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Beyoncé – Lemonade (2016)

Cercada por homens produtores e compositores, Beyoncé quer falar às mulheres negras do mundo todo

Por Lucas Scaliza

Se podemos nos conectar com álbuns (e histórias, seja lá em que mídia se apresentem) que nos revelam a intimidade de seus compositores e suas relações com o mundo ou com outras pessoas, ao ponto de sentirmos o que essas pessoas sentem (afinal, somos todos seres humanos, somos dotados de empatia), o que dizer de um álbum que além da história pessoal tenta pintar um quadro social um pouco maior, partindo de situações privadas para falar sobre o sofrimento coletivo de milhões de pessoas?

Beyoncé volta aos holofotes com mais um disco surpresa fazendo exatamente isso: tenta ser relevante social e politicamente partindo de sua condição de 1) mulher, 2) casada, mas desconfiada e 3) negra. O resultado é Lemonade, um disco que dá mais um passo na escalada artística da cantora, propondo uma diversidade estética que desafia o pop e o R&B convencional de seus primeiros discos, mas que não deixa de lado a necessidade de ser comercial também. Ela não está indo contra o mainstream. Ela permeia o disco de faixas mais desafiantes e, ao mesmo tempo, também entrega canções mais simples e diretas. Contudo, absolutamente todas as 12 canções do álbum são únicas e contribuem com o storytelling e enriquecem o trabalho.

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A história de Lemonade parte da desconfiança de que o marido de Beyoncé Knowles Carter, Jay Z, a trai. Ou que ele a tem traído ao longo dos anos. De forma bem intimista e com uma introdução sofisticada em ritmo e harmonização, “Pray You Catch Me” estabelece o jogo em que ela desconfia ou sabe de algo enquanto ele age como se a esposa fosse única. Embora as faixas tenham equipes diferentes de compositores e produtores, algo comum no mundo endinheirado do R&B e do pop, Beyoncé é a produtora executiva do disco, o que quer dizer que ela está bancando os custos do projeto e supervisiona as decisões criativas. Ou seja, diferente de várias/os popstars que pululam por aí, tudo o que entrou no álbum teve seu aval. Sendo assim, é interessante notar que ao mesmo tempo em que não há ninguém acima dela impondo um estilo, ela deixa que seus convidados/contratados expressem suas características na música.

Outro ponto venerável em faixas como “Hold Up”, “Don’t Hurt Yourself”, “Sorry”, “6 Inch” e “Freedom” é ver Beyoncé um tanto ameaçadora e mais visceral. No vídeo para “Hold Up”, enquanto reflete sobre a possível infidelidade do marido, a mulher destrói carros com um taco de beisebol. “Don’t Hurt Yourself” é uma composição de Jack White usando samples da música “When The Levee Breaks”, do Led Zeppelin, como base. É poderosíssima e tem todas as características da música de White, desde a linha vocal até a utilização do baixo, do teclado e da bateria. E Beyoncé, principalmente quando canta “We just got to let it be, let it be, let it be, let it be, baby”, coloca a pressão de sua voz acompanhando a dinâmica da música, mostrando que é uma cantora versátil e que não usa os trunfos de sua voz a esmo.

“Sorry” é um eletro R&B que termina em um anticlímax musical, perdendo o balanço da primeira metade e apostando em batidas mais lentas e melancólicas. É quando Beyoncé e suas amigas mostram o dedo do meio, tocam o foda-se e parecem que não irão mais aceitar a situação. É a partir daqui que o discurso de Beyoncé poderá ter diferente aceitação entre quem acompanha sua história. A princípio, tudo leva a crer que ela quer que as mulheres deixem de aceitar o que seus parceiros fazem e que as colocam em situações desconfortáveis, complicadas ou erradas (dependendo do que cada uma acha que é errado, é claro). Na faixa “Love Drought” ela reforça como os dois juntos são fortes e fazem parte da vida um do outro, e como juntos poderiam voltar a ter amor genuíno. “Sandcastles” é a balada e a música mais convencional do álbum, no entanto tem uma performance vocal mais crua de Beyoncé que a faz valer a pena. O conteúdo é uma aceitação da continuidade da relação com Jay Z, sabendo dos erros dele e os aceitando, mas seguindo em frente. Não à toa a música seguinte é a bela “Forward”, parceria com o inglês James Blake. (Sobre essa conclusão da história, falaremos mais à frente).

