2016 Metal Resenhas

Gojira – Magma (2016)

Banda francesa flerta com o metal alternativo e produz álbum ritualístico e consistente

Por Lucas Scaliza

Magma é surpreendente. Após a ferocidade de The Way Of All Flesh (2008) e de toda a velocidade e brutalidade sofisticada de L’Enfant Sauvage (2012), era difícil esperar que o quarteto francês do death metal fizesse uma incursão ainda mais profunda pelo progressivo e buscasse sons mais alternativos em sua música. Por isso, é bom deixar claro desde já que Magma é o Gojira fazendo algo bem parecido com o que os suecos do Opeth fizeram com Heritage (2011) em termos de explorar um novo jeito de se expressar.

A vociferação de Joe Duplantier que tomou conta do excelente L’Enfant Sauvage e a energia seca e thrash característica da banda ainda estão presentes nas faixas “Stranded”, “Silvera” e “The Cell”, as duas músicas mais curtas do álbum. Mesmo com pouco mais de 3 minutos cada, elas apresentam mudanças de compasso, riffs pesadíssimos e a matemática rítmica que a banda tem incorporado. Há ainda a brutal “Only Pain”, agressiva e com riffs curtos, precisos e que fazem soar a afinação mais baixa dos instrumentos de corda. São essas quatro faixas que melhor conectam Magma ao estilo mais imediatamente reconhecível do Gojira. Grande parte do restante do álbum é uma surpresa.

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A música que abre o disco, “The Shooting Star”, é praticamente uma declaração de intenção estética. Estelar, ritualística, com velocidade mais comedida, a guitarra de Christian Andreu é pesada, mas adorna a canção de uma maneira que alterna entre o dissonante e o harmônico. Mas a principal diferença está na voz de Duplantier: limpa, sem vocais guturais. E quer saber? Está excelente. A banda diz que ficaram trabalhando nessa faixa por três anos.

“Magma” é um verdadeiro ritual progressivo, com linha vocal que imita um cântico de seita e sem pressa de chegar onde quer. Os versos são acompanhados por linhas de guitarra que denotam a utilização diferente do instrumento buscado neste disco. Além de riffs e acordes, Andreu criou linhas melódicas que lembram a utilização alternativa do instrumento no Deftones ou do cenário do metal industrial. Assim, o death, o heavy e o thrash metal já testado deles – com infusões de progressivo e – ganha influências do metal alternativo e industrial, sem falar no clima de seita religiosa que permeia diversas faixas e dá a cara deste álbum. “Pray” e “Low Lands” seguem o mesmo esquema. Por fim, “Liberation” é uma faixa instrumental executada no violão. Mario Duplantier assume a percussão ao invés de bateria. A exploração do modo grego do violão é o momento mais Steve Hackett que o Gojira já se permitiu ter em sua discografia.

Os irmãos Duplantier, que capitaneiam o grupo, mudaram-se de Bayonne, na França, para o Queens (Nova York), onde começaram a construir um estúdio próprio, o Silver Cord. Contudo, precisaram interromper os planos de completar o estúdio e gravar o disco novo quando souberam que a mãe havia falecido. Os meses que se seguiram foram tristes e tortuosos. Não só atrasaram a programação da banda como influenciaram no tom emocional do disco. Esse pode ser um dos motivos de Magma soar mais humano e mais sentimental do que L’Enfant Sauvage. Para conseguir fazer a voz limpa de Joe soar como um cântico, eles adicionaram várias camadas de voz na mixagem, algo também inédito até então em um álbum feito por eles.

Em outras resenhas para o Escuta Essa! já havia chamado a atenção para a questão do peso. Não faltam bandas que soam pesadas apenas por soarem pesadas, sem que exista real motivo nas letras, ou no contexto da banda ou do mundo vivido e retratado pelos artistas, que justifique o peso de maneira mais consistente e não apenas como exercício de técnica e para impressionar os impressionáveis. Peso de verdade, como o Black Sabbath ensina, não se trata de velocidade ou show off, mas de intencionalidade. E isso o Gojira tem de sobra. Já é bem conhecido o envolvimento político da banda, principalmente com causas ambientais. Não só usam o metal pesado para falarem sobre o tema como também já direcionaram lucros de um EP para uma instituição da área. Além disso, são maduros o bastante para criar letras de impacto social e psicológico sem cair na armadilha de fazer autoajuda ou letras positivas que, de forma nenhuma, combinam com o peso de suas músicas. “Silvera” é o ponto em que mais se aproximam disso, quando vociferam “Quando você muda a si mesmo/ Você muda o mundo”. O contexto da canção aponta o dedo para o ouvinte e o faz questionar se ele realmente está fazendo a parte dele. Tem ideologia (a transformação começa com cada indivíduo), mas sem idealização.

O disco, desde o princípio, foi pensado para ter faixas mais curtas e ele próprio ter uma duração menor. Embora a sonoridade conseguida em Magma seja excelente e pudéssemos ouvi-los sem problemas por uns 10 minutos a mais, a curta duração faz com que o álbum funcione melhor, ressaltando o que cada faixa tem de melhor e único, sem que precisem reciclar ideias para novas faixas. Editar é uma arte e os irmãos Duplantier levaram isso a sério dessa vez, já que declararam que pelo menos duas músicas em que trabalharam foram descartadas e alguns riffs compostos também acabaram cortados das composições no final. Até então o álbum de quatro anos atrás, gravavam as faixas na íntegra, como tinham sido compostas.

No mundo do rock pesado, Magma é um ótimo álbum que fica entre o vanguardismo de Heritage e a potência thrash do Lamb of God. Um disco que atesta a maturidade da banda tanto artística quanto técnica, em que o peso é dirigido pelas emoções e intenções, com equilíbrio, e não com a ferocidade artificial de bandas que soam extremamente pesadas somente para conquistar a audiência logo depois com refrãos melodiosos e melosos. Para todos os fins, é disco de uma banda que nos últimos quatro anos conseguiu um estúdio próprio, conseguindo maior emancipação, e seus membros fundadores tiveram filhos e passaram pela experiência do luto. Só podia resultar em um disco “adulto”.

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3 comentários em “Gojira – Magma (2016)

  1. Resumiu meus sentimentos, pensamentos e conexão com esse álbum.
    As minhas faixas favoritas são as mais emocionais: Low Lands e The Shooting Star.
    Estou em harmonia com este disco, e ele já é um dos melhores álbuns que já ouvi na vida.

  2. Pingback: 15 melhores álbuns do 1º semestre de 2016 | Escuta Essa!

  3. Pingback: Igorrr – Savage Sinusoid (2017) – Escuta Essa!

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