2016 Pop Resenhas Rock

Red Hot Chili Peppers – The Getaway (2016)

Com produção de Danger Mouse, RHCP diminui o funk, mas aumenta o nível criativo

Por Lucas Scaliza

“…E uma mulher saiu de casa, segurando uma criança, dizendo ‘Meu bebê, meu bebê, meu bebê não está respirando!’ Nós todos atravessamos a rua correndo, a mulher colocou a criança nos meus braços, ela não estava respirando, e pensei “Vou tentar fazer uma ressuscitação pulmonar bem rápida, colocar um pouco de ar na criança”. Tentei abrir a boca, que estava bem fechada. Então comecei a esfregar a barriga e bolhas saíram da boca, os olhos voltaram ao lugar, a ambulância apareceu. Entreguei o bebê, que já estava respirando , e voltamos ao Carpool Karaoke. […] A criança precisava de ajuda e estávamos lá.”

Isso é o que conta Anthony Kiedis, vocalista do Red Hot Chili Peppers, em uma entrevista de rádio após ir ao ar o episódio do Late Late Show em que a banda participa do quadro Carpool Karaoke. O instinto paterno e responsável de Kiedis, ele também um pai de uma jovem garota, falou mais alto durante a gravação do programa. Mesmo após todos os problemas pessoais, sentimentais e químicos, e mesmo depois da fama, ainda há brilho em seus olhos. Mas também há muito mais melancolia em seu olhar, diferente do jeitão malandro que dominou sua personalidade como frontman descamisado da banda por tanto tempo.

Cinco anos após I’m With You (2011), o disco que marca a entrada do guitarrista Josh Klinghoffer, The Getaway soa como o álbum mais comportado já lançado pelos californianos. Ainda tem apelo jovem e sabem fazer boas canções, mas fica faltando (mais uma vez) o lado mais malucão da banda que já deu ao mundo “Give It Away”, “Can’t Stop” e “Around The World”, todas músicas celebradas e sempre acompanhadas de performances inspiradas. O clipe de “Dark Necessities” mostra que continuam alinhados com a Califórnia tanto urbana quanto praiana. Mas se um dia celebraram aquele ensolarado pedaço de terra estadunidense ao ponto de não esconder seus defeitos (“Californication” e “Dani California”) e compor uma singela balada melancólica para seus solitários habitantes (“Under The Bridge”), a Califórnia do Red Hot Chili Peppers agora é crepuscular, assim como a juventude da banda (e conforme envelhece, o físico de Kiedis vai ficando cada vez mais parecido com o de Iggy Pop).

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The Getaway consegue ser um disco mais alternativo do que One Hot Minute (1995) dentro da proposta de rock, pop e funk do RHCP. Se você já não encontrou a banda que esperava no disco de 2011, vai encontrá-la ainda menos desta vez. O melhor a fazer é aceitar o que o quarteto tem a nos mostrar: uma nova proposta que os deixa livre para explorar novas possibilidades musicais. É por isso que a música eletrônica encontrou um espaço no trabalho, mas é tão somente um flerte e um exercício de timbres que aparece em poucas composições. Todas as faixas do álbum são bastante orgânicas e dá pra sentir a condução característica de Chad Smith na bateria e de Flea no baixo. E talvez por ser orgânico é que sentimos falta de mais momentos em que a banda se solte e deixe a música crescer. Os momentos em que sentimos uma energia forte de verdade estão principalmente em “Detroit” e na ótima “Goodbye Angels”.

Klinghoffer não é John Frusciante e os fãs precisam entender isso. Frusciante foi o responsável por determinar o estilo da guitarra do RHCP que todos conhecem e substituir (ou mesmo reproduzir) algo assim tão marcante é muito difícil, para não dizer impossível. Além disso, quem seria Klinghoffer se seu papel como músico se restringisse a fazer “cover” de Frusciante, seu antigo mentor? A banda parece ter entendido isso melhor do que nunca – e os fãs precisam entender também!

