James Blake – The Colour In Anything (2016)

Estranho e labiríntico, James Blake propõe um desafio ao ouvinte

Por Lucas Scaliza

Celebrado nome da música eletrônica intimista, James Blake vem se consolidando cada vez mais no cenário com discos consistentes e ouvido para boas canções que nunca almejam o mainstream, conservando uma veia alternativa, mas sempre feitas com bom gosto. E se o alternativo e o melancólico deram os contornos do ótimo Overgrown (2013), em The Colour In Anything ele adiciona o desafio.

Por mais diferente que pudesse lhe parecer as músicas de Overgrown, elas obedeciam a uma estrutura mais acessível. O novo álbum do compositor inglês é bem mais estranho devido a forma como ele combina os elementos. Tome uma música como “Love Me In Whatever Way”: voz e piano, sozinhos, são a base da canção e não temos problema nenhum em acompanha-la nesse formato. Mas Blake dificulta as coisas, colocando fills de guitarra – que depois reaparecem como samples –, batidas eletrônicas que não combinam com a faixa e sons de plateias rindo, que simplesmente não acompanham a tristeza da letra. Essas escolhas não são erros de Blake, mas um exemplo de como uma faixa simples se transforma em algo bem mais complexo – ou alternativo, ou difícil, ou experimental (você escolhe o termo) – quando quem está no comando quer distorcer sua própria música.

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E o mesmo processo ocorre com “Timeless”. Percebe-se que há uma música orgânica ocorrendo em todo o álbum, porém é o incremento de ornamentos eletrônicos (das batidas até os sintetizadores e samples) que dão a cara estranha que as faixas possuem.

James Blake vem ganhando espaço e reconhecimento rapidamente. Não apenas ganhou o Mercury Prize em 2013 por seu segundo álbum como recentemente ganhou protagonismo na faixa “Forward”, de Lemonade, da Beyoncé. Em parte isso se deve ao fato de entregar músicas sensíveis ao mundo do eletrônico, e não baladas. Ao mesmo tempo, renova o R&B seja na forma de cantar ou em como encara suas batidas. “Radio Silence”, “Put That Away And Talk To Me” e “Noise Above My Head” são exemplos disso. A menos que seus movimentos de dança contemporânea estejam bem ensaiados, não espere dançar com o R&B de James Blake.

O efeito de The Colour In Anything deve variar de ouvinte para ouvinte, mas ele não almeja deixar seus miolos em uma vibe positiva. A música é inquieta, causa desassossego mental e, no meu caso, mesmo tendo ouvido o disco 10 vezes até a produção deste texto, ainda sinto desconforto com diversas de suas escolhas harmônicas e de efeitos, fazendo o lado esquerda da cabeça doer levemente. A faixa “I Hope My Life” é uma das faixas mais cheias de som, com sintetizadores e batidas pesadas, mas igualmente pesado é seu clima e o estranhamento que causa.

Contudo, Blake nos dá alguns momentos de maior clareza, como na etérea “Waves Know Shores”, na balada de piano “f.o.r.e.v.e.r”, a ótima “I Need A Forest Fire” e “Modern Soul”, com seu refrão emocionante. Em um trabalho com 17 faixas, são bem poucos os momentos de “descanso”.

O desafio é aprender a buscar o belo no aparente caos de sua música. A vocalização em “Choose Me”, a linha de baixo de “Noise Above My Head” e a aproximação do jazz na faixa-título e o sintetizador com efeito flutuante de “Always”. “Two Men Down” é um dos melhores momentos do trabalho em que as várias vertentes de James Blake se conectam: harmonias que soam estranhas, vocais poderosos, a quentura dos teclados e sintetizadores, efeitos eletrônicos e ritmo.

As participações especiais de Frank Ocean e Justin Vernon (cada um figura em duas faixas diferentes) ficam tão bem que quase não se sente a presença deles, tal é o controle de Blake sobre sua obra e a disposição de Ocean e Vernon em participar sem estrelismos. Kanye West também havia sido convidado para gravar com Blake, mas a participação acabou não acontecendo. Será que a estrela ascendente teria domado o ego do popstar também?

The Colour In Anything não é para iniciantes. Mesmo quem já estava bem acostumado com a sonoridade dos dois primeiros álbuns de James Blake perceberá que ele foi mais ousado dessa vez. Apesar da dificuldade inicial em atravessar os mais de 70 minutos de música, é um disco que cresce com o tempo, conforme cada faixa se torna mais familiar e menos labiríntica. Acredito que nenhuma das canções algum dia será digerida facilmente, permanecendo como um marco na discografia de James Blake e também em 2016. Quando o assunto é essa música contemporânea cheia de nuances sintetizadas e melancolia, como London Grammar e The XX, o inglês ainda se mantém na dianteira.

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