2016 Eletronica Indie Resenhas

Arca – Entrañas (2016)

Venezuelano Alejandro Ghersi mostra como nasce mais uma monstruosidade

Por Lucas Scaliza

Um emaranhado de sons sintetizados e timbres saturados constitui um ninho na mente de Arca, o jovem artista eletrônico venezuelano radicado em Londres. Em Entrañas, sua nova mixtape (ouça aqui), esse ninho sonoro se contorce em diversas direções para dar vida a mais uma monstruosidade musical. Com apenas uma faixa de 25 minutos, o EP é uma longa experimentação de ritmos e batidas, texturas e formas de combinar sons e vozes, fazendo a musicalidade surgir de um caos próprio de uma ficção científica underground.

Após ter colaborado com Björk em Vulnicura e ter lançado Mutant em 2015, Alejandro Ghersi ganhou moral no mundo da música experimental. Ou ainda mais moral, pois suas habilidades como produtor já haviam sido usadas por Kanye West e FKA Twigs, além de terem sido usadas como complemento aos visuais de Jesse Kanda em uma exposição no MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York). Essa “moral” parece ter contribuído para que Ghersi/Arca fique cada vez mais confiante e livre para experimentar. As participações dos produtores Mica Levi, Massacooraman e Total Freedom em três partes do trabalho até adicionam um sabor especial à obra, mas nada que se compare à onipresença de sua mão pesada e mente sensível ao estranho.

Arca_2016

Se em Mutant tínhamos 20 faixas que faziam mais sentido juntas do que separadas, em “Entrañas” ele entendeu bem essa característica de sua produção e uniu 14 composições em uma única e longa faixa, forçando a coesão da obra. Novamente, temos a impressão de que um grande ser de outro mundo está sendo criado ou invocado. Ao longo da faixa sentimos arrepios na espinha e vamos lentamente juntando os diversos pedaços de músicas e ruídos diferentes para montar uma história em nossa cabeça. No início da faixa, por exemplo, parece que estamos acompanhando o nascimento desse ser que se arrasta e tenta balbuciar suas primeiras palavras e ensaia uma forma de comunicação. As primeiras batidas que ouvimos lembram os timbres dos anos 90 executadas de forma bastante acelerada e caótica (embora obedeça a uma métrica). Em seguida, essas batidas assumem o ritmo de passos trôpegos. Lá pelos 14’30” é como se ferramentas de um marceneiro emulassem o ritmo de uma música de carnaval. Em seguida, gritos desesperados de mulher mostram o lado violento e ainda mais sombrio dessa criação. É perturbador.

A música de Arca é repleta de dor e tristeza, sofrimento e transformações que nem sempre nos levam para algum sentimento melhor. Ele frustra as expectativas. Em Entrañas ele mostra um lado mais musical do que aquele que estava presente em Mutant, colando no meio de suas monstruosidades trechos melódicos de sintetizadores e de vozes. Mas mesmo assim sua obra não se converte em algo mais palatável. Em seus minutos finais, uma voz canta, em espanhol, uma melodia que é tão linda quanto profundamente melancólica. Por fim, o que parece fogos-de-artifício se converte em algo mais metálico, menos colorido e mais abrasivo, interrompido abruptamente.

A música de Arca continua sendo um exercício estético da feiura e, por isso mesmo, talvez um exemplo bastante avançado de uma música inquieta e tensa e que, mesmo assim, pode nos revelar beleza e identificação. Não víamos algo assim desde o surgimento do Slipknot. Seu próximo álbum, Reverie, já está em fase de finalização e vale a pena manter os ouvidos abertos para Arca. Estamos diante de um dos produtores mais originais desta década.

2 comentários em “Arca – Entrañas (2016)

  1. Pingback: Of Montreal – Innocence Reaches (2016) | Escuta Essa!

  2. Pingback: Arca – Arca (2017) | Escuta Essa!

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