2016 Funk Jazz Resenhas

Yellowjackets – Cohearance (2016)

O fusion jazz acessível que pode ser sua porta de entrada no jazz instrumental

Por Lucas Scaliza

Lançando discos regularmente desde 1981, o quarteto Yellowjackets é a banda perfeita para você aprender a ouvir e a gostar de jazz e fusion instrumental. Caso já tenha tentado curtir o estilo começando diretamente com Miles Davis, John Coltrane, Duke Ellington, Thelonious Monk ou qualquer um dos clássicos, mas se viu diante de uma música que parecia quebrada demais, quase impenetrável a princípio e difícil de manter-se interessado o tempo todo, os Yellowjackets possuem a medida perfeita de ritmo, melodia e improviso para que você curta todos os elementos do jazz e consiga acompanhar as suas estruturas.

Essa abertura sonora é tanto um grande chamariz para a banda como também poderá ser um ponto negativo de Cohearance. Longe de ser uma música simples e longe de não parecer sofisticado, mas a estrutura das faixas do álbum são bastante previsíveis, não dando ao estilo e ao trabalho significativas contribuições de inovação, nem viradas de tirar o fôlego e nem grandes variações de dinâmica que possam destacar uma outra faixa. Contudo, a qualidade técnica de seus músicos continua maravilhosa, sempre entregando ótimos temas e ótimos solos, sem falar nos trechos fusion em que os fraseados exigem uma precisão matemática de execução em todos os instrumentos para funcionarem (como é o caso de toda a faixa de abertura “Golden State”, em que a disciplina é mais importante que a expressão).

YellowJackets_2016

Assim, temos a seguinte equação: Cohearance é jazz do bom e daquele tipo que não é easy listening, mas ainda assim flui bem pelos ouvidos tanto de um iniciante quanto no de alguém mais experiente. E embora não seja um disco muito transgressor ou inovador em sua forma, suas faixas têm ideias que valem a pena. Em “Guarded Optimism”, por exemplo, bateria e baixo se mantém acelerados no plano de fundo durante metade da faixa. Percebemos a impaciência deles, mas sem que seja preciso que seus sons emerjam ao primeiro plano. Enquanto isso, piano e sax fazem solos entrecortados. Quando a faixa finalmente se aquieta, temos a impressão de que se tornou lenta, de que os BPMs baixaram. É questão de tempo até que bateria e baixo manipulem essa impressão novamente. Uma forma inteligente de brincar com a dinâmica.

No piano e nos sintetizadores temos o comandante desta trupe, o membro-fundador Russell Ferrante, que geralmente abaixa as teclas do piano para improvisar. Will Kennedy também usa os sintetizadores, mas seu instrumento principal é a bateria. O novato australiano Dane Alderson responde pelo baixo. Bob Mintzer é a figura mais presente, solando, improvisando e executando diversos temas principalmente com o saxofone, mas também toca flauta, clarinete baixo e EWI (instrumento de sopro elétrico que pode ser ouvido em “Inevitable Outcome”).

“Anticipation” é uma música muito bonita que dá a oportunidade de a banda se segurar um pouco e investir em melodias. Antes de começar a improvisar no terço final da faixa, Mintzer mantém seu saxofone criando linhas melódicas que facilmente poderiam ser guias de voz. Até mesmo o solo de baixo de Alderson é mais sentimental do que virtuoso. “Eddie’s In The House” e “Fran’s Scene” trazem mais suingue ao disco, sendo que a segunda parece até música brasileira. Não dá para descartar todo o histórico da banda em fundir jazz e funk, afinal de contas.

Das 10 músicas do álbum, nove são composições originais da banda. A ótima “Shenandoah” é uma canção folclórica que o quarteto resolveu reinterpretar como jazz (e foi usada no último capítulo da série The Newsroom). O grupo executava as novas músicas durante seus shows, como se as estivessem ensaiando, descobrindo como soavam e qual seria o caminho natural de desenvolver cada uma. Quando entraram em estúdio, todas as músicas estavam praticamente prontas. Em menos de dois dias gravaram tudo, coisa que poucos fazem hoje em dia (e parece que quanto maior a banda, mais tempo levam e nem sempre o resultado é tão expressivo – e nem a música é tão complexa).

Mais do que uma dica de bom álbum de 2016, fica a dica de uma banda que há 35 anos tempera seu fusion com funk e R&B e que pode ser a sua porta de entrada no jazz instrumental, preparando o ouvinte para trabalhos mais densos como os contemporâneos Antonio Sánchez, Kamasi Washington, Ibrahim Maalouf, Scott Henderson, sem falar nos clássicos do estilo.

yellowjackets_2016_2

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2 comentários em “Yellowjackets – Cohearance (2016)

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