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Radiohead – A Moon Shaped Pool (2016)

Um trabalho magistral de harmonia e camadas etéreas que insistem em desafiar nossa certeza

Por Lucas Scaliza

Desde OK Computer, cada novo disco do Radiohead é um novo capítulo não apenas para o quinteto de Oxford, mas também para a história da música pop. A cada disco dão um passo adiante sem olhar para trás e sem pensar o que é que podem repetir para continuar agradando o público. Com Thom Yorke, Jonny e Colin Greenwood, Ed O’Brien e Phil Selway o pensamento é sempre o que mais podem fazer para continuarem relevantes para si próprios, para a música, para o público. Para uma banda que desafia rotulações há 16 anos, cada álbum se tornou, para nós, a espera do inesperado.

Diferente de In Rainbows (2007) e The King Of Limbs (2011), o nono disco do Radiohead não teve a pretensão de inovar em sua forma de lançamento, mas só fomos conhecer o nome da obra horas antes de ser liberado: A Moon Shaped Pool. São 11 faixas bem planejadas e maduras, sendo que metade delas já eram conhecidas do público por meio de apresentações ao vivo. Contudo, estão repaginadas para funcionar dentro do contexto sonoro do novo trabalho.

Há muitos sons abstratos em A Moon Shaped Pool, muito mais do que em qualquer outro disco dos ingleses, chegando a lembrar o belo Valtari (2012), do Sigur Rós. Além dos elementos que já conhecemos como parte do som do Radiohead (incluindo aí o uso de sintetizadores e ondas martenot), eles usam muito o piano e orquestrações reais gravadas pela London Contemporary Orchestra. Para uma banda que já foi do eletrônico ao jazz fusion, do minimalismo às intrincadas passagens rítmicas sem demarcação de tempo, pode parecer facilmente que a cada trabalho fica mais difícil propor algo novo. Porém, mesmo que leve algum tempo, é possível sim usar o mesmo referencial musical de maneiras novas e alternativas e ainda por cima ter o que dizer.

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A Moon Shaped Pool a princípio parece que vai na direção sonora de Kid A (2000). Não demora para percebemos que há muito de Hail To The Thief (2003) e, pensando bem, alguns elementos análogos do disco anterior também. Mas oras, o Radiohead não tenta mudar a perspectiva de sua música, já que a perspectiva da banda é seguir explorando novas sonoridades, arranjos e formas musicais. É o público que talvez se apegue mais ao que já foi mostrado e usa isso como perspectiva, perdendo o real referencial da questão.

Quem esperava um álbum com mais guitarras e mais rock (o problema do referencial) é surpreendido por pianos, violinos e teclados. “Burn The Witch” tem um arranjo que muito provavelmente foi criado com batidas secas e fortes numa guitarra, mas apresenta cordas de uma orquestrada executando toda a harmonia. E não de maneira convencional, já que é a madeira dos arcos de violas e violinos que tocam as cordas dos instrumentos, uma técnica da música erudita chamada col legno.

“Burn The Witch”, uma música tensa de acordes simples, tem múltiplas referências e múltiplas camadas de interpretação. O clipe ao estilo de Trumpton (série infantil inglesa do anos 60) termina claramente inspirado pelo filme inglês O Sacrifício (The Wicker Man, de 1973) e também serve para fazer uma referência a Donald Trump, o candidato conservador do Partido Republicano dos EUA cujas propostas são retrógradas e fascistas. No entanto, foi dito que o vídeo é uma alusão à situação dos refugiados do Oriente Médio na Europa, fazendo com que a população local, em busca dos culpados pelos problemas de sua sociedade, inicie uma verdadeira caça às bruxas que se perde em medo e paranoia. A conformidade com que os cidadãos fingem não ver o que está acontecendo ou preferem compactuar com o sistema também estão na canção e no clipe, como ecos do clássico 1984 de George Orwell. Não é à toa que a orquestração fica mais melódica e vivaz justamente no verso “Abandone toda a razão”.

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“Daydreaming” ganhou seu belo vídeo dirigido pelo cineasta Paul Thomas Anderson (PTA) e os fãs já espalham teorias que vão desde uma alusão ao Mito da Caverna de Platão até ao livro A Caverna de José Saramago. Há quem diga que a letra refere-se à separação de Yorke em 2015 que, de seus 47 anos de idade, viveu 23 ao lado da ex-mulher Rachel Owens, o que explicaria o verso ao contrário ao final da canção (que acredita-se que seja ele dizendo “metade da minha vida”). É a música que dá o tom de todo o resto do trabalho incluindo em sua mixagem e estrutura diversos sons cintilantes e etéreos e até passagens invertidas. Por baixo das teclas do piano ouvimos um violão bem discreto que parece ter sido gravado em um aquário.