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O guitarrista toca ao longo de The Getaway mantendo o balanço característico da banda, mas procura seu próprio jeito de fazer isso. Ele mostra que é bom de arranjos, quase sempre mais adornando as composições do que incluindo ritmos fortes. A utilização de pedais de expressão (como phaser e flanger) para mudar a timbragem do instrumento também chama a atenção. A sobreposição de diferentes camadas de guitarras está maior do que nunca. Em “We Turn Red”, uma das melhores faixas do disco, temos acordes dedilhados, duas guitarras diferentes com overdrive (uma à direita e outra à esquerda do seu aparelho estéreo), e um solo quase espacial no final da canção. Mas se quer ver Josh Klinghoffer dando uma de Frusciante, é em “The Longest Wave” que podemos vê-lo apresentar um belo trabalho. Na delicada “The Hunter”, ele carrega o instrumento de reverb e acompanha a voz de Kiedis com muito tato, deixando para o piano e para o baixo a tarefa de criar a base harmônica da canção (que, aliás, é uma das mais diferentes e das mais originais já feitas pelo RHCP).

Flea é o integrante mais destacado da banda mais uma vez e o músico que mantém a pose de malucão até hoje. Suas linhas de baixo são criativas e servem tanto como base harmônica quanto como linhas melódicas características, como ocorre em “Dark Necessities”, “Feasting On The Flowers” e “Go Robot”, sem falar no desalinho rítmico que propõe em “We Turn Red”, pontuando notas sem acompanhar a levada da bateria e da guitarra.

Danger Mouse foi o produtor escolhido para The Getaway. Mais do que isso, Brian “Danger Mouse” Burton divide créditos de composição com a banda e atua como o quinto membro dos Peppers. Sua visão criativa está presente no álbum como um todo. As adições eletrônicas que assustaram alguns fãs quando “Dark Necessities” foi apresentada nunca tomam grande proporção e nem roubam a cena, mas ajudam a afastar os contornos mais vintage da sonoridade do RHCP, abrindo espaço para que os arranjos, bem separados em camadas, sejam ressaltados. Assim, órgão, mellotron e sintetizadores (tocados pelo próprio Mouse) ganharam espaço no Red Hot Chili Peppers.

Danger Mouse tem bom gosto e sabe equalizar os elementos com que trabalha muito bem. Se falta ferocidade ao álbum, pelo menos ele ganhou com criatividade. “Sick Love” se permite ter um solo psicodélico e a participação de Elton John no piano. “Go Robot” é quase dance e tem sintetizadores dignos de banda indie. “This Ticonderoga” tem muitas passagens pesadas e ásperas, mas a alternância com passagens mais viajantes faz dela uma das maiores excentricidades estilísticas do RHCP (procure o som do sintetizador, ele está lá também). E para garantir que tudo ficasse bem organizado na mix final, ninguém menos que Nigel Godrich – o produtor do Radiohead e parceiro de banda de Thom Yorke e Flea no Atoms For Peace – foi contratado para o posto de engenheiro de mixagem.

No disco anterior já tínhamos visto a banda brincar com compassos diferentes, como o 7/4, que entraram para o RHCP após Flea, que se formou em música, propor desafios para si mesmo. Desta vez a faixa final do disco, “Dreams of a Samurai”, mostra o grupo alternando entre o 10/4 dos versos com o 4/4 do refrão. Uma faixa que destaca a capacidade técnica de Chad Smith e para onde todas as experiências do álbum confluem. Novamente, não tem muito a ver com o RHCP que você se acostumou a ouvir, mas se aceitar o RHCP sob a batuta de Danger Mouse e querendo fazer as coisas um pouco diferente, sentirá que “Dreams of a Samurai” é a prova de que uma das maiores bandas do mundo ainda é capaz de fazer algo diferente e não comercial. E sair do grande esquema do mainstream nem sempre é fácil para uma grande banda de rock que caiu no gosto popular (vide o que ocorre com Coldplay e Maroon 5).

Anthony Kiedis nega que tenha sido um herói ao salvar a criança durante as filmagens do Carpool Karaoke. Ele foi um pai que entende como se sente alguém angustiado com seu filho e mostrou segurança ao fazer a garotinha voltar a respirar, mesmo fazendo isso pela primeira vez. Ele também não será o herói de ninguém, a curto prazo, com The Getaway. Mas entre repetir as fórmulas do passado e seguir em frente, ele e sua banda seguiram em frente. O RHCP ainda é uma das poucas bandas do mundo que criaram um som tão único que não existe nenhuma outra fazendo algo semelhante. Ainda que faixas como “The Hunter” e “Encore” sejam muito mais etéreas do que esperaríamos dos Peppers (esta última tem até acompanhamento de uma pequena orquestra), eles se mantêm autênticos o bastante para saber que a Califórnia mudou, suas vidas mudaram e a juventude já vai longe. Mas nunca é tarde para tentar coisas novas pela primeira vez.

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4 comentários em “Red Hot Chili Peppers – The Getaway (2016)

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