocam em uma playlist e descartam todo o resto. É um consumo fast food da arte musical que não dá chances e muito menos tempo para que o trabalho e sua intenção artística cresçam dentro do ouvinte.

Mas por mais que voltem aos anos 70 e 80, há uma consciência de que se volta àquela época tendo conhecimento total do que era feito, do que já haviam superado e como aquela música se transformaria. Dessa forma, ele tem controle do que vai soar datado, e até clichê, e de como inserir elementos contemporâneos para que a música pareça fresca.

A saudade parece ser um tema subjacente a tudo que o M83 faz nos últimos anos. Se não falam abertamente sobre isso nas letras, deixa muito claro por meio desse sentimento, expresso na recuperação estética musical de décadas passadas, que algo está muito errado no mercado musical atual do qual a banda faz parte. Esteja Gonzalez certo ou não, Junk é honesto. Depois do sucesso e de ter visto sua música em comerciais e em filmes conhecidos (como em A Culpa É das Estrelas), ganhou credibilidade para fazer o que bem entender e trabalhar com quase qualquer um (vide Beck e Steve Vai). Mas ele não tomou o caminho mais fácil, não se repetiu e nem vai dar o que o público esperaria ser a parte 2 de Hurry Up. Isso seria fazer música para quem consome música, e não par quem vai fruí-la.

Junk não é arrebatador como seu antecessor, mas é tão atemporal quanto.

m83_2016

4 comentários em “M83 – Junk (2016)

  1. Rdisintegration@hotmail.com

    M83 é incrível! Genial, único!

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