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Com participação de The Weeknd, Lemonade conta com a boa “6 Inch”, canção em que Beyoncé defende a profissão de stripper como metáfora para que toda mulher tenha sua profissão, carreira, sua própria renda e orgulho do que faz, independente do qual seja o emprego ou ocupação. A música parece pronta para explodir a qualquer momento, mas nunca deságua em um refrão poderoso, segurando a tensão. “Daddy Lessons” é um acerto de contas com seu pai, que já foi seu empresário. Como passou a infância no Texas, a música é um country, o primeiro de sua discografia. Bastante acessível e com vocais bem R&B, acaba sendo um country apenas de superfície. Divertida e acessível, mas não inovadora. Na letra, a cantora lembra as lições que o pai lhe deu sobre seu forte e o alerta sobre homens que só tirariam proveito dela. Dentro do storytelling do álbum, é a faixa que liga o passado e o presente da protagonista, assim como congrega o problema com os dois homens com passagens mais significativas por sua vida.

“Freedom” é a potente contribuição de Kendrick Lamar. Se em The Life of Pablo ele foi responsável pela música mais orgânica e bombástica do álbum de Kanye West, com Beyoncé ele cria outra pedrada. Uma linha de baixo deliciosa e energia pura. No começo do filme de Lemonade, há um interlúdio em que é dito que ninguém sofre mais do que uma mulher negra. “Freedom” é a música que tenta empoderar e não deixar o orgulho dessa mulher negra desvanecer. O preconceito racial puro, independente do gênero, é outro assunto abordado na canção, principalmente na parte vocal de Lamar.

Como já dito, o disco não nega e nem se desvia do mainstream, preservando seu potencial comercial. Ainda que não possua nenhuma faixa que possa realmente ser uma barreira impenetrável para os padrões do pop e do R&B, o que Beyoncé deixa de lado é a vertente mais dançante de suas composições. Não espere encontrar singles fáceis como “Single Ladies (Put a Ring On It)”, “Run The World” ou “Love On Top”. E mesmo as músicas que são mais acessíveis mantém uma pegada parecida com as do trabalho anterior, Beyoncé (2014), também um álbum visual que marcava um passo além na discografia da cantora, apostando em uma produção mais artística e menos baladeira. Mas Lemonade vai além, tanto no conceito musical quanto no visual.

É muito difícil julgarmos as relações íntimas de uma pessoa que, no caso da música, trata seu álbum como uma confissão compartilhada com os ouvintes. Mas quando a mensagem tenta abarcar um público maior e tem a pretensão de se estender a outras pessoas nos sentimos no direito de participar e julgar se aquilo é válido ou não para nós e para outros. Azealia Banks – mulher negra, rapper, cantora, compositora e feminista também – foi uma das vozes que, em meio a tantos elogios ao Lemonade – fez críticas pertinentes por meio do Twitter.

Azealia disse que a narrativa da mulher negra de coração partido em que a Beyoncé investe é “a antítese do feminismo”. E fez o seguinte comentário: “Faz anos que você canta sobre esse negão [Jay Z] e ele continua te enganando. Isso não é força, é estupidez”. Para ela, “mais dor e mais sofrimento por um homem” não é o que a discussão sobre as negras precisa no momento. Para completar, Azealia diz que a turnê da Beyoncé é cara demais para as negras participarem em peso e que, embora todas as mulheres que apareçam no filme de Lemonade sejam negras, a grande maioria é o que ela chamou de “lightskinned” (o que chamaríamos em português de “mulata”).

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Apesar das críticas – todas válidas, aliás –, não há como diminuir o poder do álbum e do discurso de Beyoncé. Como trata-se em grande parte de uma narrativa pessoal, ela, como mulher e apesar de todo o feminismo, decidiu não se fazer de besta frente ao que seu marido supostamente tem feito, mas manter a relação com ele. No final, é o velho mote do “o amor pode superar tudo”, que é tão poderoso quanto um clichê. Se Beyoncé fez sua escolha, que cada ouvinte possa fazer a sua baseada em sua própria experiência e levando em conta as próprias circunstâncias.

