2016 Diversos Resenhas Rock

Swans – The Glowing Man (2016)

A escuridão do homem brilhante

Por Lucas Scaliza (com participação incidental de Brunochair)

Ouvir o álbum novo do Swans não é pra qualquer um. Não se trata, aqui, de uma discussão sobre The Glowing Man não poder ser consumido por um público ou outro, e sim pela própria vontade do receptor. O Swans não é ópera, não procura operar mudanças no status social de ninguém. Não quer fazer música para plebeus, para nobres. Eles apenas fazem a arte que lhes cabe, a arte que consideram ser a possível. A arte da entrega, do suor. Portanto, exige-se entrega para ouvir as duas horas de música a que o Swans nos oferecem, com The Glowing Man.

A inquietação é o tema marcante do álbum. Na primeira audição, há o espanto: não se sabe se haverá silêncio, barulhos, se entra guitarra, se haverá letras ou não, se os barulhos enigmáticos continuarão por toda a música, enfim… a música não dá um rumo pré-estabelecido, há o temor para onde ela levará. O ouvinte, cego, penetrando as entranhas obscuras de algo que não conhece. Terreno incerto.

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O pseudocaos se dá por conta de uma confusão grandiloquente de instrumentos, sensações, possibilidades. Se experimentado sem atenção, os arranjos podem comportar-se como um serrote lançado ao acaso no meio de um tornado. Ou seja, tudo cuidado é pouco. Porém, ouvindo pela segunda ou terceira vez, observa-se uma construção cartesiana nas composições, mesmo nas que apresentam mais variâncias. Há uma lógica, uma cronologia, é preciso estar receptivo a tudo isso – mesmo em um pseudocaos, há algum tipo de ordenação.

Melhor parar por aqui a brincadeira. Não percebeu a brincadeira? Os três parágrafos anteriores são uma cópia direta e quase sem edição nenhuma da crítica escrita por Brunochair para To Be Kind, o disco anterior do Swans. The Glowing Man é, ele todo, um álbum que suscita o mesmo tipo de musicalidade e de emoções que seu antecessor. Enquanto experiência musical, é uma continuação até bastante linear do que a banda já vem fazendo há algum tempo. Ainda é algo bastante pesado e difícil para qualquer tipo de ouvinte, dando continuidade à experimentação, à quebra de padrões do rock e dando um passo à frente no quesito abstração sonora.

Se To Be Kind era um bom disco, assim o é The Glowing Man também. Mudam os personagens e a ambientação, mas mantém-se o tom, a estrutura e a linguagem. No entanto, é o último disco que será lançado pelo Swans com a atual formação. Michael Gira, capitão desse grupo americano desde a estreia em 1982, pode pensar em projetos futuros com a banda e com o selo Young God sabendo que sua missão com a retomada da banda (o Swans foi ativo de 1982 a 1997, e de 2010 até agora) foi cumprida. O nível de experimentação e de ambição musical conseguido por ele pode ser comparado ao de Robert Fripp no King Crimson, ao do saxofonista John Zorn e às recentes experimentações psicodélicas do The Flaming Lips. Os próximos passos da banda não terão foco em turnês e Gira pensa em trabalhar mais com colaboradores do que com músicos integrantes do grupo.

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O multi-instrumentista Bill Rieflin, aliás, já foi baterista do King Crimson e do Nine Inch Nails e responde não só pelas baquetas no álbum, mas também pelo mellotron, baixo, guitarra, vocais e o piano esquisito de “Cloud of Forgetting”. Temos ainda um solo de cello em “Cloud of Unknowing” feito pelo sul-coreano Okkyung Lee e a presença de Thor Harris e Phil Puleo que contribuem com a percussão e na criação de diversos sons periféricos para a criação da vibe hora espacial, hora mística, hora ambiente e hora apocalíptica do álbum.

O “homem brilhante” que está no título do álbum é um indivíduo que lida com dilemas tanto políticos e sociais quanto mergulha em questões de amor e desejo, sexo e religião, as pressões mentais e físicas que fazem um/uma homem/mulher encontrar seu lugar no mundo ou perdê-lo de vez. Esse homem pode até transcender e se tornar um homem brilhante, mas este álbum nos faz ter certeza de que há muita escuridão dentro dele.

Se musicalmente o Swans é aclamado, a imagem do compositor Michael Gira está em xeque antes mesmo de o disco ser lançado. Larkin Grimm, cantora que já colaborou com Gira e que estava no elenco do selo Young God (chefiado por Gira), o acusa de estupro. Tanto o líder do Swans quanto sua esposa, Jennifer, têm negado que o estupro ocorreu. Talvez motivado por essa situação, a faixa “When Will I Return” é cantada por Jennifer e descreve um ato de violência contra a mulher e a recusa dela em se submeter ao homem.

Assim como o antecessor, The Glowing Man é mais conceito e música para os sentidos do que para curtir despretensiosamente. Novamente é um disco duplo (em CD) e que se espalha por seis lados de vinis, com três músicas que superam os 20 minutos de duração e duas com mais de 12. A tensão e o desconforto são constantes, os músculos só relaxam na resolução de “Finally, Peace”. Em 80% do resto do álbum, parece que estamos encarando um filme de suspense e terror em formato de música. Não muito diferente da vida, não é?

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