2016 MPB Nacional Resenhas

Zeca Baleiro – Era Domingo (2016)

GOSTEI: Zeca Baleiro volta a fazer baladas, mas não perde a miscigenação musical e nem o bom humor

Por Lucas Scaliza

Há quem prefira os dedilhados e a poesia de Líricas (2000). Há quem prefira a busca pelo paradeiro de Stephen Fry. E há ainda quem cante junto com os vários duetos que ele já fez ao longo da carreira, como se fosse uma terceira voz. Mas o que sempre definiu, em grande medida, o estilo de Zeca Baleiro é um bom humor e uma ousadia de misturar certos elementos que chamou a atenção. Sua clássica “Heavy Metal do Senhor” é um grande exemplo até hoje. Ainda que possua discos mais focados ora em MPB, ora em folk rock (como o ótimo Baladas do Asfalto e Outros Blues, de 2005), são experiências mais heterogêneas como Pet Shop Mundo Cão (2002) que demonstram as boas ideias do maranhense, que vai do eletrônico ao rock, da balada ao drum ’n’ bass com naturalidade, como quem faz arte a sério, mas tem a qualidade de não se deixar levar muito a sério.

Era Domingo, novo disco de inéditas de Zeca Baleiro, parece congregar um pouco de Líricas, de Pet Shop e de Baladas do Asfalto, com algumas pitadas do jeitão mais popular de três álbuns mais recentes – O Coração do Homem Bomba 1 & 2 (2008) e O Disco do Ano (2012). Para ser sincero, não sou fã desses três álbuns. Embora tenha encontrado um lado bastante divertido e até dançante de Baleiro, no geral não foram discos com música, letra ou ritmos que dialogaram plenamente comigo e com muitas outras pessoas que esperavam uma proposta diferente do compositor.

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Foto: Rama de Oliveira

“Era Domingo”, “Balada do Oitavo Andar” e “Deserta” podem ser encaradas como a versão indie rock do maranhense. Embora utilize os elementos do estilo, consegue dar seu toque especial, como a harmonia lânguida dos versos de “Balada”. Aliás, é um disco baladeiro em grande parte, cheio de passagens simples, mas inspiradas, como mostra em “Homem Só” (uma das melhores do disco) e na mais direta “De Mentira”. Baixo, bateria e violão estão sempre na base das canções, sendo complementadas com bons arranjos de guitarras mais roqueiras ou teclados e sintetizadores mais viajantes e quentes.

Outras faixas exploram sonoridades diversas e fazem de Era Domingo exemplo do caldeirão de referências e possibilidades criativas que Zeca utiliza. Assim temos o reggae/frevo animadinho de “Ela Parou no Sinal” e o reggae mais ameno de “O Amor é Invenção”, que embora seja uma faixa fraca do disco, parece perfeita para novelas e rádio. A divertida “Desejo de Matar” usa efeitos eletrônicos e cai num surf rock. “Pequena Canção” é outra que mistura programação eletrônica com dedilhados de violão e sanfona, trazendo um gosto mais nordestino ao trabalho. “Desesperança (Sobre Poema de Sousândrade)” é outro dos melhores momentos do disco em que ele mistura declamação de poesia com batidas eletrônicas e dedilhados de violão, criando uma vibe noturna e urbana. A gostosinha “Ultimamente Nada” fecha o disco em clima cigano, baixando o Eugene Hütz do Gogol Bordello no Zeca.

Consegue ser lírico e poético, consegue fazer baladas mais sérias e sóbrias, é romântico sem ser meloso e também exerce o seu humor característico. Acaba que Era Domingo é um álbum com um lado mais roqueiro (de leve) e outro mais miscigenado. O melhor disco de Zeca Baleiro então? Longe disso, seja lá qual for a faceta dele que você prefere, é um trabalho digno do compositor. Não mostra uma exploração sonora e artística muito abrangente, mas se dá bem com o que propõe.

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Foto: Rama de Oliveira

NÃO GOSTEI: Falta tesão

por brunochair

Antes de iniciar alguma resenha mais aguardada, a equipe do Escuta Essa! (Lucas Scaliza, Gabriel Sacramento e brunochair) troca algumas mensagens sobre as expectativas e a experiência de audição de um determinado disco. E, embora tenhamos gostos em comum e concordemos muito, às vezes surgem opiniões e pontos de vista bastante distintos – processo natural, aliás. Logo no começo do blog, o Lucas e eu divergimos sobre o então disco novo d’O Teatro Mágico (aqui, o “gostei“; aqui, o “tenho ressalvas“) e, por contingências que a vida nos proporciona e o elevado número de lançamentos, não fizemos outras resenhas no mesmo molde.

Porém, há o disco novo do Zeca Baleiro. Cheio de expectativas, ouvi o álbum e senti uma frustração grande. Esperei o Lucas ouvir, disse que gostou. Continuei frustrado. Duas amigas ouviram, e também tiveram a mesma impressão que a minha: é como se faltasse algo. Mas, o que falta em Era Domingo? A partir dessa dúvida, voltei a ouvir o álbum mais algumas vezes, para tentar chegar em uma conclusão. E o que falta, então? Sinceramente? Falta tesão.

Era Domingo, do meu ponto de vista, é bastante apático. Ainda que eu concorde com o Lucas sobre a variedade de estilos musicais e a irreverência estarem presentes neste disco novo, letras e arranjos não dialogam. Um álbum com freio de mão puxado. E, claro, faço esses comentários tomando por base a incrível discografia do Zeca, que conseguiu atingir proporções líricas incontestáveis em discos tão distintos quanto Por Onde Andará Stephen Fry? (1997), Líricas (2000) e Baladas No Asfalto & Outros Blues (2005).

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Estes álbuns possuem em comum este poder de ser e soar vanguardista, algo que ficou perdido neste disco novo. Assim como o Lucas, não sou fanático por O Coração do Homem Bomba 1 & 2 (2008) e O Disco do Ano (2012), mas ainda vejo nestes álbuns um caráter estético inovador. Era Domingo não possui a mesma força: falta um Baleiro mais incisivo, ironizando, questionando, colocando-nos a par da miséria humana com uma musicalidade surpreendente.

“Era Domingo” inicia numa frequência folk-rock, bem ao estilo Baladas no Asfalto. Apesar de um arranjo bem feitinho e a letra ok, em nenhum momento a música decola. Aí está o problema: o álbum é protocolar demais. Onde está o tesão? “De Mentira” parece um repeteco da música “Baladas do Asfalto”, do disco de 2005. “Ela Parou No Sinal” é animadinha, bacana, mas fica nisso, apenas.

“Homem Só”, “Desejo de Matar” e “Desesperança (Sobre Poema de Sousândrade)” conseguem respirar e proporcionar algo menos apático dentro do álbum, mas ainda assim não possuem a mesma força que os singles do calibre de “Bandeira”, “Samba do Approach”, “Quase Nada”, “Babylon”, “Telegrama”, “Balada do Céu Negro” e tantas outras canções que fizeram Zeca Baleiro ser o artista reconhecido que é hoje. Ainda que tenha me sentido frustrado ao ouvir o álbum novo e que tenha feito esta resenha bastante crítico sobre Era Domingo, da minha parte sigo acompanhando o artista de perto, haja vista a sua importância e representação na música popular brasileira. Que domingo seja um dia de semana a se esquecer, na discografia do Baleiro.

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1 comentário em “Zeca Baleiro – Era Domingo (2016)

  1. Pingback: Mart’nália – +Misturado (2017) | Escuta Essa!

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