A ótima “Decks Dark” não utiliza é a primeira a colocar guitarras com um nível mais elevado de destaque, mas seu som ainda deve muito ao piano e a ruídos cintilantes de fundo (que dão a continuidade ao clima etéreo de “Daydreaming”). A orquestra londrina está presente na forma de um coral. É uma típica faixa do Radiohead, mas propriamente vestida com os véus e transparências de A Moon Shaped Pool. Especula-se que a letra seja um relato pessoal de Yorke sobre o término de sua relação.

Embora Thom Yorke seja o responsável pelas letras e também quem entrega as primeiras ideias para as músicas do Radiohead, percebe-se uma grande influência do guitarrista e multi-instrumentista Jonny Greenwood ao longo de todo o álbum. As orquestrações, as modulações harmônicas e as dissonâncias são alguns dos elementos que reconhecemos na produção de Greenwood para trilhas sonoras dos filmes Sangue Negro, Vício Inerente e O Mestre, todos dirigidos por PTA. Ainda que conceitos e ideias partam de Yorke e que todos os membros desenvolvam suas partes, o resultado final soa como se o guitarrista estivesse ao lado do produtor Nigel Godrich na hora de decidir como cada faixa seria montada.

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A presença de Greenwood parece nítida em faixas como “Full Stop” e “Glass Eyes”. A primeira tem uma introdução com orquestra e sintetizadores psicodélicos que criam uma vibe pesada e dissonante. A percussão ganha reforço do baterista Clive Deamer (Portishead) para ganhar uma cara mais eletrônica. Quando Yorke canta “A verdade vai foder você” (Truth will mess you up), a faixa cresce com toda a banda tocando junta e assinalando mais um momento político e pessimista na música do Radiohead, voltando à tensão de “Burn The Witch”. O modo como as guitarras são usadas, pescando as notas, é bem característico do Radiohead a partir de Hail To The Thief. Já “Glass Eyes” usa apenas piano, orquestra e a voz de Thom Yorke, fazendo desta uma faixa que se aproxima muito do modo como Björk tem apresentado sua música ultimamente, na fronteira do pop com o erudito. Se excluirmos o vocal, o que sobra é uma pequena peça de música clássica contemporânea. E uma das boas, vinda do fundo do mar, trazida pela maré.

Mas é na magistral “Tinker Taylor Soldier Sailor Rich Man Poor Man Beggar Man Thief” que Greenwood tem sua assinatura garantida. Um pouco jazzística e cheia de camadas e pianos, orquestrações vivazes e ameaçadoras que são pura trilha sonora. A orquestra nos leva aos céus e, lá em cima, nos encontramos com vozes inquietas que nos arremessam de volta ao chão.

Em outras faixas, sentimos melhor a presença de Yorke. “Desert Island Disk” – brincadeira com o nome do programa Desert Island Discs da BBC 4 – é uma música com violão e baixo em loop, entrecortados por camadas de sintetizadores. É um folk para noites sem fogueira, quando temos apenas a lua e as estrelas para nos guiar. Mostra o tanto o lado contemporâneo da banda na forma como encaixa suas partes (a aura criada pelos sintetizadores se desfaz de repente) como a qualidade técnica do violão.

“The Numbers” é outra música que deveria ser simples a princípio mas passou pelo filtro Radiohead e ganhou contornos menos óbvios. A voz e o ciclo da guitarra rítmica mantêm a base folk da canção, mas bateria e baixo tratam de perverter essa noção, assim como o uso do piano mais abstrato. E se a música, como outras do disco, viaja por paragens harmonicamente estranhas, ela volta ao seu ciclo natural de acordes depois de um tempo. “The Numbers” tem uma série de camadas diferentes que se aglutinam, fazendo com que voz, piano e orquestração sejam quase identidades independentes. Com claro fundo político, a letra parece falar do perigo do aquecimento global, causa em que Yorke está engajado há anos.

No repertório da banda desde 1995, “True Love Waits” já foi apresentada ao vivo diversas vezes. Apesar das versões já ouvidas, esta balada de Yorke tem um gosto amargo que se encaixa muito bem à estética geral de A Moon Shaped Pool. Uma velha conhecida que agora ganha uma roupagem adequada, fechando o disco coroando o protagonismo do piano e de sons abstratos.

