2016 Indie Nacional Resenhas Rock

Valciãn Calixto – Foda! (2016)

Músico piauiense tem ótimas ideias, mas qualidade sonora é muito instável

Por Lucas Scaliza

O primeiro disco do jornalista piauiense Valciãn Calixto nos deixa entre a cruz e a espada. Se o conteúdo e as ideias são exatamente o título do trabalho (Foda!), a roupagem e a qualidade técnica de gravação nem sempre acerta, ficando um tanto aquém do que estamos acostumados. Se o som do álbum é garageiro e visceral, remetendo bastante aos anos 90, talvez isso se dê mais por conta das limitações de gravação e mixagem do que a real intenção do músico. Ainda assim, tem méritos.

Valciãn não está brincando em serviço e nem cantando sobre amor. Na verdade, ele canta e até convida pessoas para recitar histórias sobre amor, mas de uma forma muito diferente do esperado, colocando questões de identidade de gênero e sexualidade, família, violência e feminismo. Todas essas ideias são muito bem vindas e estão em total sintonia com o mundo. “Sobre Meninas e Porcos” é a história de uma garota vítima de pedofilia e que acaba sofrendo psicologicamente com os abusos. É uma paulada no ouvinte e a música funciona bem como background para o relato. E se mixagem e qualidade sonora é um dos grandes defeitos de Foda!, essa faixa parece uma das melhores equalizadas e produzidas. Mesmo quando o relato termina e a música instrumental continua, não parece que sofra com os timbres esgarçados e rachados.

Embora seja um disco de rock, com guitarras distorcidas e acordes bem sonoras, Calixto também encaixa arranjos da música nordestina em faixas como “Marcha Ranço” e “Agarrado à Minha Frustração”. A ideia é excelente e já vimos combinações desse tipo desde o Angra até Los Hermanos e Móveis Coloniais de Acaju, sem falar em discos da tropicália, mas a mudança de um ritmo específico para o rock soa brusco, quase como um Raimundos no início da carreira. Em “Teoria do Abacaxi” as várias partes da música estão melhor encaixadas, mas é justamente quando se canta a palavra “Abacaxi” que a música desanda. É um termo que não caiu bem e a sonoridade da palavra apenas piora o efeito.

valcian_calixto_2016._3jpg

O grande problema de Foda! é a parte técnica. Por um lado, parte da banda parece gravada de forma amadora, sobrando som e com timbragens bastante simplórias usando efeitos como phaser, flanger , tremolo entre outros de maneira bem rústica. Bandas como Tame Impala, Unknown Mortal Orchestra e até o brasileiro Headless Buddha (que também gravou tudo sozinho, praticamente em um quarto) investem em timbres justamente para conseguir a sensação do vintage. Não sei se foi a mesma textura de anos 60 e 70 que Calixto buscou no álbum, mas o que conseguiu foi uma timbragem mais crua e, de certo modo, menos lapidada.

A voz de Calixto funciona melhor em registros graves e para notas de curta duração. Em diversos momentos fica claro que ele desafina e não tem técnica de respiração para conseguir soltar os fonemas sem que pareçam tropeçados. A melhor saída nesse caso seria ele se manter dentro do registro vocal que sua voz é capaz de dar conta. A faixa “Engomando a Calça com Ednardo”, um rock com música brega, é um exemplo de bom trabalho vocal de Calixto e, veja só, da mixagem também. A engraçada “Rupy”, sobre menstruação, é outra que mostra vocal adequado, além de boa linha de baixo, bateria e piano. A guitarra solo também está bem timbrada, sem excesso.

Efeitos sonoros e apenas duas guitarras criam toda a atmosfera da longa “Núcleos de Um Romance Engavetado”, outro acerto de Calixto. Sem cantoria, temos apenas relatos de abusos nas vozes de Heitor Matos (banda Cianeto), Josiel Santos (Flores Radioativas), Ronnyel Seed, João Pedro (Cidade Estéril) e do escritor Agostinho Torres, todos integrantes do coletivo TrisTherezina, na capital do Piauí. Todos os contos valem a pena e são universais, histórias que são do Brasil e se repetem em qualquer outro lugar do mundo.

“As Incursões de Marco Polo pelo Interior do Piauhy” é a balada que fecha o disco. É como se fossem três músicas em uma, já que a bateria crepita e conflita com o dedilhado do violão e com os strums da guitarra. O baixo tenta fazer a ligação entre eles, mas também acaba criando uma linha melódica própria. É uma forma bastante interessante de montar a canção, mas que prejudica sua fluidez, não sabemos se nos embalamos pelo baixo, pela voz, pelo ritmo ditado pela bateria ou pelo dedilhado.

Desse modo, Foda! é um trabalho que, como álbum, carece de maior estabilidade na parte técnica. As ideias de Valciãn Calixto e o retrato do Brasil e do Piauí contemporâneo que faz estão irrepreensíveis, mas o som precisa estar em pé de igualdade com essas ideias (ou pelo menos seguir um padrão de qualidade) para ser mais bem aceito por um número maior de pessoas. Como músico e compositor totalmente independente, não há erro ou falha no disco que desabone o esforço e a intenção de Calixto. Dono do projeto, o artista tem a prerrogativa de apresentá-lo como quiser e como puder. O que falta ao piauiense não é assunto e nem criatividade, mas acesso.

valcian_calixto_2016_2

Anúncios

0 comentário em “Valciãn Calixto – Foda! (2016)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: