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O Teatro Mágico – Allehop (2016)

New Order como referência, bom disco e ainda buscando opções na carreira

Por Lucas Scaliza

Com o fim da trilogia marcada pelos três primeiros discos, o grupo O Teatro Mágico abandonou a pretensão sonora pluralista e começou a colocar a carreira nos eixos sendo mais objetivo e direto. Após mostrar pop, folk e rock com Grão do Corpo (2014), a referência mais próxima de Allehop passa a ser o New Order. Saem as guitarras e os violões e sobem para o primeiro plano o baixo, o teclado e o sintetizador para dar uma cara mais oitentista ao trabalho, uma virada sonora bastante diferente do que Fernando Anitelli e sua banda haviam mostrado até agora.

Muitas vezes chamado de “trupe” por conta do visual e das encenações artísticas de seus shows, talvez o termo já não caia mais tão bem aO Teatro Mágico. Eles ainda pintam os rostos e usam figurinos ao vivo, continuam tendo entre seus membros três artistas performáticas que garantem um deslumbramento ainda maior das plateias e o termo que dá nome ao disco é uma expressão do circo que indica o tempo para um número acrobático, mas agora toda a integração de poesia, literatura, artes cênicas e música já parece menos importante ou, pelo menos, menos impactante. E desde que Grão do Corpo devolveu à banda a importância dos instrumentistas ao vivo, agora é mais banda do que nunca. Mas de Grão à Allehop, o Teatro parece ter perdido outra coisa (e esta faz falta): o engajamento político.

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Foto: Sérgio Holanda

O letrista e compositor Anitelli tem todo o direito de fazer um disco mais leve e menos crítico, mas como essa característica da banda vinha sendo desenvolvida desde o primeiro álbum já nos acostumamos a esperar posicionamentos políticos e sociais dele por meio de suas músicas. Fato é que músicas menos críticas conseguem uma penetração midiática muito maior e, ao longo dos anos, já tiveram músicas escolhidas para trilhas de novelas da Globo e do SBT. Mas não nos esqueçamos que a bela música “Pena”, lá do Segundo Ato (2008), figurou na novela Viver a Vida e, embora seja uma canção bastante acessível e com um refrão que ganha qualquer plateia ao vivo, tem uma das melhores letras de Fernando Anitelli, com uma elegância crítica digna de Chico Buarque.

Mas não vamos fazer digressões que nos levem para longe de Allehop. As músicas são diretas, com batidas que empolgam sem pesar a mão e com um clima mais alegre e sintetizado, menos folclórico e menos roqueiro. A presença de Fernando Anitelli é sentida na escolha de rimas e na forma como expressa as emoções pedidas por cada música. Mas é Sérgio Carvalho (baixo) e Guilherme Ribeiro (teclados) que dão a tônica do trabalho. Com uma sonoridade oitentista e cheia de atmosferas criadas por sintetizadores, Allehop foi produzido pelo ótimo Alexandre Kassin, um dos músicos e produtores brasileiros que mostra maior arrojo e bom gosto, sabendo manter os elementos criativos de uma canção sem precisar nivelá-la por baixo.

Kassin também tem um bom olho e um bom ouvido para correr riscos, o que ele já mostrou com Vanessa Da Matta, em sua própria carreira solo, Marcelo Jeneci, Los Hermanos e em muitos outros projetos. Esta é outra falta de Allehop: acessível e bem executado, corre poucos riscos. Se por um lado investe numa sonoridade que enriquece seu repertório e não desperdiça a chance de fazer uma boa música, de outro parece que não trazem nem elementos que nos surpreendam quanto à estrutura das canções e nem uma carga emocional muito grande.

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“Tudo que Faço para Ser” tem um riff de baixo que promete ficar na memória de qualquer ouvinte e um refrão que eleva a dinâmica e o volume dos instrumentos, sendo uma grande aposta para apresentações ao vivo. “Quando se Distrai” tem outro desses refrãos marcantes, com os elementos linguísticos que já são a marca de Anitelli: “O que se destrói/ Quando se distrai/ O que se constrói / Quando a vida vai”. “Deixa Ser”, feita em parceria com Lucas Silveira (do Fresno), é a música mais direta e mais acessível do disco, animada e com jeitinho pueril.

Enquanto Carvalho criando os riffs e ditando as bases da maioria das músicas, Ribeiro constrói os arranjos com teclas e sintetizadores que se tornam o tema de cada uma. Sobra para Rafael dos Santos manter a bateria em dia com a proposta, fazendo na mão, como o New Order, outros fariam em uma bateria eletrônica.

