2016 Jazz MPB Nacional Resenhas

Philippe Baden Powell, Rubinho Antunes, Daniel de Paula, Bruno Barbosa – Ludere (2016)

Do lúdico à ilusão

por brunochair

Gravado em apenas uma tarde em estúdio, Ludere foi pensado por Philippe Baden Powell (piano) e Rubinho Antunes (trompete). A ideia do álbum surgiu quando Philippe passava alguns dias de férias no Brasil, e ele e Rubinho (amigos de longa data) começaram a trocar impressões sobre suas últimas composições. Perceberam que havia ali algo próximo entre elas, que poderia resultar em um disco, um conceito. Ludere. Para dar conta deste sério desafio de transformar música em ludismo, convidaram Daniel de Paula (baterista) e Bruno Barbosa (contrabaixo).

Ludere, no latim clássico, traz duas significações: uma delas (a mais comum) é a do jogo, da brincadeira, portanto do lúdico; a outra possível é a de enganar – mas não a enganação da qual estamos tão acostumados e fartos, mas algo que também remete àquela travessura de criança, como a de provocar a ilusão, esconder-se e pregar um susto em alguém, ou qualquer outra situação que envolva a troça, o riso fácil.

O desafio destes quatro músicos foi desenvolver uma sonoridade que pudesse remeter ao lúdico, ao Ludere. Um desafio que se alcança brincando? Não, não. Fruto de muita seriedade e dotados de experiência em jazz, música experimental e incontáveis estilos, os músicos Philippe Baden Powell, Rubinho Antunes, Daniel de Paula e Bruno Barbosa desfiam e jogam através de ritmos, acordes, harmonias e improvisações.

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Porém, quando se ouve o disco e se tem a possibilidade de assisti-los ao vivo, somos tomados pelo espírito lúdico que está nas sete canções do álbum. A seriedade alcançou o lúdico? Sim. O que se vê são quatro músicos brincando no palco, divertindo-se, fazendo o que gostam e levando o público à mesma comunhão. Aos ouvintes, cada canção do álbum funciona como o desembrulhar de um presente – a expectativa do que seja, a surpresa, o momento de saborear o novo brinquedo pelos instantes que parecem ser o sentido de tudo.

Ao mesmo tempo, Ludere tem seus artifícios de ilusão. Sobretudo ao vivo, o deslumbramento que estes quatro músicos conseguem aplicar na plateia tem algo de mágico. O tema principal, o revezamento no protagonismo dos solos, o desenvolvimento prazeroso, o inesperado do clímax, os fins de música que anunciam estar chegando ao fim e acabam por não continuar (“Garfield”), eis alguns dos artifícios do álbum.

Sete são as músicas que compõem o disco. “Garfield”, já mencionada, foi composta por Philippe Baden Powell para sua filha. Para que ela começasse a se interessar por jazz, afinal. “Elegy For Brad” é uma lindíssima canção, funciona muito bem ao vivo e é de Rubinho Antunes – canção feita por ele em referência ao pianista Brad Mehdal, músico bastante apreciado pelo grupo. “Salseiro” e “Saveiros” possuem uma proximidade com ritmos brasileiros. “Caqui” é composição de Bruno Barbosa, trazida para o álbum por se encaixar no conceito do álbum.

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E Ludere assim se fez, construído na base do lúdico e da mágica, do deslumbramento. É fazer música com qualidade e a seriedade, mas nunca se esquecendo da simplicidade, de divertir-se ao fazer, de provocar aquela alegria mais genuína. Ludere nos faz lembrar que é preciso levar a vida a sério, mas nem tanto.

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2 comentários em “Philippe Baden Powell, Rubinho Antunes, Daniel de Paula, Bruno Barbosa – Ludere (2016)

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