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Metá Metá – MM3 (2016)

Uma das bandas mais criativas do art rock nacional faz um dos melhores discos do art rock nacional

Por Lucas Scaliza

Qual foi a última banda brasileira realmente criativa que você ouviu? Daquelas de te deixar pensativo por um tempo, tentando identificar de onde vem aqueles encontros sonoros? Se está lendo este texto, a última banda provavelmente é Metá Metá.

Tão coeso e tão instigante quanto o álbum de 2012, MetaL MetaL, MM3 vem ainda mais carregado de referências e faz com que a banda se mantenha inovadora e merecedora de atenção. Sabe aquele jazz alternativo e étnico do Bixiga 70? Aqueles sons de guitarra feitos usando apenas as cordas mais graves? Melodias de voz que lembram o Milton Nascimento de 1970? Tudo isso faz parte do grande caldeirão que é MM3 e resulta em faixas que não são comerciais, nem sempre fáceis de digerir e tão pouco podemos dizer que são comuns. Mas o conjunto da obra assina de vez o nome Metá Metá (e o de Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França) no panteão do art rock brasileiro.

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Após o sucesso da mistura entre rock e MPB dos Los Hermanos, uma série de bandas surgiu tentando seguir a mesma linha de letras, intenções, sonoridades e até barbas. Tivemos, sim, uma penca de boas novas bandas para ouvir. Outras, nem tanto. Mas se o rock mais artístico brasileiro começou lá no final de 1960 com os Mutantes e lutou a duras penas para apresentar algum sucessor, não é o Los Hermanos que deve carregar essa bandeira, é claro (o mérito deles está em outros departamentos). O Metá Metá, por outro lado, une rock, punk e metal com MPB de Minas Gerais, da Bahia, do Recife, de São Paulo. Traz elementos africanos para o seu som e letras que, por falta de definição melhor, parecem míticas e folclóricas, como se João Guimarães Rosa fosse uma referência também.

O espaço continua sendo experimental para todos eles. Thiago França coloca seu saxofone em primeiro plano em todas as faixas e, dado o contexto quase progressivo das músicas, faz algo que fica entre o Bixiga 70 e o trabalho de Theo Travis (Steven Wilson, Robert Fripp, Gong, entre outros projetos e bandas alternativas). A presença de França e riffs de Dinucci criam aberturas bastante atmosféricas que lembram os primórdios do stoner rock e do metal em faixas como “Três Amigos”, “Imagem do Amor”, “Ossanyn” e “Obá Kossô”. Já “Angouleme” é mais direta e todo mundo solta a mão no explosivo refrão.

“Angolana” ressalta a veia MPB do grupo e dá espaço para Juçara mostrar o lado cristalino de sua voz, contrastando com a última e visceral parte de “Corpo Vão” e ainda mais com sua faceta noiser vocal em “Imagem do Amor”, quando sua vocalização se transforma em ruído vocal. Não é todo dia que vemos essa coragem nem mesmo na música alternativa.

O tiro que responde pelo Metá Metá atua em diversas outras atividades. Juçara Marçal tem sua carreira solo e já teve um disco em parceria com Dinucci em 2007. Kiko Dinucci trabalha com uma série de artistas, de Rômulo Fróes, Passo Torto participação no segundo disco do Criolo e responsável por uma das guitarras esquisitas e fortes de A Mulher do Fim do Mundo, de Elza Soares. Thiago França não fica atrás e também acumula um currículo como músico da banda de Rômulo Fróes (outro dos melhores compositores contemporâneos brasileiros e que também preza pela criatividade), Gui Amabis e Tulipa Ruiz, além de ter uma incursão muito boa pelo samba e de também ter participado como arranjador e instrumentista de Nó Na Orelha, do Criolo.

Como se vê, são todos artistas de musicalidade expansiva e versátil que já se cruzaram em algum ponto com outros artistas em comum também. Embora possam soar como punk, jazz e samba em projetos paralelos, no Metá Metá – e em especial neste MM3 – fica claro que Juçara, Thiago e Kiko são um todo coeso e com uma sonoridade própria. Ao mesmo tempo que são parte de uma nova cena roqueira do Brasil, são também suficientemente criativos para terem formado uma banda bastante singular. Os elementos de MM3 nós já ouvimos separadamente em outras experiências musicais, sejam no Brasil (Ava Rocha é uma referência) ou fora dele, mas dificilmente ouvimos em um lugar só. E é por isso que uma das melhores bandas do art rock nacional fez um dos melhores discos do art rock nacional.

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5 comentários em “Metá Metá – MM3 (2016)

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