Bey virou uma referência para as mulheres (de todas as cores, de todos os partidos políticos e de todos os estilos musicais). Se antes era uma máquina de fazer singles e hits, passou a usar o sucesso para poder sofisticar sua própria música e falar em nome das mulheres. Como dona da carreira e produtora executiva do álbum, ela comandou uma quantidade enorme de homens (também famosos e poderosos, cada uma a seu modo) na confecção do projeto. Por meio de Jack White, colocou o quarteto Led Zeppelin para “trabalhar” para ela. O produtor Mike Dean (famoso por trabalhar com Kanye West) é o responsável pelas batidas e atmosfera em “Love Drought”. Até Father John Misty co-escreve a letra de “Hold Up”. Os baixos marcantes de “Freedom” e “All Night” são do competente Marcus Miller, egresso do jazz e da música instrumental. Sem falar que é apenas com homens que ela divide alguns vocais: Kendrick Lamar, The Weeknd e James Blake.

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Se The Life Of Pablo é um desbunde de samples porque Kanye West é um dos únicos com dinheiro suficiente para bancar os direitos autorais de todas as faixas que reaproveita, Lemonade é um projeto que só é possível para quem também tem muita grana. Apenas o sample do Led Zeppelin custa uma pequena fortuna, mas a participação dos nomes citados (entre tantos outros presentes) também não sai barato, assim como bancar toda uma produção audiovisual.

Política, pigmentação da pele, relacionamento e feminismo e feminilidade são os limões. A música e o filme são a limonada. Uma limonada premium. Artisticamente o valor está provado, inclusive fazendo com que Beyoncé alcançasse o topo das paradas pela sexta vez com o sexto disco. Agora é acompanhar o nível de influência do trabalho para saber se todo o e$petáculo preparado por ela (com boa música, veja bem) encontra a função social que almeja.

16 comentários em “Beyoncé – Lemonade (2016)

  1. Eu realmente estou muito chocada com esse texto. Talvez seja interessante convidar uma mulher – e se possível, negra – para que ela escreva sobre esse disco. Lamentável que a crítica trate o álbum todo como uma simples narrativa sobre uma possível traição. Ainda que com meu parco inglês, ainda que eu não tenha tido tempo de estudar todas as músicas e entendê-las para de fato poder falar sobre, estou perplexa com a análise rasa desse texto.

    Estava me esforçando para ler, juro. Mas parei em “embora todas as mulheres que apareçam no filme de Lemonade sejam negras, a grande maioria é o que chamaríamos em português de mulata.” e não é possível, que em 2016, com discussões sobre raça em todo lugar, o editor não saiba quão racista o termo “mulata” é.

    • Olá, Débora. Acho que houve um mal entendido. Vamos lá: o trecho que você destacou que contém o termo “mulata” não é meu, e sim parte do que a Azealia Banks disse sobre o filme de Lemonade. O termo em inglês que ela usa é “light skin” (pele clara em tradução literal, mas que não é o uso que se faz no português brasileiro para esse tom de pele negro mais claro).
      O texto não trata o álbum como uma narrativa sobre traição, e sim que esse é o mote que ela usa desde o início para falar de outras coisas. E TODAS as outras questões do disco estão presentes no texto, é só ler tudo e com atenção que verá as partes sobre mulheres no mercado de trabalho (por meio da metáfora em 6 Inch), o empoderamento em Don’t Hurt Yourself e Sorry, e até a parte política, muito presente no disco, mas principalmente em Freedom.
      Quando você puder ler as letras com atenção (e com tradução adequada, e não ao pé da letra) perceberá essas nuances todas. E se ler o texto novamente, vai ver que “social”, ” política” e “relevante” são outras palavras associadas ao Lemonade nesta análise.

      Obs: eu pensei em usar o termo “pele clara” no lugar de “mulata”, mas 1) não ia dar o sentido exato do comentário de Azealia e 2) foi a Azealia quem disse, e ela também usou a palavra nigga para se referir ao Jay Z. Você pode conferir as palavras exatas dela em inglês aqui http://www.gigwise.com/news/106656/azealia-banks-on-beyonce-lemonade-album-feminism-on-twitter-periscope#.VyCw9WWy0dc.facebook

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