2016 Eletronica Indie Pop Resenhas

Bat For Lashes – The Bride (2016)

As fases do luto de uma noiva e o acesso ao coração, mente e alma femininos

Por Lucas Scaliza

Como quarto disco da carreira do Bat For Lashes, Natasha Khan chega ao estágio em que menos pode ser mais, já que faz de alguns poucos elementos o suficiente para criar uma estética própria para seu novo álbum, The Bride. Ao mesmo tempo em que temos elementos místicos que já estavam presentes em Fur And Gold (2006) e principalmente em Two Suns (2009), eles são criados de uma maneira diferente. Como a vertente pop está um pouco menos presente desta vez, sobra mais espaço para a criação de atmosferas que agregam drama à história e à interpretação vocal de Khan.

É o primeiro álbum conceitual do Bat For Lashes e fica evidente que Natasha Khan se preocupou em fazer um trabalho coeso e bem feito de storytelling. Na história, uma mulher perde seu noivo em um acidente de carro no dia do casamento. Ela decide ir para a lua de mel assim mesmo, sozinha, e começamos a acompanhar seus pensamentos, ações e até procura por conforto espiritual enquanto se desenrolam as fases do luto (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação) como se fosse um road movie.

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Vocalizações, baixo bastante marcante (como em “Honeymooning Alone”) e o teclado doce e levemente psicodélico são os elementos estéticos que dão marcam The Bride. Todos usados muito bem, sem exagero e na hora certa. Embora seja um disco pop, é música eletrônica indie que em momento algum se rende à necessidade de forçar a existência de um single chiclete. Nada em The Bride é ou soa ansioso. Vamos a um faixa a faixa para analisar alguns de seus aspectos.

I Do – Uma delicada introdução em que a noiva imagina como será a hora de dizer “Aceito” no altar, imaginando também que toda a tristeza e os “céus escuros” irão embora. Pode ser mais um amor romântico representado de forma idealizada, mas uma forma bem bonitinha de retratar as emoções a partir do “Aceito”.

Joe’s Dream – Sem perder a delicadeza e nem o minimalismo dos arranjos, Natasha começa a conciliar romance e escuridão novamente, uma dualidade que já estava presente nos três álbuns anteriores do Bar For Lashes. A faixa representa um mau presságio musicado com batida regular e marcante, piano grave, teclado, efeitos sonoros para criar um ambiente noturno e turbulento na imaginação de um amante. As vocalizações garantem que tudo seja etéreo na cabeça do ouvinte.

In God’s House – A Casa de Deus do título é a igreja onde a noiva espera pelo noivo e sente que algo está errado. O baixo é percussivo, criando a tensão e a materialidade da situação. De outro lado, o vocal de Natasha é fantasmagórico o e o sintetizador psicodélico do refrão imita uma harpa eletrônica.

Honeymooning Alone – Bateria orgânica e inconstante, baixo percussivo e sons doces acompanham o estado de negação da noiva. Uma mistura de estilo e storytelling que poderia a um só tempo estar na voz de Lana Del Rey e fazer Nick Cave e sua banda parar para apreciar a música do Bar For Lashes.

Sunday Love – Direta e constante, é a música mais pop do disco, mas sem que precise ser ultrapop.

Never Forgive The Angels – Representa a fase da raiva do luto e é mais um daqueles momentos de simplicidade nos arranjos que acabam se transformando em momentos de beleza etérea rara. O baixo mantém o pulso; a guitarra pontua as oscilações da harmonia; já as vocalizações são fantasmas que dão o peso da atmosfera.

Close Encounters – Elegíaca e noturna, um encontro da noiva com o fantasma de seu falecido noivo – ou uma alucinação causada pelo sofrimento do luto. De todas as faixas do álbum, esta é a que mais se apoia no transcendental, trazendo o sobrenatural (ou imaginação do sobrenatural) para o íntimo da protagonista.

Widow’s Peak – Aparentemente a noiva se encontra com um xamã ou médium que tenta fazer contato com o outro lado. O lado místico do Bat For Lashes sempre à espreita.

Land’s End – A jornada espiritual continua, dando protagonismo absoluto à voz de Khan.

If I Knew – Um folk de Natasha Khan ao piano marcando o início da aceitação da noiva conforme ela percebe como o amor lhe fez bem e, como é de praxe, faria tudo de novo mesmo se soubesse que destino trágico a aguardava.

I Will Love Again – Após uma balada folk e quatro músicas mais etéreas de busca espiritual, o baixo volta a marcar as mudanças harmônicas e cria lastros mais firmes com o mundo físico. A noiva, após o sofrimento da perda, a negação e a raiva, já começa a olhar para o futuro com esperança e decide terminar sua lua de mel solitária e voltar para casa.

In Your Bed – A melodia volta a ser cativante e um tom mais positivo se estabelece.

Clouds – Os versos da música que fecha o álbum ficam alternado entre dois acordes da guitarra, como se fosse uma canção de ninar. Embora o luto tenha terminado, a ausência permanece e Natasha encontrou um modo bastante interessante de representá-la: sintetizadores criam sons esvoaçantes e fugazes em torno da voz, mas o dedilhado na guitarra nunca chega àquele acorde dominante para poder trazer um sentido de completude à música.

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The Bride é um disco autoral, mas não underground como foi o ritualístico Sexwitch de Natasha Kahn e da banda Toy lançado ano passado. Entretanto, principalmente a segunda metade do álbum é menos servida de batidas e músicas fortes (no sentido pop), o que dá um aspecto mais contemplativo e etéreo ao trabalho. Mas não faltam momentos de emoção para aflorar a sensibilidade do ouvinte que se deixar levar pela proposta. The Bride é um caso de música pop e eletrônica indie que valoriza os “espaços vazios” da mixagem. Sem batidas ansiosas e sem instrumentos tocando por todos os cantos, sobra cantos vazios – e esse vazio é o mesmo que preenche o coração da protagonista.

Há sempre alguma força em movimento no trabalho de Natasha Khan. Performática sobre o palco, nos videoclipes e até na interpretação dos personagens de suas músicas, a teatralidade encontra espaço prolífico em The Bride. Embora pareça uma história clichê, casamentos são tão carregados de simbolismos que fornecem infinitas possibilidades de histórias que se desenvolvem a partir deles ou ao redor. Novamente, importa menos o “o que” do tema e mais o “como” ele é tratado e contado.

Embora não tenha faixas que peguem fácil, The Bride é o esforço criativo mais maduro de Khan e um vislumbre ainda maior do seu poder nos fazer mergulhar na alma feminina às vezes misteriosa, às vezes doce, quase sempre triste e muitas vezes assombrada. E é sobre isso que Natasha Khan tem cantado desde o início do Bat For Lashes: sobre corpos, mentes, corações e almas femininas assombradas. Isso desde “What a Girl To Do”, passando por “Sleep Alone”, “Moon and Moon” e até a dramática “Laura” e a pop “A Wall” (estas duas de The Haunted Man, de 2012). Se não é um disco pop para as massas, presta-se ao nobre serviço de tocar nossa sensibilidade emocional e musical como um livro de Virginia Woolf ou Clarice Lispector.

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