A presença dos timbres sintéticos mesclado ao pop e à MPB chega a lembrar o caminho trilhado pelo capixaba Lúcio Silva em seus dois primeiros discos, Claridão (2012) e Vista Pro Mar (2014). Mas onde Silva errou a mão em Júpiter, O Teatro Mágico acerta com músicas como “Um Filme”, “Vim Te Buscar”, “Cada Caso” e “Veredas”.

“Refúgio” e “Soprano” destoam do resto. Mais sóbria e grave, “Refúgio” tem clima elegíaco e parece uma composição alinhada com uma influência cristã que Anitelli já havia evidenciado em outras canções de discos anteriores. “Soprano” é a solitária canção folk de Allehop. Leve e fluida, não segue a estética de 80% do disco. Nenhuma delas traz grandes novidades para o ouvinte, mas ajudam a diversificar o trabalho. A sanfona em “Soprano” traz um ar mais sulista aO Teatro Mágico, enquanto “Refúgio” parece uma composição que, caso tivesse guitarras distorcidas, poderia figurar no repertório do Rosa de Saron.

Entrada Para Raros (2003) ainda é o disco que, com sua diversidade bem costurada, tem a maior dose de criatividade da banda e daquele momento histórico em que foi lançado. Provavelmente, nem mesmo Fernando Anitelli sabia a dimensão do que estava criando 13 anos atrás. Allehop é mais conciso na proposta e no tamanho, é mais acessível e comercial, mas não abre mão de bons arranjos. Nenhuma das faixas é surpreendente ou terá a capacidade de incendiar a plateia, mas são boas no contexto em que se apresentam.

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4 comentários em “O Teatro Mágico – Allehop (2016)

  1. Muito boa a sua review, embora eu discorde: achei Allehop um sopro de inovação em uma fórmula que já estava ficando cansativa. Dá uma olhada no que redigi http://bitly.com/23WkSGu

    • Olá, Marcos. Li o seu texto e entendi bem o que você quis dizer e o que gostou em Allehop. Mas acho que nossa diferença básica é: onde você viu inovação, eu vi mais uma diferenciação dentro da discografia deles, mas não inovação para fora disso. Digamos que muitos daqueles sons não era novidade para mim (e nem para você, pelo jeito). E se ficou bom (e eu achei bom o disco) tem muito a ver com a produção do Kassin, que sabe trabalhar muito bem timbres, estilos e etc.

      Resumindo é isso. Mas muito válida a sua análise também. É bom existir esse diálogo.
      Abraços!

  2. Pingback: Liniker e os Caramelows – Remonta (2016) | Escuta Essa!

  3. O ponto de vista do artista é o vela que se apruma ao vento. Os ventos não sopram ao longo do tempo de uma direção só. Então o artista muda a posição da vela para continuar se deslocando e aproveitando os ventos que sopram a cada instante. Se ele manter a vela numa posição só, inevitavelmente, o barco vai parar. A criatividade vai secar.

    Eu não estou defendendo o artista em questão. Acho que muito se perdeu. Eu era mais um identificado, gravitacionalmente atraído pelo Entrada pra Raros e o Segundo Ato. Porém, vi a influência de uma produção correta, um foco em perfeição e amadurecimento musical que socaram a irreverência e espontaneidade, combustíveis da criatividade, para o fundo de baú no fundo de um porão.

    Para mim o Fernando é um gênio mas me pareceu que ele quis, conscientemente, aprumar a vela numa direção algo insossa. Tipo comida para idosos. Com menos sal.

    e em Allehop, o que se vê são as novidades de produção e mais uma vez apontar para algo novo que deve soar bem, neste caso o uso de sintetizadores. Mas mesmo apontando para novos caminhos técnicos, para nova forma de construção dos arranjos, tudo é feito emm nome desta maturidade musical, bem retratada neste sua análise como o momento mais banda da trupe.

    Enfim. Vale continuar escutando. Em meio a esta sonoridade correta desde a chegada do Daniel Santiago o Fernando continua tendo lampejos daquilo que sempre fez de melhor, criar músicas que não cabiam nelas. Que extrapolavam. Hoje ainda dá pra ver essa energia, numa frase aqui, num refrão ali, numa idéia transmitida eu em algum momento onde ele ainda “se permite” no palco.

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