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E caso você não tenha prestado atenção às batidas de Selway, “Identikit” e “Present Tense” estão aí para mais uma vez comprovar a versatilidade deste baterista. Sem exageros, a percussão em “Identikit” coloca mais ginga no 4/4, enquanto Ed O’Brien e Jonny criam texturas com as guitarras e sintetizador. A guitarra de Jonny vai ganhando espaço na mixagem aos poucos e termina fazendo o solo mais esquisito que ele já fez. “Present Tense” é um samba, com violões a princípio soando como bossa, mas aos poucos Greenwood e O’Brien enveredam por dedilhados diferentes que se chocam, criando o mesmo efeito de abstração que o piano criou em outras faixas do disco. Escute com atenção e verá diversos versos sendo repetidos como samples ao fundo, indo e vindo como fantasmas. Na segunda metade, um coral preenche a canção onde já esteve a orquestra e onde estará em breve o sintetizador. Uma das faixas mais interessantes de A Moon Shaped Pool.

Apesar de buscar novas formas de expressão, ainda estão presentes as características de composição do Radiohead que são velas conhecidas dos fãs. Os glissandos (técnica para conectar duas notas que foi popularizada pelo “Firebird” de Igor Stravinsky) que utilizaram tão bem em “Pyramid Song”, do Amnesiac (2001), estão em diversas passagens do álbum, como na segunda parte dos versos de “Burn The Witch”. Falando na bruxa, é interessante lembrar como a banda há bastante tempo usa tons e acordes maiores com esperteza para criar efeitos menos comuns. “Burn The Witch” se baseia na passagem de Fá sustenido maior para Mi maior, resolvendo-se depois em Si maior, utilizando assim a lógica dos acordes e das notas pivôs, em torno das quais toda a canção se estrutura. Podemos lembrar também como os acordes maiores podem soar tristes no Radiohead, como a mudança de Sol maior para Si maior à “Creep” – lá do primeiro álbum – dando um senso de grandeza ao mesmo tempo em que se trata de uma canção angustiante. Ou então “Airbag” de OK Computer cujo tom é Lá maior, mas a inclusão de Fá maior e Dó maior na harmonia levam a música a conter o sentimento melancólico que é característico da escala menor. Ou então pensemos em uma música como “All I Need”, do In Rainbows, que se mantém comportada até o terceiro ato, quando a dissonância de Greenwood estoura em nossos ouvidos de uma maneira bastante sentimental e sofisticada. Como curiosidade sobre as passagens tocadas ao contrário em “Daydreaming” (que é outra canção que utiliza muito a lógica das notas pivôs), lembremos de “Like Spinning Plates”, também do Amnesiac. Thom Yorke aprendeu a cantar ao contrário a melodia de uma canção nunca utilizada da banda e encaixou uma nova letra.

São esses elementos que compõe a assinatura e a estética do Radiohead. Mais pianos e orquestras ou mais guitarras e percussão são decisões criativas que mudam a expressão sonora de suas composições e dão diferentes caras aos seus álbuns, mas no núcleo da criação as técnicas ainda são as mesmas. Voltamos à questão da criatividade: Thom, Jonny, Colin, Ed e Phil dispõem das mesmas armas, mas sabem usá-las de um modo diferente do que qualquer outra banda que já foi rotulada como “rock” teve ousadia de tentar. Outro detalhe importante: com 11 faixas e 52 minutos de música, o Radiohead faz faixas ricas em texturas, ideias e viradas harmônicas com apenas 4 minutos. A maturidade composicional se revela também nessa forma fazer as faixas terem mais substância e menos gorduras.

É mais um álbum noturno, difícil de digerir e que vai exigir a atenção do ouvinte. Não é um disco de rock, mas talvez seja um disco com rock, como tem sido o caso com a maioria de seus lançamentos neste século 21. A música abstrata nos leva para o campo do etéreo, da desmaterialização. As letras de Yorke, como o clipe de “Daydreaming”, não tem mensagens claras e diretas. A Moon Shaped Pool é pessimista em seu espectro político, mas canta sobre o amor também – ou melhor, sobre a ausência de amor. Isso amplia nossas incertezas e desafiam a confiança que temos no mundo e não faz da banda e do álbum um porto seguro para quem precisa de respostas. E, novamente, não sabemos como a banda vai reproduzir tudo isso ao vivo. E menos ainda quando e como apresentarão um trabalho futuro.

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4 comentários em “Radiohead – A Moon Shaped Pool (2016)

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